
Julho 7, 2011
Leituras recomendadas nos dias que correm (I)
Leitura complementar: João Cardoso Rosas, Miguel Morgado e Carl Schmitt.
CDS vs Moody’s
Não, não vou falar sobre o partido político!
O assunto deste post centra-se no Credit Default Swap (CDS) da dívida portuguesa (ver no Bloomberg a evolução dos CDS sobre as obrigações a 5 anos), um “seguro” que os credores podem comprar para prevenir o risco do Estado português não pagar as suas dívidas (default).
Comparando cotações de CDS com os ratings atribuídos pela Moody’s:
- 29 de Outubro de 2009: CDS 54,86 | Moody’s Aa2 (negative outlook)
- 5 de Abril de 2o10: CDS 146,94
- 27 de Abril de 2010: CDS 382,08
- 5 de Maio de 2010: CDS 421,25 | Moody’s Aa2 (possible downgrade, on review)
- 24 de Junho de 2010: CDS 328,56
- 13 de Julho de 2010: CDS 276,43 | Moody’s A1 (downgrade, stable outlook)
- 11 de Março de 2011: CDS 513,34
- 15 de Março de 2011: CDS 505,52 | Moody’s A3 (downgrade, negative outlook)
- 4 de Abril de 2011: CDS 580,17
- 5 de Abril de 2011: CDS 585,585 | Moody’s Baa1 (downgrade, under review down)
- 27 de Junho de 2o11: CDS 841,535
- 5 de Julho de 2011: CDS 770,695 | Moody’s Ba2 (downgrade, negative outlook)
Podemos acima verificar que o rating da Moody’s anda meio a “reboque” do valor dos CDS transaccionados no mercado. Por outras palavras, o receio de Portugal entrar em incumprimento tem crescido independentemente do rating atribuído pela Moody’s (veja-se o caso do último downgrade a 5 de Julho quando o CDS já tinha atingido o seu máximo dias antes).
Julho 6, 2011
Sócrates tinha razão: a culpa é das agências de rating…
Cavaco Silva diz “não haver mínima justificação” para corte de rating
Assis contra ataques especulativos das agências de “rating”
Moody’s. Novas medidas de austeridade “foram tomadas em conta” no corte do rating
Tremenda desilusão. Por Gabriel Silva.
Então face a uma situação calamitosa das finanças públicas deixadas pelos socialistas, a primeira e única medida de impacto que conseguem arranjar é aumentar os impostos?
(…)
Dizer que «em outubro vamos anunciar cortes» é o mesmo que os não fazer. E este choradinho sobre os ratings, é tão ridículo, tão socrático. Um país anda 3 décadas a gastar mais do que tem. Para pagar dívidas, contrai novas dívidas. E o primeiro sinal que o governo dá, não é o de cortar despesa, mas sacar mais dinheiro para manter a coisa assim. Queriam que a reacção fosse o quê?
Leitura complementar: two minutes hate; Indignação para quem?; Mate-se o mensageiro; laissez faire; As agências de rating e as dívidas dos Estados.
Uma vida improvável; uma morte prematura
intenções
Na matriz política portuguesa, só é “socialista” a política com intenções socialistas.
Como é possível que partidos “à direita” tenham políticas ditas socialistas? Podem roubar, dissipar e redistribuir riqueza alheia; levar a cabo toda e qualquer engenharia social; ordenar e dirigir a economia. Em suma, alguns “direitistas” e até mesmo “liberais” podem ser indistinguíveis, nas acções, dos seus camaradas ditos “à esquerda”. “Socialista” só pode ser aquele que leva o socialismo no coração e ninguém o cala.
Por outro lado, é “liberal” tudo aquilo que fuja ao cânone egalitário tal como definido pela extrema-esquerda.
O último Governo obesificou o Estado até aos limites, usou a política para corromper Economia e sociedade, namorou todos os progressismos tecnológicos e sociais – mas falhou em nacionalizar os meios de produção. Ou seja, sucumbiu à doutrina neoliberal de Reagan e Thatcher. O Presidente da República todos os dias discursa esquerdismos de repartição “justa” dos sacrifícios (leia-se “os ricos que paguem a crise”). Ou seja, calou-se para dar o poder ao fascismo tecnocrata. A aliança Passos-Coelho/Portas faz todos os possíveis por salvar o Estado social-democrata, inclusivamente vai poupar oitocentos milhões ao défice lá para o Natal — mas não sabem eles que há mais vida para além do orçamento? Neoliberais.
O país político vive de intenções e semântica; não será de admirar que os resultados de tanto esforço nacional para estabilizar esta desestabilização não passem das palavras.
ainda o “rating”
Acabo de ouvir da Dra. Maria de Belém, líder parlamentar interina do PS (em declarações no telejornal da RTP), um conjunto de enormidades, a propósito de uma alegada influência de fundos de pensões especulativos de países que não têm sistemas públicos de pensões e que são clientes da agências de “rating”…or so she said. Há, de facto, conflitos de interesses no funcionamento das agências de “rating”, mas, por favor, senhora deputada, informe-se antes de falar publicamente dos assuntos!
Paciência e sentido crítico
«O governo está em funções há duas semanas e os críticos já planam por todos os lados (…) Se era de esperar que a claque socrática demonstrasse uma inequívoca amnésia em relação a tudo que nos conduziu até ao pedido de ajuda externa, reparo que alguns à direita, lendo por aí uma certa blogosfera, nem sequer dão o benefício da dúvida ao governo da coligação PSD/CDS (…) Quem à direita andou anos a pedir um governo destes agora devia ter mais paciência. Porque se pensam que se acaba com o socialismo asfixiante que tem governado Portugal em algumas semanas estão muito enganados.»
O texto acima é retirado de um post do Nuno Gouveia e creio ser bastante representativo do pensamento de muitos apoiantes da coligação PSD/CDS que estão surpreendidos com a forma rápida como outros apoiantes da mesma coligação começaram a criticá-la. Seis anos de “socratismo” parecem ter incutido no subconsciente das pessoas a ideia de que quem apoia não deve criticar. Que José Sócrates tenha conseguido secar o PS e reduzido o sentido crítico dos seus apoiantes ao mínimo não significa que o mesmo tenha de ocorrer com o novo governo. Vamos por partes:
- Passos Coelho é de longe preferível a Sócrates; mas parte considerável desta preferência advém do juízo estratosfericamente negativo que eu e mais uns milhões de portugueses fazem deste último. Passos Coelho tem por isso que fazer prova de que é mais que um mero “anti-Sócrates” e que merece a confiança que votantes do PSD (directamente) e do CDS (indirectamente) lhe deram. O mesmo se aplica aos seus ministros e secretários de estado.
- O programa deste governo é largamente preferível, no papel, ao do anterior ou às alternativas que foram a votos; mas isso não quer dizer que medidas que tome que sejam criticáveis deixem de o ser. Não é uma questão de paciência ou benefício da dúvida. É uma questão de coerência, algo que faltou sobremaneira aos apoiantes do anterior governo durante seis anos. O melhor que pode acontecer a este governo é ser criticado pelos seus apoiantes; só assim poderá emendar a mão.
- A situação que o país vive é extremamente grave; todos o sabem e dizem, mas nem todos agem em conformidade. A primeira medida a sério do governo é um mau sinal. A ordem de prioridades conta muito e fazer o mesmo que governos anteriores não inspira confiança de que as mudanças realmente necessárias serão feitas.
- É evidente que o “socialismo asfixiante” não se elimina em duas semanas; mas esmifrar os burros de carga do costume em nada contribuirá para a sua eliminação. Já ouvi dizer que esta medida do imposto extraordinário foi corajosa. A mim parece-me justamente o contrário. Parece-me facilitismo e conveniência política.
Indignação para quem?
Os portugueses estão indignados com o facto de as agências de rating terem qualificado o investimento em dívida portuguesa como “lixo”. A imprensa portuguesa e demais instituições alinham pelo mesmo diapasão.
Estar no “lixo” quer dizer muito simplesmente que só um louco irá investir num Estado que vai entrar em default.
Na realidade, os portugueses não estão indignados com as agências de rating, mas sim com eles mesmos e com a classe política nacional. Deixaram-se convencer pelo discurso de que se fossemos bons alunos do FMI/UE o problema se resolvia. News flash: não é verdade. Mesmo que se siga à risca todas as regras que nos estão a ser impostas, Portugal irá entrar em default, e é por isso que as agências de rating (com todos os defeitos que lhes podemos apontar) colocaram Portugal no “lixo”.
Mesmo que as agências de rating não existissem, existem outras formas dos investidores avaliarem o risco de emprestar dinheiro ao Estado português. Por exemplo, ler livros. Olhar para a história económica e perceber a partir de que grau de dívida pública o default se torna provável ou até inevitável.
A resposta encontrada por historiadores económicos indica que a partir dos 90% de dívida pública em relação ao PIB o crescimento económico cai drasticamente e que os únicos resultados possíveis são um default ou uma massiva impressão monetária para permitir o recuar da dívida.
Ora, se Portugal já atingiu a marca dos 90% e não tem qualquer controlo sobre a sua política monetária porque está preso ao euro., resta o inevitável default. Todos os políticos nacionais sabem ou deviam saber isto; contudo, na sua ânsia de jogar o jogo do “vamos salvar o euro e o projecto europeu”, venderam uma ilusão aos portugueses que faz com que estes pensem que a culpa está no portador das más (mas reais) notícias: as agências de rating.
Com excepção para a extrema esquerda (que tal como um relógio estragado acerta na hora 2 vezes por dia), todos os políticos optaram por progressivamente vender a soberania portuguesa à União Europeia, por colocarem os bancos à frente dos contribuintes nacionais e por contraírem mais dívida. Isto tudo porque no fim os “sacrifícios valeriam a pena”. Mas não valem, pois o default é, em condições normais, inevitável.
Nestas condições, a única coisa que um governo poderia fazer seria liberalizar a economia o mais possível para que não o tivesse de fazer quando o default chegasse, pois aí seria muito mais doloroso. Infelizmente, parece que o governo opta por subir impostos e financiar-se pela via da receita para pagar uma dívida que … exactamente… nunca será paga.
Não, os portugueses não estão indignados com as agências de rating, estão indignados com os seus governantes que os tributam em vão.
laissez faire
“A crítica que, cada vez mais, se pode fazer, indiferenciadamente, à S&P, à Moody’s e à Fitch diz respeito ao “timing” e à natureza pró-cíclica das suas avaliações, pelo que, o problema está na atenção que se lhes dá (…) Assim, a solução está em reduzir essa importância relativa e em esvaziar o poder das agências de “rating”, nomeadamente o destaque que hoje assumem nos mercados financeiros. Como? Abolindo certas restrições ao investimento e a obrigatoriedade de certas qualificações, isentando os emitentes (vendedores) das notações de risco. E responsabilizando, como deve ser, os compradores por qualquer avaliação de risco adicional, para além da ‘due diligence’ dos próprios.”, em “Para o rating que os parta”, um texto que publiquei em Abril passado no Portugal Contemporâneo.
A revisão em baixa, ontem à noite, da notação de risco com que a agência Moody’s avalia o risco da República Portuguesa está hoje a penalizar fortemente os títulos portugueses. A bolsa registou a pior sessão do ano. E os juros da dívida pública, em mercado secundário, agravaram-se para níveis recorde desde a introdução do euro.
Enfim, sendo o “timing” da Moody’s muitíssimo discutível – pessoalmente, não vejo que nova factualidade possa ter justificado esta revisão agora –, a discussão em redor da bondade da decisão acaba por ser inócua pois, para o bem ou para o mal, a decisão já está tomada, assumida e anunciada. Assim, mais importante do que discutir o nível da nota, importa debater a importância atribuída às próprias agências de “rating”. É que hoje, apesar de todas as críticas dirigidas ao sistema de incentivos inerente ao funcionamento destas agências, continua-se a insistir, como suposta boa prática internacional, nas avaliações de risco produzidas por esta gente que, entre os quatro principais “players”, representam 99,9% das avaliações de risco produzidas por esse mundo fora – dos títulos de dívida pública aos malfadados títulos “subprime” – e que, em muitos casos, determinam a (não) elegibilidade desses mesmos activos para carteiras de investimento ou para salvaguarda de operações de financiamento.
Ora, está visto que aquilo que era (e que ainda é) percepcionado como uma boa prática internacional, não está a dar bom resultado…É, pois, preciso mudar o “statu quo”. Eu acabaria com a obrigatoriedade de atribuição de “rating”; cada qual que comprasse, e se responsabilizasse, à sua vontade.
Otto von Habsburg (1912 – 2011)
Entre muitos outros títulos e distinções, Otto von Habsburg era membro da Mont Pelerin Society e um dos mais destacados estudiosos a nível mundial da tradição da Escola Austríaca. Uma grande perda para a Europa e para todos os europeus que prezam a liberdade.
Within that neatly closed circle lay all the major political dramas of the 20th century, most of which he witnessed and some of which he influenced. He was centre stage for one of them — the unequal struggle against Hitler for the survival of his Austrian homeland, which he tried to conduct as an exiled Pretender in the 1930s. Not for nothing did the Führer call the triumphant march-in of March 12 1938 “Operation Otto”.
The Mises I Knew – Otto von Habsburg
Mate-se o mensageiro (3)
Parece-me um momento oportuno para relembrar este texto: As agências de rating e as dívidas dos Estados.
Mate-se o mensageiro (2)
Infelizmente, o verdadeiro murro no estômago até ao momento foi o anúncio de um significativo aumento de impostos (que vai penalizar ainda mais uma economia já estagnada) enquanto as reduções concretas de despesa anunciadas até ao momento são basicamente simbólicas. Assim não vamos lá.
Leitura complementar: Mate-se o mensageiro.
Se o disparate pagasse imposto não havia défice
Leitura complementar: Death by committee.
Mate-se o mensageiro
O Zé Aníbal, individuo de gostos refinados, é um moço lá do bairro. Todas as semanas, são finas as iguarias que vêm das mercearias do bairro, e enchem o olho os artigos vindos das lojas de electrodomésticos.
Há muito que o Zé Aníbal resolveu o problema do pagamento dos seus gostos pouco frugais: se o vencimento não chegava e os gostos teimavam em se manter refinados, tudo se resolveu no dia em que descobriu que isso se resolvia com uma assinatura no livro de fiado nas lojas do bairro. O dinheiro recebido ao fim do mês pagava assim as dívidas do passado de que o Zé Aníbal já nem se lembrava bem, e todos os meses a chegada de novos carregamentos de coisinhas boas aguçava o apetite. Não havia problema: bastava mais uma assinatura em mais uma linha e prontos.
(mais…)
A slight improvement
Suponho que num país em que um primeiro-ministro disse gostar de concertos para violino inexistentes e outro referiu ler um livro que não existe, para não esquecer ainda um terceiro que governou durante seis anos na twilight zone, estas coisas não são de surpreender. A referência sarcástica que o Diogo Belford Henriques faz a um livro que obviamente não leu, mas que no entanto existe, tal como a existência, tem de ser considerada uma melhoria marginal face aos exemplos que vêm de cima.
RE: Menos desculpas e mais trabalho
Menos desculpas e mais trabalho (João Miranda no Blasfémias):
Esta reacção sinaliza que o governo não tem grande vontade de reformar o Estado. Se a tivesse usaria a baixa de rating como argumento para justificar mais reformas. Assim dá impressão que está tudo bem, as agências de rating é que estão erradas e nós estamos certos.
O governo poderia ter alegado que corte se deve ao receio de existência de mais despesa desorçamentada — como o “buraco” que veio a “justificar” o roubo extraordinário do subsídio de Natal. Ao colocar a tónica no imposto, que aliás não suprime o dito buraco, o Governo mostra:
- que não percebe que o problema foi causado por décadas de social-democracia — e não por quem diz “vocês bateram no fundo”;
- que não percebe que a monstruosa dívida pública tem de ser substancialmente paga, que desculpabilizações não ajudam, e que medidas avulso só revelam desorientação
- que dá mais importância à supressão do défice pelo lado da receita, abordagem que mina a competitividade da economia portuguesa, e que compromete a capacidade do Estado de cumprir sustentadamente as suas obrigações;
- que entende que as soluções estão nos sinais e na determinação do Governo (que existia com Sócrates) e no amplo consenso político à volta do programa da troika (que também existia com Sócrates; quanto às medidas adicionais, ninguém pode dizer que os votantes PS as tenham legitimado).
Os críticos que denunciam que o Governo carece de experiência política regra geral fazem-no de um ponto de vista corporativista – “como é possível que não-ungidos venham mexer no que é nosso“. Ora, mais grave é a falta de esperteza política em aproveitar as contrariedades próprias da governação para levar a cabo o programa reformista que o país precisa.
Mau prenúncio
Um mau prenúncio do que aí vem é o 31 da Armada andar a dedicar os primeiros dias do novo governo a atacar a blogosfera liberal.Neste post, o Tiago Geraldo pedincha umas palmas da blogosfera liberal para o chefe. Eu pensava que o CAA já tinha batido palmas suficientes por todos nós naquela sessão parlamentar do imposto extraordinário. No entanto tenho que admitir o erro e concordar com o Tiago: quando se fala de liberais “o CAA, como é evidente, não conta”.
Julho 5, 2011
Sobre as decisões tomadas até agora pelo Governo
A minha participação de hoje no programa Antena Aberta da Antena 1 está disponível aqui.
João Cardoso Rosas, Miguel Morgado e Carl Schmitt
Tive a sorte de ser aluno tanto de João Cardoso Rosas como do meu amigo Miguel Morgado quando fui mestrando no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e, não obstante o que aprendi com ambos no âmbito da teoria política (ou talvez por causa disso), custa-me a compreender o que poderá ter motivado o parágrafo final deste artigo:
Um aspecto em aberto é o de saber se o liberalismo anti-igualitário e conservador deste Governo será ou não democrático. Parece-me significativo que Passos Coelho tenha nomeado como seu assessor político alguém que considero ser o nosso mais talentoso crítico da democracia: o meu amigo e ex-aluno Miguel Morgado. Uma das ideias fortes do Miguel é a de que “todos os Governos funcionantes são autoritários” e que, em democracia, não é possível a existência de autoridade. Isso leva-me a pensar que a grande tentação do actual Governo, no seu afã de ser “funcionante”, consistirá em invocar uma espécie de estado de emergência – a lembrar Carl Schmitt – devido à ameaça de bancarrota, impondo autoritariamente à sociedade portuguesa uma liberalização radical da economia e das funções sociais do Estado, muito para além do memorando de entendimento e contra o espírito da Constituição. Para isso não será necessário um golpe de Estado no sentido clássico. A invocação da absoluta excepcionalidade do momento será suficiente, desde que os restantes órgãos de soberania, em especial o Presidente, deixem passar a procissão.
Sendo certo que na imprensa (como aliás na blogosfera) o grau de rigor exigido não é – nem deve ser – o mesmo que em contextos académicos, a associação da nomeação do Miguel Morgado a um eventual carácter “não democrático” (!) do actual Governo parece-me um excesso de difícil justificação. Com ou sem referências a Carl Schmitt.
Um país cada vez mais inseguro
Procuradora preocupada com aumento de crime violento no distrito de Lisboa
A criminalidade violenta aumenta e espalha-se já de forma indiscriminada pelas diferentes regiões do distrito de Lisboa, alerta a procuradora-geral distrital de Lisboa, Francisca Van Dunen.
(…)
Também o presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), José Manuel Anes manifestou-se, no mês passado, preocupado com “a espectacularidade dos assaltos” registados nos últimos tempos, cada vez mais “violentos, graves e com tácticas assustadoras”.
Leitura complementar: Um país a saque; Um país cada vez mais perigoso; Incompreensível; Infelizmente, já não surpreende…; Setúbal, 2009; Socialismo e insegurança; Quem quer segurança, paga-a (duas vezes, pelo menos); Que bom que é ser cumpridor da lei em Portugal; Portugal não está recomendável; Ganha quem mais danos causar; Animais glorificados; E que tal contratar a Blackwater?
30 milhões ?
Não deixa de ser estranho que seja preciso um acordo para um negócio supostamente efectuado pelo valor da cláusula de rescisão: Oficial: Real Madrid paga 30 milhões por Coentrão
O Benfica e o Real Madrid chegaram a acordo para a transferência de Fábio Coentrão, por 30 milhões de euros.
O clube da Luz começou por comunicar à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários “um princípio de acordo” (12h48) e durante a tarde (17h18) confirmou definitivamente o negócio.
Espírito crítico
Espírito crítico, precisa-se. Tanto à esquerda como à direita: Seis anos de silêncio. Por PPM.
Depois de seis anos de José Sócrates, é bom perceber que os seus mais fiéis seguidores nos blogues – alguns mais ou menos disfarçados, incluindo eméritos comentadores com coluna nos jornais – têm afinal um imenso espírito crítico.
O fim da ligação Porto-Vigo e a incompetência extrema da CP
Pura incompetência. Por Gabriel Silva.
Porto e Vigo distam cerca de 120 km. A CP «consegue» ter um serviço de automotoras que liga as duas cidades em 3 horas, uma média de 40 km por hora. No final do século XIX, com locomotivas a vapor a viagem conseguia-se fazer por metade do tempo.
Ainda assim, todos os dias uma média de 13 passageiros paga 12,5 euros de bilhete para essa viagem.
Agora e depois de ser incapaz de proporcionar um serviço decente ligando duas regiões com 5 milhões de habitantes, a Administração da CP vai fechar o serviço por motivos de dar prejuízo: 19.600 euros por mês. Até é pouco atendendo a tudo o que a CP faz para que aquilo dê prejuízo.
Os efeitos nocivos das cinzas
Daquele vulcão com nome impronunciável, ainda se fazem sentir e prejudicam a saúde das autoridades islandesas.
bottom-up
Esta tarde ouvi nas notícias que o Governo, ao contrário de anos anteriores, deixará de subsidiar o pagamento de portagens na Ponte 25 de Abril em Agosto, poupando assim cerca de três milhões de euros. Et voilà: aqui está uma boa iniciativa e que vai de encontro ao espírito do manifesto eleitoral apresentado pelo PSD antes das legislativas. Com este tipo de iniciativas, às quais se podem também adicionar a recente extinção das chefias intermédias na Segurança Social e a extinção dos lugares de Governadores civis, o executivo de Passos Coelho inicia uma abordagem “bottom-up”, muito usual nas empresas mas pouco usual na acção governativa em Portugal, e que contrasta com a fanfarra típica dos grandes anúncios – da qual o imposto extraordinário de IRS foi exemplo – com que habitualmente os nossos políticos nos bombardeiam. É bom sinal. Ora, assumindo que aquelas três medidas permitirão ao Estado aforrar cinco milhões de euros até ao final do ano, ficam apenas a faltar mais cento e sessenta medidas afins para compensar o imposto extraordinário de Natal…Felizmente, não falta onde cortar.
volun…quê?
“Under the French plan rejected by S&P, private investors would reinvest at least 70 percent of the proceeds of bonds maturing before the end of 2014 into new 30-year Greek debt. But France also suggested a second option. Under that plan at least 90 percent of Greece’s bonds maturing before 2014 would be invested in new five-year bonds. These would carry a 5.5 percent interest rate and would be listed on a European market with restricted trading to protect them from speculative attack.”, hoje no International Herald Tribune (página 17).
O conceito de “voluntário” da União Europeia é – como diria o nosso novo Ministro das Finanças, na mais fina das suas ironias – peculiar! É que ainda me hão-de explicar como é que se pode considerar voluntária a aceitação de uma coisa a 5,5% quando hoje se pede por essa mesma coisa quase 23%…
E pur si muove!
Afinal, embora muito a custo, até os cientistas que acreditam no aquecimento global antropogenético reconhecem que a temperatura da superfície da Terra não subiu entre 1998 e 2008, embora não saibam bem porquê.
Através do blog Watts Up With That, cheguei a este artigo “Reconciling anthropogenic change with observed with observed temperature 1998-2008″ (numa publicação com peer review) os autores começam assim:
Given the widely noted increase in the warming effects of rising greenhouse gas concentrations, it has been unclear why global surface temperatures did not rise between 1998 and 2008.
É claro que, no final, eles concluem que o aquecimento global é antropogenético mas que, pelo, caminho, de vez em quando, esse aquecimento é interrompido:
The finding that the recent hiatus in warming is driven largely by natural factors does not contradict the hypothesis: “most of the observed increase in global average temperature since the mid 20th century is very likely due to the observed increase in anthropogenic greenhouse gas concentrations (14).”
[...]
The 1998-2008 hiatus is not the first period in the instrumental temperature record when the effects of
anthropogenic changes in greenhouse gases and sulfur emissions on radiative forcing largely cancel. In-sample simulations indicate that temperature does not rise between the 1940’s and 1970’s because the cooling effects of sulfur emissions rise slightly faster than the warming effect of greenhouse gases.
E é claro que é por esse prisma que a Reuters pega no assunto: “Asia pollution blamed for halt in warming: study“.
De qualquer modo, já não é mau reconhecerem que a temperatura não subiu. Quanto ao resto, penso que estamos muito longe da “settled science” que muitos reclamavam.
Lapso freudiano
Tenho ouvido algumas vozes dizerem que a eliminação das golden shares que o estado tem em algumas empresas faz essas empresas valerem mais. Mmmmm. Então se admitem que as intervenções do estado nas empresas são destruidoras de valor, por que razão defendem o papel do estado na definição de “estratégias” para a economia nacional?
Vantagens para um libertário de um aumento de impostos lançado pelos socialistas de direita
Vêr os socialistas de esquerda chamar roubo à cobrança de impostos.
O cansaço de Robespierre
a revolução cansa. Por Rui A.
Uns dias corridos sobre estes factos, Collot d’Herbois, um terrorrista do Comité de Salvação Pública, transformado em thermidoriano, escrevia estas palavras. «Se Robespierre, em vez de ter ficado entretido no Hotel de Ville, tivesse marchado à cabeça dos oito ou dez mil homens que enchiam a Place de Gréve, e juntamente com Couthon tivessem levantado o povo com os seus discursos, estaríamos perdidos.». Mas, como relata Béraud, Robespierre preferiu desistir. A revolução cansa, poderia ter sido o seu epitáfio.
Julho 4, 2011
Berlusconi e Strauss-Kahn
Rodrigo Moita de Deus explica as diferenças entre Berlusconi e Strauss-Kahn:
A direita respeita a propriedade privada e paga. A esquerda quer sempre de borla.
Duas visões na economia brasileira
Empresas campeãs, brasileiros perdedores. Por Diogo Costa.
Há duas visões conflitantes na economia brasileira: mercado como objeto de planejamento e mercado como processo de descoberta. Uma evita fracassos na base da legislação e tenta financiar o sucesso com dinheiro público. A outra permite que o sucesso e o fracasso ocorram em função das escolhas dos consumidores.
Privatizem a RTP e nacionalizem a TV Tuga
Antes de entrar na discussão, adianto desde já que estou convicto que a privatização da RTP não irá acontecer nesta legislatura. Duvido que Passos Coelho e Portas abdiquem tão cedo do maior instrumento de poder à sua disposição numa fase em que uma imprensa amiga será tão necessária. O Manuel Castelo Branco tem defendido no 31 da Armada a manutenção da RTP como empresa pública. Neste post, explica os seus pontos que tentarei rebater aqui:
1. O valor (possivelmente negativo) de venda da RTP: o actual endividamento da RTP é uma liability para o estado como qualquer outra. Se o estado se endividar em 600 milhões para se libertar da RTP, em termos líquidos o efeito é nulo. A questão é se queremos continuar a aumentar esse nível de endividamento ou se queremos entregar a RTP a uma melhor gestão (privada) que consiga eliminar parte deste endividamento. Se uma empresa privada conseguir vêr na RTP uma empresa com potencial, até é provável que aceite comprar a empresa por um valor positivo. A realidade é que por cada dia que a RTP se mantenha sob gestão pública, o seu valor de mercado diminui.
Outra confusão é a de dizer que apenas os impostos constituem um custo para os contribuintes. Qualquer contribuição não voluntária, mesmo que lhe chamem taxa, é uma efectiva transferência fiscal para a RTP.
2. O impacto nos outros operadores de media: O Manuel Castelo Branco fala que a privatização da RTP eliminaria operadores rentáveis. Numa economia de mercado Um operador não é rentável se só sobrevive à custa de subsídios indirectos. Se há operadores actuais que só são rentáveis porque um dos players abdica de receitas por receber subsídios, então não são verdadeiramente rentáveis. Apenas o subsídio dos contribuintes à RTP os faz rentáveis. Nesse caso, o mercado deve fazer o seu papel e eliminá-las. Não deve ser papel do Estado garantir a rentabilidade de empresas privadas quer seja de forma directa ou indirecta.
3. O papel da RTP: o suposto serviço público da RTP é das desculpas mais esfarrapadas para a sua não privatização. Numa altura em que qualquer um pode ter acesso a 60 canais, na sua maioria com melhor programação ddo que a RTP a noção de que a RTP deve ser mantida pelos contribuintes pelo seu serviço público é ridícula. A RTP nacional é um canal como os outros e ainda não vi ninguém apontar um verdadeiro exemplo de serviço público fundamental que valha 250 milhões de euros por ano. A RTP internacional na era da internet tem um contributo marginal para a divulgação da língua portuguesa. Como emigrante posso dizer que TVTuga tem, por uma ínfima parte do custo, um papel muito mais importante na divulgação da língua portuguesa do que a RTP internacional. A RTP é, acima de tudo, um instrumento de poder. É um instrumento de poder porque tem servido directamente como a voz do dono para diferentes governos. E é também um instrumento de poder pela forma como a ameaça da sua privatização mantém os outros orgão de comunicação social controlados. Abdicar desse instrumento de poder seria um sinal de que temos um governo diferente. Até agora não o demonstrou ser.


