O meu artigo de ontem para o jornal I
Uma oportunidade para Mr. Biswas
No livro “A House for Mr. Biswas”, V. S. Naipaul conta-nos a vida de um homem que sonha ter uma casa sua, onde possa existir por direito próprio, num espaço que seja seu. Toda a sua vida tem esse sentido e razão de ser. Casa-se cedo e cedo vai viver com a família da sua mulher, uma família cheia de gente que enche a casa. Profundamente ingénuo, acredita em ofertas dúbias, mas, desilusão após desilusão, continua em frente com o seu projecto. Mr. Biswas também gostava de escrever contos, mas o emprego no jornal onde trabalha não é para isso. A vida em Trinidad e Tobago não é fácil para este homem de origem indiana, e a percepção de que outros têm a vida facilitada apenas por serem quem são vai-lhe deixando marcas de ressentimento. É irascível em resposta ao colete-de-forças em que se sente envolvido, à incompreensão dos que vivem com ele, que não entendem como pode um homem querer uma casa, um lugar para si e a sua família, um canto onde se possa ausentar e ver passar outros sonhos. Ser dono de alguma coisa, conseguida com mérito.
Gostava de conhecer muitos Mr. Biswas. Apesar de viver com os nervos à flor da pele, nunca se conformou com a realidade que não lhe permitia ter o que queria. Lutou porque não tinha outro remédio. Aceitar a derrota seria um pesadelo. Inimaginável. Gostaria de conhecer homens e mulheres como Mr. Biswas, porque, e infelizmente, não vivemos numa sociedade assim tão diferente da do romance de Naipaul. Há demasiada gente com a vida demasiado delineada. Para alguns, o êxito parece ser ou um lugar na função pública ou numa empresa cujo nome sirva de cartão-de-visita, com um papel de marca, como o modelo de um carro ou ou acessório de moda. Em Portugal, ser bem-sucedido é ter o que mostrar, nem que seja um emprego seguro, se possível com gravata.
No final dos anos 70, o Reino Unido atravessava uma crise sem fim, sem crescimento económico e com inflação galopante. Como nos conta o jornalista John O’Sullivan no seu livro “O Presidente, o Papa e a Primeira-Ministra” (Alêtheia 2007), naquela época, para a maioria dos Britânicos, êxito era trabalhar no Estado ou numa empresa de renome. Quem o fizesse por conta própria ou numa empresa modesta estava condenado à insignificância. Só um tolo preferia ser dono de uma carpintaria a trabalhar de fato e gravata. Após os mandatos de Margaret Thatcher, esta realidade tinha mudado e a aspiração máxima dos jovens já era trabalhar por conta própria, inovar e criar postos de trabalho. Em dez anos, aquela sociedade começou a premiar os que punham o gosto da aventura empresarial à frente do simples bem-estar material. Os que viam além das aparências e queriam algo que os preenchesse. Numa década, o Reino Unido ficou pejado de Mr. Biswas.
Que país queremos nós para daqui a dez anos? Esta pergunta deveríamos fazê-la todos os dias, porque é necessário escolher que sociedade pretendemos daqui para a frente: se estagnada, se dinâmica. Se escolhermos a última, teremos de dar oportunidades aos Mr. Biswas que andam por aí. Não devemos ter medo deles, nem do que esse caminho implica: menos regulamentação, maior flexibilidade laboral, liberalização da lei das rendas, direito de escolha na educação, e principalmente não os proteger. Prezar o esforço de alguns não implica atrofiá-los com apoios. Apreciar os que arriscam é acima de tudo não os invejar e não lhes criar entraves desnecessários. É isto que falta: um espírito social que compense o risco. Há Biswas que só esperam que não lhes cortem as asas. Se quisermos viver melhor, nos próximos anos teremos de lhes dar uma oportunidade. Até porque o mais certo é que uma baste.