O Insurgente

Julho 22, 2011

a burla democrática

Filed under: Diversos — Ricardo Arroja @ 10:54

“Resumidamente, os líderes europeus acordaram baixar os juros que cobram a Portugal, Irlanda e Grécia pagam para receber o dinheiro do resgate financeiro e aumentar a maturidade desse empréstimo, de 7,5 para 15 anos. No final, estes três países vão gastar mais dinheiro com o serviço da dívida, mas pelo menos conseguem empurrar o problema para 2027. A cimeira também aprovou um novo pacote de ajuda para os gregos, com a módica quantia de 109 mil milhões. Mas a Grécia vai ter de dar garantias reais como colateral para este novo empréstimo. O Corriere della Será dizia ontem que os nossos amigos finlandeses queria que a Grécia desse o Partenón como colateral. A continuar como está, um destes dias o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém ainda vão parar a Helsínquia ou a Berlim (…) Para Portugal, o resultado da cimeira é positivo, já que apanha a boleia da Grécia para ter um pacote de resgate com juros mais baixos e uma maturidade mais longa. Mas para isso, Passos Coelho teve de dar garantias aos restantes líderes europeus que Portugal não vai, em circunstância alguma, reestruturar a sua dívida. Triste fado o nosso que já nem temos direito a declarar a nossa própria insolvência.”, Pedro Sousa Carvalho, hoje no Diário Económico (contra capa).

A cimeira de ontem foi mais uma fuga para a frente e o plano que dela emergiu é revelador da armadilha de dívida na qual os países da periferia europeia, começando pela Grécia, entraram. Estamos amarrados a uma zona euro demasiado forte para as nossas debilidades estruturais que, por sua vez, a prazo, contribuirão para afundar o próprio projecto da moeda única. E há um aspecto que, cada vez mais, me assusta: a falta de legitimidade democrática de todos estes “bailouts”. Esqueçamo-nos por um momento de que somos portugueses e façamos as perguntas que importam fazer: em que manifesto eleitoral se baseia Merkel para pegar em dinheiro nacional com o propósito de resolver problemas transnacionais? Mais, quem autorizou Papandreou a hipotecar património público sem dar cavaco? Enfim, como diria o Medina Carreira num daqueles seus geniais “soundbytes”: isto é tudo uma grandessíssima burla.

Mas não obstante a burla democrática, ontem, deu-se um passo importante que merece ser realçado: começou o processo de reestruturação da dívida na Grécia, na Irlanda e em Portugal. É evidente que não se trata de uma pílula mágica, mas permite aliviar o fardo financeiro que a nossa irresponsabilidade pública e falta de competitividade privada gerou. É um processo que contém um pau e uma cenoura. Por um lado, começamos a penhorar os anéis. Por outro lado, ganhamos uma garrafinha de oxigénio, para nos despacharmos com as, até aqui etéreas, reformas estruturais. Quanto ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira e à ideia, ontem anunciada por Sarkozy num típico assomo de “grandeur”, de que este se transformará num Fundo Monetário Europeu, estou céptico e por uma simples razão: quebrado o compromisso de honra por parte dos gregos, é de esperar que também outros, a bem ou a mal, o quebrem. Logo, colocar o FEEF a garantir a dívida grega, como forma de convencer “voluntariamente” os credores a refinanciarem aquela mesma dívida, sem querer fazer disso uma regra – quando se sabe que a partir de 2013 cai formalmente a regra do “no default” na zona euro – é cair numa ingenuidade que, a um certo nível da política, não se admite. E, portanto, quando também a Irlanda e Portugal solicitarem o mesmo tratamento, ou forem forçados a isso pelos seus credores privados, o FEEF terá de reforçar as suas garantias e recursos próprios, pedindo mais dinheiro aos mesmos de sempre, e assim progrediremos até um dia alguém dizer “basta”! Nesse dia, os mais fortes do euro saltarão fora e o euro passará a ser uma espécie de escudo dos mais frágeis.

Mas enfim, regressando ao presente, a cimeira de ontem resolve a crise de hoje? Para já, acho que sim. E isso também é positivo. Fartos de notícias negativas estamos nós todos!

Ps: Ontem, o Banco Central Europeu sofreu a primeira derrota, de muitas que ainda há-de sofrer, na luta pela sua independência face ao poder político.

4 Comentários »

  1. Caro Ricardo,

    Antes de mais, parabéns pela adição à família. Espero que esteja (e continue) tudo bem com o Tiago e com a mãe.

    Em relação à cimeira de ontem, não estou a ver qual seria solução. Uma vez que a dívida é em euros, a única maneira de a Grécia poder ver-se livre da mesma seria sair do Euro e fazer um default à dívida posteriormente. O que traria, de forma quase certa, graves problemas sociais (não poria de parte golpes de estado, guerra civil ou qualquer coisa do género).

    Não percebo, no entanto, o alargamento para 15 anos. Sinceramente, mais valia passarem a dívida a perpétua e os governos em dívida que se encarregassem de a comprar em mercado secundário logo que possível.

    Quanto à burla democrática, não concordo consigo. O problema que a Chanceler alemã tem nas mãos é de subsidiar os gregos (em termos de dívida) ou então “aguentar-se” com uma crise de tamanho descomunal no sector bancário alemão (aliás, acho “piada” aos britânicos a dizerem que não é nada com eles – se os gregos falirem, quase que aposto que a maior parte dos CDO e outros seguros foram emitidos pela City…)

    O único ponto que me causa “espécie” é continuar a não existir uma associação da taxa de juro a metas. Os 3,5% deveriam ser variáveis de acordo com o cumprimento (ou não) de metas financeiras.

    Comentário por Carlos Duarte — Julho 22, 2011 @ 11:32

  2. Na verdade é uma chatice. Os juros baixaram, a prazo aumentou, só más noticias.
    .
    Um dia destes até vão descobrir que afinal os EUROS não fogem para lado nenhum.
    .
    Estão sempre aqui, na zona EURO, há espera de serem aplicados , por isso não vão faltar EUROS para comprar obrigações únicas, da mesma forma que no R.U. , nos EUA , no JAPÂO não falta libras, dolares e yenes, apesar dos deficits e dividas publicas desses países.
    .

    Comentário por Paulo Pereira — Julho 22, 2011 @ 11:46

  3. Excelente post Ricardo. Aproveito para deixar os parabéns pelas últimas notícias ao nível pessoal.
    Um Abraço
    Filipe

    Comentário por Filipe Faria — Julho 22, 2011 @ 20:33

  4. Há uma história deliciosa sobre a ilusão ingénua de independência dos bancos centrais (ou de qualquer outra estrutura do Estado versus … Estado).

    Arthur F Burns presidente do FED durante o período inflacionista dos anos 70 em resposta a uma pergunta de um jornalista sobre porque procedeu como procedeu deixou escapar algo como: “tive de fazer o que me pediram (Nixon) se não poderia perder a independência”. É o mesmo com Trichet.

    Pormenor importante: Burns na sua vida académica prejudicou sucessivamnente Rothbard pondo entraves sucessivos ao seu phd em Columbia (que foi sobre a crise pânico bancário de 1823), mais tarde e antes dos anos 70 Rothbard perguntou-lhe e se os Keynesianos tivessem errados e se desse inflação desemprego e recessão simultaneamente? Burns respondeu que nesse caso tinham de demitir-se. Claro que não se demitiu

    Comentário por CN_ — Julho 22, 2011 @ 23:04


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