O Adolfo, no Rua Direita, estrutura uma resposta hábil e inteligente, como não poderia deixar de o ser, à questão que coloquei sobre a afirmação de Paulo Portas de que o seu partido estaria “à esquerda do psd nas questões sociais”.
O ponto, porém, é que esta não é apenas uma frase infeliz. O cds-pp, apesar do esforço de pessoas como o Adolfo, é na sua essência um partido de base conservadora, e que tem demonstrado sempre uma grande dificuldade em abandonar um certo complexo de esquerda, nas questões sociais, e intervencionista, de base nacionalista, em matérias económicas e de segurança. Basta ver a proposta disparatada que Paulo Portas apresentou ontem em Castelo Branco, na sua visita à Dielmar, de conceder créditos fiscais às empresas, na exacta medida em que aumentem as exportações.
Longe de mim entrar em grandes polémicas com o cds-pp, partido com que simpatizo. Apenas serviu este post para chamar à terra todos os que, recentemente, e no campo liberal, se têm deslumbrado com o cds, como se esta fosse a força que representa sem telhados de vidro o espaço do centro-direita, esquecendo rapidamente como é que Paulo Portas ascendeu no partido, promovendo um discurso conservador, estatista e nacionalista. O cds-pp, pese embora tenha algumas pessoas que procuram dar-lhe um pendor mais liberal, é na sua essência um partido de matriz socialista, que na hora da verdade exerce o Poder bastante mais à esquerda do psd. Com essa frase, Paulo Portas não se limitou a piscar o olho ao centro-esquerda, quer também agradar a uma fatia significativa do seu eleitorado, que exige que o cds-pp reafirme políticas sociais amplas e interventivas.
Se formos frios na análise, e compararmos os programas eleitorais das duas últimas eleições dos 3 principais partidos democráticos – ps, cds-pp, e psd – facilmente concluímos que o que vai mais longe, e de uma forma mais coerente, na liberalização da nossa economia e da nossa sociedade, é o do psd. Não por aderir claramente a um programa estruturado fundamentalmente liberal, mas porque a sua base social, burguesa, das classes médias, exige que este seja o partido político que mais confia nas pessoas e na sociedade civil.
Não me deslumbro com o meu psd, recheado de esquizofrenias ideológicas: longe de mim vir aqui fazer a apologia do psd como arauto do liberalismo em Portugal. Aposto no psd porque, no fim de contas, e nas suas limitações, acaba sempre por ser o partido com maior sentido de responsabilidade no exercício do Poder. O que me surpreende é que, gente instruída no campo liberal, se entusiasme tanto com um partido como o cds-pp, ao ponto de lhe verem virtudes que, claramente, não tem, e dificilmente terá num futuro próximo, de defesa incondicional da liberdade individual e do anti-estatismo. Daí estes meus dois textos. Compreendo a adesão ao cds-pp, tenho alguma dificuldade em assistir a rasgos de entusiasmo e fervor. Enfim…
Clarificado este ponto, reafirmo que nestas eleições o mais importante é que, entre PSD e CDS, seja possível obter uma ampla maioria que não só afaste de vez José Sócrates como reduza o peso da esquerda radical, em particular do Bloco de Esquerda. Não há nada mais importante neste momento do que correr com os dois maiores demagogos políticos que a nossa história democrática conheceu – Sócrates e Louçã.
«O cds-pp, pese embora tenha algumas pessoas que procuram dar-lhe um pendor mais liberal, é na sua essência um partido de matriz socialista, que na hora da verdade exerce o Poder bastante mais à esquerda do psd.»
Rodrigo,
Dois pontos:
1) E a matriz do PSD é diferente? Recordas certamente que o próprio Sá Carneiro desejava inicialmente a integração do PSD na Internacional Socialista. Parece-me um bocado uma daquelas situações “diz o roto ao nú”
2) Tens de me dizer quando é que o CDS “exerceu o poder” à esquerda do PSD. Que eu me lembre o CDS só esteve uma vez no governo sem o PSD, em 78, durante um semestre. Olha que nessa altura o PSD também estava cheio de socialistas (a ASDI só aconteceria no ano seguinte)
Comentário por Migas — Maio 20, 2011 @ 09:45
De acordo com quase tudo Rodrigo. Não há razões para grandes entusiasmos liberais com o CDS-PP.
Comentário por André Azevedo Alves — Maio 20, 2011 @ 18:36
Fui votante do CDS, hoje voto PSD. Concordo com o Rodrigo e digo mais: Paulo Portas vive do CDS há já mais de 15 anos e nestes quinze anos teve inúmeras posições políticas. Se olharmos para trás, a incoerência é total. Depois, tenho as maiores dúvias sobre o seu comportamento pela forma como “eliminou” muita gente dentro do CDS que continua um partido em que os regulaemntos e estatutos só valem qunado convêm. Quando não convêm, não são para serem seguidos. Abraço.
Comentário por Balzac — Maio 25, 2011 @ 19:53
[...] de um período de auto-deslumbramento que me pareceu um bocado excessivo – e que tive oportunidade de o manifestar – o CDS-PP está a passar um daqueles momentos normais de non-sense e disparate na tentativa [...]
Pingback por O cantinho do telespectador (XI) « O Insurgente — Maio 30, 2011 @ 15:54