O Insurgente

Junho 21, 2011

O Medo de Sair do Euro

Filed under: Comentário,Política Fiscal,Política Monetária,União Europeia — Filipe Faria @ 00:05

Agora que se torna evidente que a saída do euro é uma solução real e que nem sequer depende tanto da vontade dos que desejam manter a moeda única, há cada vez mais vozes em Portugal a advogar esta saída como a única aceitável dadas as condições. A reacção contra estas vozes já se fez sentir, e vem de todos os quadrantes, inclusivamente de quadrantes liberais, especialmente por aqueles, como o João Mendes, que se denominam liberais (sociais) mas querem um Estado federal centralizado em Bruxelas que afasta o poder político dos indivíduos. Porém, outros liberais simplesmente estão, por princípio, contra desvalorizações monetárias e as suas consequências, como parece ser o caso deste texto do Miguel.

O argumento de ambos consiste nos perigos de entregar o controlo monetário ao governo português. O principal argumento que liga estas vozes críticas da saída do euro é que ao se sair do euro resolve-se a curto prazo o problema da competitividade em relação ao exterior mas desaparecem os incentivos para se liberalizar a economia, que é, suponho eu, o principal problema da economia portuguesa. Eu quero aqui desafiar este argumento.

O euro foi um dos grandes responsáveis pelo estado de endividamento a que chegamos. Só nos endividamos desta forma porque o Banco Central Europeu indirectamente injectou crédito barato no Estado português ao aceitar títulos de dívida pública como colateral para empréstimos a bancos comerciais. Isto sim, impediu que qualquer reforma liberal fosse feita internamente, fazendo com que o Estado pudesse subsidiar a improdutividade de inúmeras formas: empregos inúteis na função pública, distribuição de obras públicas para os “rent seekers”, etc… Com o euro (e antes disso com os fundos estruturais europeus) os empresários portugueses passaram a dedicar mais tempo ao “rent seeking” do que a investirem na produtividade. Retirar uma “renda” do Estado proveniente da impressão monetária do BCE passou a ser desporto nacional. Mesmo que Portugal entre em default (e vai entrar), não sair do euro significa apenas a perpetuação deste processo onde o crédito barato torna mais apetecível contrair dívida pública do que liberalizar (tal como até então). Isto só não aconteceria se os Estados decidissem impor limites ao endividamento, mas isto é tão improvável como o Woody Allen continuar a escrever um filme por ano até aos 200 anos.

Sobre os receios de entregar o controlo monetário ao governo português e voltar ao escudo, já o escrevi antes que, apesar de não ser ideal, está um degrau acima do que temos hoje em dia com o BCE. Eu percebia esta resistência contra a desvalorização monetária se a alternativa ao escudo fosse claramente melhor, mas não é. A alternativa à impressora de dinheiro português é a impressora do BCE. É importante lembrar o argumento do economista Philipp Bagus: os países como Portugal estiveram 10 anos a imprimir dinheiro indirectamente via bancos e BCE, mesmo sem terem a sua própria política monetária. Ademais, a única forma de o euro sobreviver nos actuais moldes (isto é, sem centralização fiscal em Bruxelas) é a impressão monetária que irá compensar todos os bancos vítimas dos defaults e irá salvar o próprio BCE detentor de milhares de títulos de dívida pública que irão “rebentar” quando os defaults inevitavelmente surgirem.

Consequentemente, dentro ou fora do euro a desvalorização irá ocorrer. A principal diferença é que saindo do euro ganhamos alguma vantagem competitiva e o acesso ao crédito por parte do Estado torna-se mais difícil, o que é uma excelente notícia para quem deseja liberalização na economia. Mas a principal vantagem das moedas em competição, em vez da moeda única emitida por um banco central europeu, é que a competição destas funciona como um “check” sobre a acção das “impressoras”, visto que as desvalorizações abusivas tornam-se muito mais evidentes ao grande público perante comparação imediata.

A proposta de lançar um escudo baseado no ouro e na prata em concorrência com o euro é interessante e provavelmente melhor do que sair apenas do euro, pois a longo prazo tal tornaria o BCE pouco relevante devido à disciplina a que seria obrigado. Contudo, não só esta proposta seria recebida com inúmeros anti-corpos políticos, mas também tem a desvantagem de não colocar um ponto final no projecto monetário europeu, sabendo-se que, pelo contrário, a saída de inúmeros países do euro provavelmente o faria.

Como alguém que está interessado em que o poder político esteja o mais próximo possível dos indivíduos, como alguém que vê na descentralização uma virtude, quando tenho de optar entre escolher entre uma impressora europeia centralizada e longe dos indivíduos e outra próxima dos indivíduos e em competição com outras, não tenho dúvidas que prefiro a segunda.

Por outras palavras, o meu modelo de referência não está tanto nos EUA mas sim mais próximo da Suíça; e não deixa de ser inusitado que alguns europeus que gritam END THE FED sejam tão discretos e silenciosos em relação ao FED da Europa: o Banco Central Europeu.

17 Comentários »

  1. Estou mais próximo, ainda que sem grande firmeza, da posição do Miguel Noronha, mas o texto está muito bem argumentado.

    Tenho de continuar a pensar no assunto. :)

    Comentário por André Azevedo Alves — Junho 21, 2011 @ 00:17

  2. Excelente texto.

    Comentário por Eduardo F. — Junho 21, 2011 @ 00:34

  3. Quem quer sair do euro não o faz para reduzir a injecção de crédito nem para assegurar a estabilidade dos preços. A ideia é sair do euro e desvalorizar a nova moeda 30% no dia seguinte. Ou pensam que é para sermos uma espécie de Suiça?

    Comentário por JoaoMiranda — Junho 21, 2011 @ 00:59

  4. E mesmo que a saída de Portugal do euro fosse feita por “não-desvalorizadores”, suspeito que o novo escudo se iria desvalorizar por si próprio

    Comentário por Miguel Madeira — Junho 21, 2011 @ 01:32

  5. Para estabilizar os juros não é necessário sair do Euro. Basta que uma parte da divida publica passe a ser única. Por exemplo 50% do PIB. A restante parte teria de ser nacional. Com os Fundos de Resgate e o BEI já temos divida unica. Basta alargar a ideia para todos os estados de forma a nenhum se sentir sobrecarregado com o outro.

    Para aumentar a competitividade, a descida gradual e continuada da TSU até 6% por exemplo e politicas de crédito público direccionadas para as exportações e investimento publico em apoio à produção agrícola poderão ser suficientes, aliados à orientação da investigação universitária para aplicações comerciais.

    Comentário por Paulo Pereira — Junho 21, 2011 @ 01:35

  6. Agora há muitos que dizem isso, mas desses muitos, incluindo o autor da posta, disseram isso alguma vez por exemplo há 5 atrás ?
    Ainda não percebi como vamos sair do Euro com um endividamento externo, público e privado, tão brutal. Nem consigo bem imaginar as consequências de tal cenário.

    Comentário por Anonymous — Junho 21, 2011 @ 01:35

  7. Depois da decisão errada de entrar neste EURO estúpido a uma valor ainda mais estúpido, e depois de termos dividas publicas e privadas tão elevadas, não é racional sair do EURO, pelo menos enquanto existirem outras alternativas menos destrutivas para um estado de direito.
    .
    É preferivel fazer todos os esforços para reduzir o deficit corrente através de politicas industrias e agricolas e através de um incentivos fiscais direcionados para a redução desse deficit e para a criação de emprego em grande escala.

    Comentário por Paulo Pereira — Junho 21, 2011 @ 01:47

  8. Já respondi na Causa Liberal

    End the BCE, long live BdP? Resposta a “O medo de sair do Euro”.
    http://blog.causaliberal.net/2011/06/end-bce-long-live-bdp-resposta-o-medo.html

    Comentário por Carlos Novais — Junho 21, 2011 @ 09:55

  9. O autor Filipe Faria aborda metade da questão fazendo um exercício de subsídios vs competividade. Esse é um exercício que pode e deve fazer-se antes de entrar na moeda única, neste momento, com uma a dívida externa brutal como resolveria a desvalorização e a hiperinflação resultantes do abandono da moeda única?

    Comentário por Anonymous — Junho 21, 2011 @ 10:06

  10. Por mim devíamos sair do Euro e não produzir alguma moeda. Usamos as que já existem no mercado. Até poderia ser o Franco Suíço.

    Comentário por lucklucky — Junho 21, 2011 @ 10:35

  11. [...] a hipótese de Portugal um dia vir a sair do Euro. E, com todo o respeito devido, e por exemplo, o Insurgente foi um deles, e o Do Portugal Profundo foi outro; mas há mais! Alguns “blasfemos” também alinharam contra [...]

    Pingback por Ou o Euro, ou o caos! « perspectivas — Junho 21, 2011 @ 11:03

  12. Bom texto. Realmente “este” €uro -vêmo-lo hoje- está longe da intenção(?) original….
    Como diz LL #10 -e já o disse em relação à Libra- não vale a pena complicar. O espaço Franco Suiço, ou Libra seriam moeda mais “controlável”, à dimensão e interesses da economica nacional. Keep It Simple, Stupid. Novo escudo seria complicar.
    Em qualquer das hipóteses -Euro, Escudo, Libra, Nórdicas, Fraco S. ou outro(!), seria bom legislar no sentido de não permitir novamente, de modo nenhum, um executivo tipo Sócrates. Aí não haverá moeda nenhuma que nos salve.

    Comentário por JS — Junho 21, 2011 @ 11:04

  13. Ou até, quem sabe, o próprio Euro, fora dele… ;-)

    Comentário por João Luís Pinto — Junho 21, 2011 @ 11:15

  14. Sair do euro só faz sentido com default (será impossível manter a dívida em euros), sair do euro implica sair da UE (única forma de evitar fuga massiva de capitais), sair do euro com desvalorização do “novo escudo” implica regressa a um modelo de desenvolvimento sul-americano e ainda pior a o empobrecimento imediato de milhões de portugueses (aqueles mais conscientes, sem dívidas e com algum dinheiro poupado). Sair do euro é um argumento moralmente errado (principalmente pelo ultimo ponto), embora isso não evite que um dia sejamos “convidados” a o fazer.
    Fui contra a entrada de Portugal no euro (em 1999 não era bem isto que pensei que ira acontecer (não – crise da dívida publica, sim – perda global de competitividade), nem tão rápido), mas neste ponto temos de fazer todo o que é possível para nos mantermos no clube do euro e a solução inevitável, a meu ver, o default parcial ou (na minha opinião melhor) “quantitative easing” do BCE (a fundo perdido) para “subsidiar” o default parcial (salvando os bancos com títulos de divida publicas). Evidentemente esta solução obrigará a uma perda ainda maior de independência económica sendo uma solução temporária (se o estado não tiver juízo terá incentivo para repetir a “gracinha”).
    A impressão de dinheiro pelo BCE embora levando a inflação (paga por toda a zona euro em beneficio de 1 estado) fazendo desaparecer 20-30% da dívida dos estados falidos é a solução sem custos elevados imediatos e sem a destruição do projecto europeu (detesto este conceito, mas trouxe paz e prosperidade), infelizmente obriga a um governo económico e fiscal central (no mínimo a quem recorre a esta ultima linha) para evitar deste mecanismo de ultra-excepção se torne regra.

    Comentário por hotboot — Junho 21, 2011 @ 11:37

  15. “Ou até, quem sabe, o próprio Euro, fora dele…”

    Sim. Embora não tenha confiança no BCE seria o natural. A maioria das pessoas optaria por manter a moeda excepto em caso de catástrofe.
    É preciso tirar poder aos políticos não dar-lhes mais poder.

    Fica muito claro que os Bancos Centrais são tudo menos Independentes.

    Comentário por lucklucky — Junho 21, 2011 @ 13:33

  16. http://www.cousasliberaes.com/2011/06/ainda-o-euro.html

    Já que fui citado, fiz algumas considerações adicionais no artigo acima.

    Comentário por João Mendes — Junho 21, 2011 @ 20:00

  17. Nem deviamos ter entrado no euro, tivemos com consequência uma inflacção galopante e uma acentuada perda de poder de compra, as empresas e os particulares não aguentaram, a nossa economia tal como a de outros países não aguenta uma moeda tão forte, concerteza que haverão complicações em sair do euro, mas os beneficios serão concerteza maiores.
    Pede-se aos senhores iluminados que digam ás pessoas em geral quais foram as vantagens para o nosso país da adesão ao euro, desde 2002 foi sempre a regredir, e ainda não fica por aqui.

    Comentário por Paulo Salcedas — Setembro 13, 2011 @ 14:26


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