Numa altura em que a imprensa vai alimentando a histeria anti-Moody’s, no nosso típico comportamento de arranjar bodes expiatórios para os erros do passado, convém lembrar algumas coisas básicas:
1. Portugal está falido. Sem ajuda externa, teríamos entrado em incumprimento em Junho. Entre os outros dois países da zona euro que pediram ajuda externa, um já tem plano de reestruturação da dívida.
2. Para a maioria dos leitores deste blog a frase seguinte é uma evidência mas para quem ler a imprensa portuguesa não é: a Moody’s não classificou Portugal (o país) de “lixo”, mas sim colocou a dívida soberana de Portugal como tendo classificação “Ba”, o que no jargão dos investidores é chamado de lixo. A definição da Moody’s é que dívida classificada como “Ba” tem um risco substancial de não ser paga, o que não se afasta muito da realidade.
3. Não há oligopólio nas agências de rating. Existem dezenas de agências de rating, incluindo uma portuguesa. Se a Moodys não é credível, qualquer entidade pode pedir rating a uma outra agência.
4. As companhias de rating apenas emitem opiniões que podem, ou não, estar certas e podem, ou não, ser seguidas. O motivo pelo qual se dá maior importância à Moody’s do que às outras dezenas de agências é pura e simplesmente porque a Moody’s tende a prestar informações mais certeiras do que as outras. Tendo estado errada no passado (por exemplo, no caso do subprime), a Moody’s tem um historial de estar mais vezes certa do que errada.
5. O impacto legal das notações das agências de rating foi decidido pelos reguladores, contra a vontade das próprias. Em 2001, aquando da discussão dos acordos de Basileia II, a Moody’s mostrou-se contra a utilização dos seus ratings na definição dos rácios de capital dos bancos.
6. Quem achar que a Moody’s não tem razão, tem uma boa oportunidade de negócio. Pode ir ao banco e pedir para investir as suas poupanças em dívida Portuguesa a 3 anos. Neste momento a taxa de juro está à volta dos 20% o que é um excelente negócio para quem, ao contrário da Moody’s, não achar que Portugal pode deixar de pagar a dívida.
http://www.moodys.com/research/Moodys-downgrades-Portugal-to-Ba2-with-a-negative-outlook-from?lang=en&cy=global&docid=PR_222043
Sobre o segundo ponto, li o comunicado da Moody’s, em lado nenhum aparece o termo “junk”, logo chega-se à conclusão que as técnicas de tradução que se ensinam em Portugal têm a estranha tendência de omitir/pôr-palavras-na-boca-das-pessoas/inventar informações que não estão lá.
Exemplo: O relatório da OCDE
http://blasfemias.net/2010/09/28/e-o-que-diz-mesmo-o-relatorio-da-ocde/
Comentário por Max Cady 128 — Julho 8, 2011 @ 11:12
Excelente post.
Em relação ao ponto 4, acho que se pode dizer que há um oligopólio, só que essa situação resulta precisamente da regulação…
Comentário por André Azevedo Alves — Julho 8, 2011 @ 15:34
Obrigado pelo link no ponto 5.
Comentário por lucklucky — Julho 8, 2011 @ 16:15
Sobre o ponto 6: a oportunidade de negócio não é (para um particular) assim tão boa, dado que um particular que queira comprar, e manter durante três anos, obrigações do Tesouro português, pagará ao banco uma data de comissões (de compra, de custódia, e de embolso dos juros), mais ainda o imposto sobre os juros finais. Será tudo menos um lucro limpo de 20%…
Comentário por Luís Lavoura — Julho 8, 2011 @ 17:15
O país está nesta situação devido ao senhor Passos Coelho, que chumbou o PEC 5. Se tivesse votado a favor, portugal não tinha pedido ajuda ao FMI.
Portugal daqui as uns dias já está pior que a Grécia.
Obrigado Senhor Passos Coelho
Comentário por Guest69 — Julho 8, 2011 @ 19:23
Quanto ao ponto 6 se me arranjares um banco que aceite as próprias obrigações como colateral do empréstimo (e com um custo inferior aos juros liquidos) é já na segunda feira…
Comentário por João Cardiga — Julho 8, 2011 @ 22:27
João Cardiga, parece que há quem faça isso. O problema é que são empréstimos com um dia de maturidade que vão sendo renovados diariamente à discrição do credor. Arriscas-te a daqui a 6 meses não te renovarem o empréstimo e ficares com uma dívida que nos 2.5 anos seguintes provavelmente entrará em default.
Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Julho 8, 2011 @ 22:54
[...] – Da histeria à volta da Moody’s 2 – Berlusconi e Strauss-Kahn 3 – João Cardoso Rosas, Miguel Morgado e Carl Schmitt 4 [...]
Pingback por Top posts da semana « O Insurgente — Julho 9, 2011 @ 19:44
Já vi que o Sr. Carlos Pinto não percebe nada do que se está a passar….USD vs EURO
Comentário por Raul — Julho 10, 2011 @ 11:42
Excelente artigo. Coloquei no meu Fb =)
Comentário por Ricardo Campelo de Magalhães — Julho 10, 2011 @ 18:55