O Insurgente

Junho 24, 2011

Produtividade, competitividade e discussão das funções do Estado

Filed under: Economia,Política,Portugal,Teoria — Ricardo G. Francisco @ 10:25

Indicadores agregados encerram armadilhas, especialmente se são usados como proxys para outros indicadores.

Existe o consenso que os Portugueses são pouco produtivos e cada vez menos por comparação, o que nos torna pouco e cada vez menos competitivos. Será este consenso para ser aceite de forma acrítica? Como em relação a todos os outros consensos a resposta deve ser não.

A produtividade agregada de um país mede o output médio por unidade de input. A produtividade do trabalho,  calculado como o output médio (baseado no PIB) por hora trabalhada ou por euro de remuneração é baixo por comparação com os restantes países da OCDE. A conclusão de que os  Portugueses em geral e de forma individual são pouco produtivos é portanto válida? Não, porque falham algumas premissas fundamentais:

- Não há homogeneidade. Em termos estatísticos, existe uma grande variância entre a produtividade entre grupos que são fáceis de dividir. A produtividade é diferente entre e dentro de sectores industriais. A produtividade é diferente no sector privado e no sector público. Dentro do sector público existem enormes disparidades, aumentadas pelo facto de maioria das actividades do Estado não terem impacto directo no PIB.

- Os outros inputs não são iguais entre os países comparados. Desde inputs com impactos mais fáceis de medir como a energia a outros com impactos mais complexos como a celeridade da justiça ou a regulação existem grandes diferenças, que têm impacto no produto final e logo também na produtividade do trabalho.

A redução de salários de forma transversal, apontada como solução milagrosa, é por estas razões perigosa. Primeiro porque gera muitas injustiças, por tratar como igual coisas diferentes. Segundo porque esconde os reais problemas: O peso do lado da despesa de sectores não produtivos e o impacto negativo de outros factores como a Justiça e a regulação económica.

A redução dos salários de forma transversal pressupõe uma ideia de igualitarismo que tem de ser combatida se queremos sair da situação em que nos encontramos. As funções do Estado, corporizadas em direcções, institutos, fundações,.. têm de ser escrutinadas. Escrutinadas para que se tomem decisões políticas de extinção ou redução ou simples substituição. Os funcionários públicos não são todos iguais, nem as suas funções são igualmente necessárias. O aumento da produtividade tem de passar pela eliminação das funções menos produtivas, directa e indirectamente, antes de passar por mais reduções transversais, que sendo fáceis de aplicar são tambem injustas e contraproducentes.

Reformas a sério no Estado, no nosso contexto sócio-político, terão de ser feitas com um mínimo de apoio dos funcionários públicos. A ideia igualitária de repartição de esforços levará os funcionários públicos para a rua pela causa comum. Os responsáveis políticos terão de explicar que o Estado existe para servir. Que a organização do Estado, que tem pessoas, existe para servir, não para empregar. Que se o Estado tem de emagrecer, tem de começar por perder a gordura em vez de começar a tirar 10% de tudo por igual. Terão de explicar que para que o Estado funcione sem entrar em ruptura, tem de eliminar funções e logo postos de trabalho. Terá de mostrar que a alternativa seria igualitária, é verdade. Seria uma penalização igual e injusta para todos os funcionários públicos independentemente do seu valor, competência, dedicação e da necessidade do produto do seu trabalho para os Portugueses.

A eliminação de horas e Euros de trabalho em funções de baixa produtividade leva directamente a um aumento da produtividade nacional. Adicionalmente leva à libertação para o mercado de trabalho de pessoas que têm em si de forma inerente a capacidade de produzir e de trabalhar desde que enquadradas em organizações produtivas.

 

8 Comentários »

  1. Muito bem.

    Comentário por Luís Lavoura — Junho 24, 2011 @ 13:08

  2. Esta coisa da medição da produtividade sempre me meteu alguma confusão. Por exempolo, a chamada economia paralela, que dizem rondar os 25% da economia real, prejudica ou não os indices de produtividade? E os custos acrescidos dos grandes BMW, Mercedes, Audis, etc., à disposição das administrações das empresas e de alguns dos seus familiares, prejudica ou não esses rácios?
    Muito mais havia para perguntar a este país de brandes costumes. Mas, por agora, fico-me por aqui.
    Mas se houver alguém que saiba e queira responder, que responda. Seria um debate importante!

    Comentário por Eurocético — Junho 24, 2011 @ 15:40

  3. Caro Eurocé(p)tico,

    A economia paralela pode (ou não) prejudicar os índices de productividade, dependendo se se trata de produção nacional ou importações. Se for produção nacional, que não é oficialmente “registada”, o VAB baixa forçosamente (a despesa mantém-se mas deixa de haver produto). Se for uma importação, não aquece nem arrefece. Se for actividade 100% debaixo do tapete (não existe empresa nem trabalhadores “legais” a produzir o producto) não afecta a productividade.

    Quanto aos custos, não têm grande impacto. Imagine que as administrações das empresas em vez de comprarem viaturas, aumentam os salários. O resultado é o mesmo ou pode ser até pior (carros não pagam IRS ou contribuem para a segurança social, pelo que saem mais “baratos” às empresas que um salário ou bónus monetário).

    Comentário por Carlos Duarte — Junho 24, 2011 @ 16:00

  4. Eu já fiz anteriormente a proposta : Adopte um Funcionário Publico.

    Cada empresa que tire um funcionário publico do Estado tem o desconto nos impostos no valor do ordenado desse funcionário menos a dívida que é gasta para pagar esse ordenado.

    Comentário por lucklucky — Junho 24, 2011 @ 16:41

  5. Concordo com esta proposta do L.L.
    .
    Precisamos é de baixar os impostos sobretudo sobre o trabalho, como a TSU.

    Comentário por Paulo Pereira — Junho 24, 2011 @ 17:53

  6. Infelizmente no Estado a produção de riqueza (VAB) mede-se pelo valor dos salários.Por outro lado os gastos do Estado (G) são procura agregada.
    Esta convenção, provoca os maiores equívocos – todo o funcionário recebe salário, portanto produz riqueza.
    Esta falsidade evidente, provocada pelas regras da contabilidade nacional, continua a ser incompreendida e desvirtua os raciocínios não avisados.
    Para os Keynesianos mais desavisados, a procura agregada é igual ao PIB e portanto para fazer crescer a economia basta contratar um funcionário público, fazer um aterro, ou atribuir um subsídio, porque assim a procura agregada aumenta.
    No final temos uma variação positiva do PIB.
    É esta falácia, que qualquer político percebe , que justifica muitos dos desmandos e ideologias falhadas.

    Comentário por ricardo saramago — Junho 24, 2011 @ 19:41

  7. Sim , é muito melhor ter as pessoas desempregadas e deixá-las morrer à fome, para manter as crenças no sound-money e outras baboseiras.
    .
    Pense lá um bocadinho de onde vem o dinheiro e deixe-se de teimosias passadistas.
    .
    Não entendem que a economia monetária é um sistema fechado, onde a procura é que mantém o processo capitalista ? É tão dificil de compreender isso ?
    A escola não vos ensinou a pensar ?
    .

    Comentário por Paulo Pereira — Junho 24, 2011 @ 19:50

  8. Uma excelente comentário. A justiça é isso mesmo, tratar igual o que é igual e diferente o que é diferente. Não se pode simplesmente continuar com politicas públicas demasiado generalistas em que paga o justo pelo prevariador.
    Urge haver a coragem suficiente para atacar onde doi mais : o fascinio pela hiper-segurança e o “garantismo” tão apreciados por quem deles beneficía.

    Comentário por Ricardo Silva — Junho 24, 2011 @ 21:08


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