10 Razões Para Portugal Abandonar o Euro

1)   A moeda única foi a principal responsável pelo endividamento actual. Permitiu durante mais de 10 anos o acesso por parte dos nossos políticos a crédito barato produzido pelo Banco Central Europeu e suportado pela crença dos investidores de que nenhum país iria abandonar o euro, tal como estava previsto nos tratados europeus.  Sem o euro, nunca os investidores teriam emprestado tanto dinheiro a Portugal a tão baixos juros.

2)   Ficar no euro sem limites constitucionais ao endividamento significa a perpetuação do processo que caracterizou o “período euro” em Portugal: o crédito contraído pelo Estado é usado para financiar a falta de produtividade, aumentando os sectores não produtivos do “Estado Social” e evitando as reformas liberalizantes. Como nenhum Estado soberano europeu se quer auto-limitar, depois de um default assistido pela UE, regressaríamos (a seu tempo) ao business as usual.

3)   As supostas reformas liberais que se esperavam não vão acontecer nas actuais circunstâncias ou irão acontecer de forma ténue e com consequências práticas irrisórias.  Isto é uma realidade não apenas porque os nossos políticos esperam as “resoluções europeias” para poderem continuar a viver das transferências directas ou indirectas (eurobonds e monetização da dívida) vindas do centro da Europa, mas principalmente porque, com o crescimento económico de estagnação trazido pelo euro nos últimos 10 anos,  não existe um sector privado dinâmico para absorver todos os que hoje vivem dependentes do Estado.

4)   O crescimento económico necessário para pagar a nossa dívida pública não é possível de atingir dentro do euro. Os cortes na despesa pública para atingir esse crescimento teriam de ser de tal ordem que nenhum governo estaria disposto a enfrentar uma horda de grupos de interesse e de cidadãos dependentes do Estado (que rondam os 50%) para atingir esse efeito, mesmo que tal seja desejável. O Estado português nunca terminou um ano com superavit em democracia pós-1974, não seria agora que o faria. O default é certo.

5)   A desvalorização do escudo em relação ao euro é real e a transição terá um impacto doloroso nos portugueses. Porém, ficar no euro não é uma solução melhor. A opção em cima da mesa é entre ficar no euro sem crescimento económico e com uma inflação (em teoria) menor e entre ficar no escudo com maior inflação mas com a possibilidade de crescer economicamente devido à desvalorização da moeda e à respectiva vantagem competitiva que se ganha. A escolha não é entre mais ou menos inflação, mas entre o melhor rácio inflação/crescimento económico. A opção da saída do euro é a única que viabiliza a possibilidade desse crescimento e de uma transferências dos que “vivem do Estado” para o sector privado.

6)   Ao reaver a sua autonomia monetária, e sabendo-se que este problema é um problema mais amplo que diz respeito ao papel moeda (fiat money), propostas para introduzir o ouro ou prata como moeda paralela ao escudo poderiam ser levadas para o parlamento português à semelhança do que está a acontecer na Suíça. Estas alterações, apesar de difícil implementação, são mais fáceis de lançar localmente do que num monstro burocrático como a UE.

7)   Mesmo no paradigma do papel moeda e dos bancos centrais como “impressoras monetárias”, a competição entre estes últimos  por uma moeda credível é a melhor forma de travar a desvalorização de moeda ilimitada. Esta competição desaparece no caso do monopolista monetário que é o Banco Central Europeu.

8)   A permanência no euro continua a alimentar o desejo federalista de transformar os almejados Estado Unidos da Europa num sonho socialista a uma escala europeia onde se transfere fundos dos países produtivos para os improdutivos (eurobonds, dívida europeia, transferências estruturais, monetização da dívida, subsidiação da produção de sectores chave, resgates de países, etc).

9)   A saída do euro frustraria o plano latente dos federalistas de usar esta crise económica para centralizar o poder em Bruxelas e retirar a independência soberana aos Estados nação sem a permissão dos cidadãos, aproveitando o facto de estes estarem dobrados perante as dívidas públicas.

10)   Como acredito que o poder deve estar o mais próximo possível do indivíduo, considero que, salvaguardando os acordos de livre comércio, negociar a saída da moeda única de forma coordenada é a melhor forma de impedir que Portugal se transforme num novo Utah ou Michigan.

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14 thoughts on “10 Razões Para Portugal Abandonar o Euro

  1. Filipe Faria : “A moeda única foi a principal responsável pelo endividamento actual. (…) Sem o euro, nunca os investidores teriam emprestado tanto dinheiro a Portugal a tão baixos juros.”

    João César das Neves ao ionline de 18/07 : “Mas ter juros baixos não é uma coisa má, é uma coisa óptima. O que é mau é não saber viver sem eles. Tivemos um bar aberto e apanhámos um pifo. O mau está no bar aberto? Não, o mal está no pifo. Tivemos um choque de rendimentos positivo que deveria ter sido imediatamente usado pelo governo para, por exemplo, pagar a dívida e equilibrar a economia. Aconteceu exactamente o contrário. Endividou-se ainda mais,…”

  2. De acordo com os tratados, se um membro da UE entrar no euro já não pode sair, logo sair do euro obrigaria a sair também da UE. Mas como ninguém leva muito a sério esses tratados (e se calhar até é melhor assim), a melhor resposta é “depende do que os outros países quiserem”.

  3. Se juros baixos são bons ou maus – juros baixos aumentam a procura e, em principio, fazem subir os preços. Isso é bom para quem vende para o mercado interno, mas pode ser mau para quem está a comnpetir com cobncorrência externa (isto é, é bom para os restaurantes de Lisboa mas pode ser mau para os da Praia da Rocha).

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  5. Miguel Madeira : “4.Se juros baixos são bons ou maus – juros baixos aumentam a procura e, em principio, fazem subir os preços.[..] Pode ser mau para quem está a comnpetir com concorrência externa ”

    Juros baixos favorecem também o investimento produtivo e aumentam a oferta. Não teem necessariamente um efeito inflacionista. Se houver melhoria da produtividade os custos internos podem baixar e a competitividade externa aumentar.

  6. Eu percebo que na situação actual, dentro do Euro, o Governo português não tem nenhum incentivo para ser mais liberal. Vai estar de mão estendida, à porta das instituições e a nossa economia vai-se estruturar ainda mais à volta do assistencialismo – uma espécie de Haiti só que com mecenas mais ricos. O problema é que a volta ao Escudo nao obriga necessariamente a que o país se liberalize. Eu concordo com o argumento de que várias moedas em concorrência funcionam melhor que um Euro monopolista. Mas Portugal era dos países que ficavam em evidência com esse sistema, forçados a desvalorizar para compensar a perda de produtividade. E nao vejo que a situação se vá alterar daqui para a frente. Infelizmente os Portugueses não se querem comparar à Suiça um país competitivo apesar de nao desvalorizar a moeda ou por causa disso. Bem, alguns portugueses sim e foi por isso que emigraram para lá. Quanto a sair da UE, pessoalmente no o vejo como uma tragédia, muito pelo contrário, especialmente se pudessemos manter um estatuto equivalente a estar no que foi a antiga CEE (e se não tivermos que pagar a PAC tanto melhor). Esta era a parte boa do Bloco Europeu, tudo o que veio com Maastricht só trouxe burocracia e interferências na maneira como as pessoas tÊm que viver as suas vidas desde um nível mais longínquo geográfica e culturalmente na cadeia de poder.

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  11. PORTUGAL e o Euro
    Há já quem vaticine a inevitabilidade da nossa saida do euro . Diz-se que é uma questão de tempo … E o nosso inevitavel incumprimento desta divida criminosa que corresponde já a 250 % do PIB (vulgo rendimento nacional) , é uma verdade de La Palisse . Retiramos de um estudo do vosso Ministro da Economia e Emprego :
    Crescimento do Rendimento Disponível per capita em Portugal versus Europa:
    1929-1938 Portugal 1,28% Europa 1,16%
    1938-1950 Portugal 1,56% Europa 1,00%
    1950-1973 Portugal 5,47% Europa 3,55%
    E no pós 25 de Abril , Portugal nunca terminou um ano com superavit e não é
    agora que o terá com uma população envelhecida … Assim , a ora necessária austeridade (com evidente recessão…) e o honesto cumprimento da nossa divida
    (com o necessário crescimento económico…) , são incompativeis … Portugal , de facto , com elevados deficites e endividamento , não tem condições para se aguentar no euro a não ser , se possível , à custa de elevado desemprego e doloroso subdesenvolvimento económico.Entretanto haverá uma implosão social ? Ou regressar ao escudo ? Com uma desvalorização real em relação ao euro , com maior inflação e maior crescimento económico . Em contrapartida , fuga de capitais , pelo incumprimento e aumento dos custos de produção importados . E os portugueses que trabalharam sacrificados pelos que não trabalharam … E será muito mais dificil com os governantes que temos .
    Portugal , Irlanda e Grecia (onde apesar dos boatos a situação é menos grave do que em Portugal que já vendeu as “joias da coroa” …) , não podem sair do euro . Seguir-se-ia a Espanha e a Itália . Mais de metade do saldo do FEEF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) já foi absorvido por Portugal e pela Grecia e já não há dinheiro para a Espanha e Italia . Avizinha-se um colapso financeiro mundial ? A Alemanha e a França são os principais interessados em que isto não aconteça . Mas os Países do Norte estão fartos de alimentar os Países do Sul que passam o tempo nos “banhos de mar” … Mas diabolicamente os credores parecem estar nas mãos dos devedores …
    E os desequilibrios orçamentais não podem ser corrigidos dentro do Euro e o euro não sobrevive com estes desequilibrios !… a menos que a Alemanha e a França perpetuamente injetem dinheiro nos países endividados …
    Assim , perspectivas de perda de soberania . Um controlo supranacional dos deficites e do endividamento . Mas tudo será mais dificil com os politicos que temos e não existir um amplo sector privado dinâmico que permita absorver a imensidão (50% ?) dos que hoje vivem à sombra deste Estado falido e sem vergonha .

  12. Pela mesma linha de raciocinio todos os países deviam sair do Euro – ou seja, o Euro e a União Europeia têm de acabar – conversa da treta, foda-se!

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