O Insurgente

Julho 30, 2011

Manuel Villaverde Cabral: “Para aquela coisa da esquerda, eu realmente já não dou.”

Filed under: Media,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 13:12

Uma entrevista de Manuel Villaverde Cabral que vale a pena ler na íntegra:

Mas mesmo os grandes defensores das agências de rating, como o primeiro-ministro e o Presidente da República, também já estão passados…

Primeiro, se nós não devêssemos dinheiro não tínhamos que nos preocupar com as agências de rating. Nunca tínhamos ouvido falar delas porque, embora estivéssemos endividadíssimos, na altura isso era parte do jogo. De repente, com a crise mundial – é verdade que é a crise mundial que põe à mostra a nossa situação que não vai poder ser compensada com dinheiro, empurrando com a barriga – fomos apanhados literalmente com as calças na mão. E agora temos que puxar as calcinhas e disfarçar o máximo. Mas é preciso um governo liberal e no xadrez político-partidário português só podia ser este governo PSD-CDS, não podia ser outro. Nós estamos a tentar sair por obrigação e também por virtude de uma situação pela qual o Partido Socialista é 100 por cento responsável, na minha opinião.

Mas acabou de falar na crise mundial.

Quando eu digo que é responsável o Partido Socialista é no sentido em que o PS, tendo tido a missão histórica ingrata de desfazer a revolução do 25 de Abril – e ter desfeito bastante – não conseguiu desfazer tudo. Nós continuámos num socialismo, de baixo nível evidentemente, mas um socialismo…

Mas como é que o professor pode falar em socialismo na situação actual?

Então se quiser eu mudo. Um clientelismo de Estado.

Ah, isso é outra coisa…

Não é outra coisa, não! O socialismo é um clientelismo de Estado! Levei 70 anos a descobrir. Claro que isto é soft, evidentemente, somos livres, podemos dizer mal do governo, não serve para nada mas podemos, e isso é fundamental. Mas com Guterres e depois com Sócrates, já não para não falar dos Coelhos (esse saltitar do governo para as empresas… Coelhos é o que cá mais temos) chegou-se ao ponto em que no país o Estado, que quer dizer muitas vezes o governo, que não quer dizer outra coisa senão o partido do governo, que é o Partido Socialista que governou em 13 dos últimos 16 anos. Um Estado que controla directamente mais de 50% do PIB e indirectamente controla, com as golden-shares, com essas coisas todas, as participações, a EDP, nomeia, decide, compra, vende, etc., 80% do PIB. O Estado manda em 80%. E depois ficam 20% de pequenas e médias empresas exangues, porque não há crédito para elas. Depois há os bancos, que eram credores dos Estado, aconteceu-lhes que quando o devedor deve 100 está tramado, quando deve 100 mil, quem se trama é o credor. Estou a pensar, em particular, no BES. O BES é uma entidade política. Foi o senhor dr. Ricardo Salgado que mandou vir o FMI. Nessa quarta-feira de manhã, os bancos disseram: “É a última vez que a gente empresta e só emprestamos se chamarem o FMI”. E foi assim que o Teixeira dos Santos chamou o FMI, o outro [José Sócrates] mandou-se ao ar, atirou com o telemóvel.

9 Comentários »

  1. Vá lá. Aparentemente só demorou uns 30 anos a perceber que andava a nadar em “fascismo económico” e/ou “capitalismo de estado”.
    Complicado explicar a um peixe o que é água.

    Comentário por JS — Julho 30, 2011 @ 16:27

  2. Antes tarde do que nunca.

    Comentário por lucklucky — Julho 30, 2011 @ 19:22

  3. > Levei 70 anos a descobrir.

    A gaita é que não se abstêem de dizer disparates entretanto.

    Comentário por Euro2cent — Julho 30, 2011 @ 23:07

  4. Então o Prof. Villaverde Cabral caiu do cavalo? Que bem que eu me sinto!

    Comentário por Beijokense — Julho 31, 2011 @ 12:35

  5. “Mas com Guterres e depois com Sócrates, já não para não falar dos Coelhos (esse saltitar do governo para as empresas… Coelhos é o que cá mais temos) ”

    é bom lembrar que esta é uma velha tradição dos partidos do Governo, sendo eles PS, PSD ou CDS-PP.

    Comentário por vasco — Julho 31, 2011 @ 12:55

  6. Sempre achei muita piada aos cenários construídos à volta de um personagem que se quer intelectual. Ana Sá Lopes (a jornalista) não fugiu o estereótipo e enfiou o artigo numa imagem onde o personagem Villaverde Cabral seja imediatamente tido como um proeminente professor onde não restem duvidas quanto à sua idónea sapiência, “uma sala com livros por todo o lado”. Independentemente da capacidade que o personagem possa ter tido para assimilar toda a informação contida naqueles livros, também nada garante que a informação assimilada não saia da sua interação com a sociedade algo distorcida e formatada de maneira adulterada e até, porque não, de uma forma manipuladora como me apraz observar.
    Dizer tão levianamente que, só pelo facto de Sócrates ter saído, o país aliviou-se de uma situação agónita em que se encontrava, é já um indício de que nada está a mudar, temos vivido de aparências e a deportação de Sócrates ainda não remediou nada, talvez o Sr. Villaverde Cabral esteja só a referir-se ao pacato e bucólico ambiente do seu gabinete repleto de livros, é que ali não se passa nada, o homem vive numa redoma de privilégios.
    Segue-se um périplo de contundentes golpes na governação do PS, sem jamais se incluir, ele próprio, no desaforo que foram os anos de reivindicações da classe docente, em que os governos do PS (porque eram eles que lá estavam) anuíram a todas as mordomias solicitadas e criaram as bases que levariam este país à bancarrota. Meta as mãos à consciência Prof. Villaverde e diga-nos o quanto lhe convieram estes desnortes dos governos PS. O Sr. e outros ilustres iluminados desta parca República receberam o quinhão em ouro e agora sacodem o capote como se os vossos privilégios fossem alvíssaras por bom comportamento.
    E como se pode ouvir este Sr. Professor acusar os cidadãos que criam riqueza, que alimentam as suas mordomias e privilégios, de se refugiarem num clientelismo de estado, de reivindicarem uma pequena parcela da riqueza que produzem, eles, que reivindicam assistência médica, acesso à educação para os seus filhos e nunca o privilégio das férias sabáticas, as bolsas de estudo a pretexto de pseudo investigações. O Sr. nunca produziu nada, Sr. Villaverde Cabral, o Sr. passou 70 anos (são palavras suas)
    a formar uma ideia que sustente o privilégio de uma vida boa, de uma vida arredada das dificuldades e agora augura-se o dever de diminuir os direitos de quem trabalha, de quem produz riqueza. Sabe, Sr. Professor, os seres que se alimentam do esforço de outros seres têm um nome: parasitas.

    Comentário por Arons Vale e Cunha — Julho 31, 2011 @ 13:36

  7. [...] 2 – Anders Breivik e 5 Dias: a violência como o ponto em que os extremos se tocam 3 – Manuel Villaverde Cabral: “Para aquela coisa da esquerda, eu realmente já não dou.” 4 – Alfredo Barroso e Teresa Caeiro na SIC-N 5 – [...]

    Pingback por Top posts da semana « O Insurgente — Agosto 1, 2011 @ 00:46

  8. “O socialismo é um clientelismo de Estado! Levei 70 anos a descobrir.”

    Sim senhor, o clente tem sempre razão!

    Comentário por Jtcb — Agosto 2, 2011 @ 00:41

  9. [...] «O socialismo é um clientelismo de Estado! Levei 70 anos a descobrir. Claro que isto é soft, evidentemente, somos livres, podemos dizer mal do governo, não serve para nada mas podemos, e isso é fundamental. Mas com Guterres e depois com Sócrates, já não para não falar dos Coelhos (esse saltitar do governo para as empresas… Coelhos é o que cá mais temos) chegou-se ao ponto em que no país o Estado, que quer dizer muitas vezes o governo, que não quer dizer outra coisa senão o partido do governo, que é o Partido Socialista que governou em 13 dos últimos 16 anos. Um Estado que controla directamente mais de 50% do PIB e indirectamente controla, com as golden-shares, com essas coisas todas, as participações, a EDP, nomeia, decide, compra, vende, etc., 80% do PIB. O Estado manda em 80%. E depois ficam 20% de pequenas e médias empresas exangues, porque não há crédito para elas. Depois há os bancos, que eram credores dos Estado, aconteceu-lhes que quando o devedor deve 100 está tramado, quando deve 100 mil, quem se trama é o credor. Estou a pensar, em particular, no BES. O BES é uma entidade política. Foi o senhor dr. Ricardo Salgado que mandou vir o FMI. Nessa quarta-feira de manhã, os bancos disseram: "É a última vez que a gente empresta e só emprestamos se chamarem o FMI". E foi assim que o Teixeira dos Santos chamou o FMI, o outro [José Sócrates] mandou-se ao ar, atirou com o telemóvel.» [Entrevista a Villaverde Cabral no ionline, citada aqui] [...]

    Pingback por TIROU-ME AS PALAVRAS DA BOCA: Também levei uns bons anos a descobrir « 25 de Novembro sempre ! — Agosto 2, 2011 @ 15:08


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