Se houve aspecto que, no plano de Governo negociado pelo…Governo, e ratificado pelo PSD e pelo CDS, com a UE/FMI, surpreendeu o País, foi a sua precisão, quanto a metas numéricas e a prazos temporais. Ora, se a exigência, então revelada, de fixar prazos para o final de Setembro, em matérias tão politicamente complexas como a redefinição das estruturas empresariais públicas ou a reforma da legislação laboral, foi tão leonina, para este País habituado a muita conversa e pouca acção, que podemos agora dizer dos prazos reduzidos que, soube-se este fim de semana, constam do plano final apresentado pelo PS em Bruxelas? Deixaram de ser leoninos e passaram a representar, para os padrões lusitanos, um esforço heróico…
Numa altura em que, na melhor das hipóteses, se afigura uma maioria absoluta PSD-CDS, ou, num pior cenário, uma salgalhada PSD-PS-CDS, sendo que, em ambos os casos, dada a batalha eleitoral e os salamaleques constitucionais, se demorará ainda algum tempo até à formação de um Governo, não percebo como é que se conseguirá cumprir com os prazos previstos para fins de Junho e até aqueles que apontam para fins de Julho. Por exemplo, como é que, no espaço de mês e meio, e dados os evidentes desacordos entre os três partidos, se conseguirá encontrar consenso em redor do reequilíbrio fiscal associado à redução da Taxa Social Única? Ou, outro exemplo, como é que, em menos de um mês, se conseguirá nomear um ministro da Justiça com suficiente força política, a fim de exigir aos tribunais a auditoria que se prevê estar concluída até ao final de Junho? E quanto às privatizações? Uma leitura cuidada do “Primeira Linha” de hoje do Jornal de Negócios (páginas 4 a 8), mostra que, a exemplo da Grécia, também por cá não se vislumbra grande interesse político em executar o que quer que seja…
Em suma, os prazos já eram apertados e agora são-no ainda mais, ao ponto de questionar a própria exequibilidade do plano. E sim, senhor (ainda) primeiro-ministro, as alterações entre a primeira e segunda versão do texto são materiais… Mas, enfim, suspeito que esta segunda versão não será a última. Até lá, até à nova redacção, sugiro que acompanhemos os acontecimentos na Grécia, onde a incompreensão de conceitos como “metas” e “prazos”, na versão germanófila e norte-americana dos termos, fará com que a última tranche do empréstimo negociado em Maio do ano passado junto da UE/FMI, e cujas condições não foram cumpridas pelos gregos, não seja, afinal, entregue. Uma última nota dirigida à esquerda política: enquanto o desequilíbrio orçamental da máquina do Estado, na Grécia ou em Portugal, não for corrigido, não se espere, porquanto não merecemos, um perdão de dívida. Este só aparecerá – e, acreditem, aparecerá mesmo – quando, da evidência factual, resultar que o Estado monstro (e a máquina política e partidária) tenha sido, finalmente, posto na ordem (leia-se, registando excedentes primários, isto é, antes da factura dos juros).