“The challenge, however, is to entice investors to lend money to Greece at interest rates that are far lower than what the market is currently demanding. The banks, though, are responsible to their shareholders and could face lawsuits if participation in Greek aid isn’t seen as what is best for the bank, analysts say.”
Como ontem aqui escrevi, com base no mesmo texto que acabo de citar, o refinanciamento voluntário que a Alemanha quer negociar com os bancos privados credores da Grécia, e que consiste na renovação (“roll-over”) das emissões obrigacionistas gregas, está condenado ao insucesso. Estando os juros da dívida pública grega, em mercado secundário, a transaccionar em níveis estratosféricos – 27% a dois anos, 24% a cinco e 16,5% a dez – qualquer renovação das actuais obrigações gregas nas suas condições originais, muito benignas face às condições do mercado secundário, será percepcionada como não voluntária, desencadeando um evento de crédito que, por sua vez, accionará as responsabilidades associadas aos derivados de crédito, nomeadamente os Credit Default Swaps (CDS) que tanto preocupam os responsáveis da União Europeia e do Banco Central Europeu (nota: é provável que boa parte dos CDS sobre bancos europeus tenham sido emitidos e vendidos…por bancos europeus, criando aqui um potencial cenário de “double whammy”).
Nas últimas semanas, tenho escrito abundantemente sobre aquilo que, da observação das ruas e do parlamento gregos, me parece cada vez mais provável: as novas medidas de austeridade, necessárias a fim de que a Grécia receba a última tranche do Fundo Monetário Internacional, serão rejeitadas no dia 30 de Junho, o dia da votação no Parlamento grego. Mas, enfim, vamos, por momentos, assumir o contrário: que, sim, serão aprovadas. Se este for o caso, a Grécia receberá a tal última tranche, mas uns meses depois estará novamente de mão estendida. É nesta altura que os europeus terão de apresentar uma alternativa. Para já, discute-se esta ideia de uma renovação voluntária da dívida. Falhará. Por isso, há que encontrar outras alternativas. Na minha opinião, há uma via possível. Trata-se de recuperar parte da ideia que presidiu à criação dos chamados “Brady bonds” e que acabou por permitir sair de uma crise semelhante registada na América Latina nos anos 80.
Antes de mais, recordemos o conceito. Os “Brady bonds” – assim chamados em memória do secretário de Estado do Tesouro norte-americano da altura – foram obrigações emitidas pelos países então em apuros, os países da América Latina, que se haviam endividado fortemente perante bancos norte-americanos, e que estavam garantidas em parte por Obrigações do Tesouro norte-americano detidas por aqueles mesmos países, tendo sido utilizadas a fim de permutar os empréstimos bancários, puros e duros, que na altura estavam em vias de entrar em incumprimento.
Ora, hoje em dia, sucede o inverso de então, pois a dívida grega encontra-se essencialmente na forma de títulos de dívida pública subscritos por bancos europeus, e não na forma de empréstimos bancários puros e duros. Pelo que, uma forma de a) evitar o evento de crédito e de b) iniciar o inevitável processo de reestruturação da dívida pública grega, seria reembolsar os títulos gregos através de linhas de crédito fornecidas pelos bancos credores – exactamente o inverso do esquema montado a partir dos “Brady bonds” – que, por sua vez, estivessem parcialmente securitizadas a partir dos activos reais que a Grécia ficou de privatizar, mas que ainda não privatizou, e que estão avaliados em cinquenta mil milhões de euros. Por um lado, com uma solução deste género, creio que eliminar-se-ia a possibilidade de um evento de crédito que despoletasse os CDS; quanto muito, uma parte da linha de crédito seria um dia dada como mal parada, deduzindo-se esse valor aos capitais próprios dos bancos e ou Estado afectados. E, por outro lado, os credores, executando os seus direitos sobre activos reais gregos, minimizariam as perdas que um dia, idealmente o mais lá para a frente possível, vão mesmo ter de encaixar..
Se for para manter o Euro, e já tendo lido carradas de sugestões a sua parece-me a mais exequível sem um terremoto financeiro.
Mas permita-me sugerir uma outra forma, a via “americana contemporânea” – quantitative easing – (vulgo impressão de notas pelo BCE como se não houvesse amanhã) num valor que servirá para pagar todos as dividas (já adquiridas) a vencerem nos próximos 7-10 anos a fundo mais ou menos perdido MAS compromisso de um deficit ZERO (ou melhor) nesses 7-10 anos. Quem pagará na realidade este esquema? Todos nós na forma de inflação…
Comentário por David Ferreira — Junho 24, 2011 @ 15:30
Explique-me, por favor, qual seria o grande problema de despoletar os tais “eventos de crédito” e os tais CDS.
Comentário por Luís Lavoura — Junho 24, 2011 @ 15:52
Caro Ricardo Arroja,
Eu parece-me que o problema aqui (seja na Grécia ou em Portugal) é de “moral hazard” e não tanto da dívida em si. A UE tem mais que capacidade (por via dos Estados Membros ou do BCE) de “aguentar” a dívida grega ou portuguesa, pagando directamente aos credores.
Mas, obviamente, os países mais abastados (e a Alemanha à frente destes) não tem nenhum interesse em passar a mensagem de que se os países do sul fizerem disparates, não há problema que eles aguentam o barco.
Assim, emprestam dinheiro a conta-gotas, com termos proibitivos, MAS com um pacote de reformas como condicionante. Estou em crer que se a Grécia (e Portugal) implementar as medidas – que terão, em teoria, o efeito de impedir ou atrasar futuras situações idênticas, retirando poder económico directo ao Estado – a dívida será eventualmente perdoada ou absorvida (sob a forma de empréstimos a juro baixo ou “fundos de coesão”) no médio prazo.
Comentário por Carlos Duarte — Junho 24, 2011 @ 15:53
Caro Luís Lavoura,
Em resposta à sua pergunta, na minha opinião, nenhum problema. Mas do que se ouve e do que lê do BCE parece que há que salvar a face a uns tantos quantos…por isso, tudo o que, na prática, permitir ultrapassar um evento de crédito será percepcionado como positivo.
Comentário por Ricardo Arroja — Junho 24, 2011 @ 16:36
Caro David Ferreira,
Com os alemães à frente da zona euro, não vejo como poderão aqueles aceitar a diluição da dívida ao jeito norte-americano. Sem os alemães, garantido que o BCE assim fará.
Comentário por Ricardo Arroja — Junho 24, 2011 @ 16:38
Caro Carlos Duarte,
Enquanto a coisa estiver circunscrita à Grécia, Irlanda e Portugal, sem dúvida, é um problema de moral hazard. Mas deixe-me acrescentar: mesmo com reestruturação da dívida GIP, acredito que a Espanha escapará mais ou menos incólume (embora esta seja uma aposta de muito risco!)
Comentário por Ricardo Arroja — Junho 24, 2011 @ 16:41
Confiança. Acreditar. Impossível com vale tudo monetário e regulatório. Muitos economistas não parecem perceber a destruição que causam. Para eles é tudo um jogo.
Comentário por lucklucky — Junho 24, 2011 @ 16:46
Caro Ricardo Arroja,
Não sei se no caso espanhol a EU não estará (cinicamente…) à espera que o PSOE caia de podre (ou, na pior das hipóteses, perca de forma estrondosa as eleições para o ano), para o PP poder implementar um programa de reformas à Portuguesa (versão “light”).
Pessoalmente, acho que isto tudo começou a andar de lado quando os gregos perderam o controlo à situação (principalmente quando os conservadores “apostaram” na capitalização do descontentamente e se colocaram do lado da reestruturação da dívida). Como não existem mecanismos punitivos no Euro para “defaults” por parte dos países que o integram, existe o risco de ser “apetecível” reestruturar a dívida, especialmente quando o impacto sobre a moeda é reduzida – o que pode e provavelmente levará a uma reacção em cadeia de reestruturações que seria desastrosa se chegasse a Espanha.
Comentário por Carlos Duarte — Junho 24, 2011 @ 17:01
Securitização por conta das “privatizações” seria uma boa ideia, SE alguém acreditasse que realmente as mesmas correspondessem aos valores pretendidos. Embora haja algum apetite pelos activos, a valorização dos mesmos nunca irá compensar a dívida actual + o risco de crédito.
Comentário por João Branco — Junho 24, 2011 @ 17:15
Uma parte de Brady Bonds privadas com garantias reais mais uma parte de Eurobonds ao preço de custo – 3.5%, exigindo um plano de austeridade publica + aumento dos impostos sobre importações.
Comentário por Paulo Pereira — Junho 24, 2011 @ 17:51
O principal problema da Grécia, são os políticos e a sociedade gregas.
Podem construir-se as melhores engenharias financeiras, com a colaboração dos credores privados e públicos, mas, sem um governo que cumpra os seus compromissos e que tenha capacidade para implementar as reformas no país, nada vai funcionar.
Enquanto os políticos gregos se comportarem como fazia o nosso fatídico engº, vai tudo para a catástrofe, no meio da gritaria no parlamento, arruaça na rua e desonestidade dos governantes.
Nem a iminência da bancarrota, parece pôr um pouco de bom senso na sociedade e nas instituições gregas.
Comentário por ricardo saramago — Junho 24, 2011 @ 18:51
“Podem construir-se as melhores engenharias financeiras, com a colaboração dos credores privados e públicos, mas, sem um governo que cumpra os seus compromissos e que tenha capacidade para implementar as reformas no país, nada vai funcionar.”
Sim. Mas mesmo isso é errado. Se a Grécia não produzir mais do produz nunca irá ser capaz de viver como nesta década em que o fez ás custas da dívida.
Ou seja é tudo conversa fiada de economistas e políticos que têm de fazer batota para justificar os seus postos.
Comentário por lucklucky — Junho 24, 2011 @ 23:18
Por favor volta, capitalismo privado, estás perdoado!.
Comentário por JS — Junho 25, 2011 @ 00:29