Derrotado Sócrates, o País começa a cair-lhe em cima, ilustrando a tradicional cobardia institucional dos portugueses. Enfim, como dizia Rui Ramos, há semanas no Expresso, “Na sociedade portuguesa, só conta o poder. Não somos capazes de respeito ou crítica, mas apenas de medo ou de menosprezo – medo pelos que mandam e menosprezo pelos outros. É por isso que em Portugal são os lugares que fazem os políticos (…) Mais do que qualquer outra coisa, convinha-nos mudar esta atitude de sociedade pobre e primitiva. Mas o FMI não trata destes assuntos.” Pois, não trata, não.
Ora, tendo eu, durante muito tempo, criticado Sócrates (e Teixeira dos Santos) nos meus artigos de opinião, penso que agora é altura de andar para a frente. O passado já não se altera, por isso, tendo os antigos responsáveis sido já suficientemente – e justamente – fustigados enquanto governantes, o que agora importa é o futuro e não o passado, sob o risco de se entrar numa cruzada justiceira ao jeito de Ana Gomes (para a qual existe a Justiça). Além disso, convém também não esquecer que, por mais discordantes que possamos, e devemos, ser, a verdade é que a vida de um governante é um pouco como a do avançado no futebol, só falha o golo quem o tenta marcar. Por isso, foi com especial desagrado que ouvi as críticas de Belmiro de Azevedo na RTP-N, ao antigo Primeiro-ministro. Primeiro, porque em ocasiões anteriores, nomeadamente quando Sócrates estava na mó de cima, Belmiro nunca afinou pelo mesmo diapasão. Segundo, porque ao tentar exonerar de responsabilidades os outros ministros do antigo Governo, nomeadamente o das Finanças, o senhor engenheiro introduziu, ele próprio, uma diferenciação eminentemente subjectiva e, digo eu, imerecida.
Em suma, sendo evidente que a História de Portugal fará justiça aos protagonistas do XVIII Governo Constitucional da República Portuguesa, classificando-o como aquele que atirou o País para a bancarrota, a melhor forma de ajudar a endireitar o País é olhando em frente, criticando factualmente e sugerindo alternativas, sempre que, no presente, estivermos em desacordo com o próximo Governo. Eu cá estarei para o fazer e, podem ter a certeza, fá-lo-ei, pois, como dizia Rui Ramos, é urgente mudar a atitude cultural que nos marca enquanto sociedade; não devem ser os lugares a fazer os políticos, pelo contrário, devem ser as ideias. Sem medo nem menosprezo.