A acreditar pelas reacções liberais à campanha que por aí anda nesse sentido, sim.
Aparentemente, compra nacionalista traduz-se em proteccionismo. Como explicar aqui o fantasma do proteccionismo dado que o movimento não advoga nenhum tipo de enquadramento legal que pudesse forçar outros a comprar nacional contra a sua vontade? Apenas com uma crença: a compra reiterada de produtos nacionais só porque são nacionais teria efeitos perniciosos na saúde da nossa economia por se viciarem as leis da concorrência ao premiarem-se os não competitivos.
O problema dessa crença que permite identificar escolha livre de produtos nacionais com proteccionismo é que parte de uma crença prévia e anti-liberal: a irracionalidade do consumidor. É preciso acreditar que o consumidor é por natureza irracional, capaz de comportamentos de consumo reiteradamente estúpidos que o prejudiquem, escolhendo repetidamente produtos não competitivos, e que nesse sentido é preciso educá-lo.
Ora, o que a campanha advoga é optar por produtos portugueses sempre que pudermos, mesmo que isso implique pagar mais uns cêntimos. “Sempre que se possa” não é o mesmo que “sempre” – prevê-se que se escolham produtos portugueses mas apenas enquanto forem competitivos; e aceitar “pagar mais uns cêntimos” é preferir português desde que o custo dessa preferência seja mínimo.
O Made in Portugal passa então a ser uma marca como qualquer outra, inocuamente sujeita à preferência dos consumidores, como sucede com qualquer outra marca que incorpora por definição a sua imagem no custo do produto: escolhida enquanto tal se isso se apresentar como racional para o consumidor.
Acreditar que sem espartilhos legais esta campanha que já junta quase 80 000 no Facebook se possa sequer aproximar de um perigoso proteccionismo é não compreender que há fenómenos que, graças à racionalidade intrínseca do mercado, apenas podem acontecer quando o Estado impõe a sua mão educando os estúpidos dos consumidores.
A campanha não fala nada de qualidade, só fala de preço (“uns cêntimos a mais”), pelo que um Trabant português que custasse só um pouco mais que um Mercedes, então o carro português deveria ser escolhido em vez do carro alemão.
O proteccionismo pode não estar na legislação, mas se é a “lei da terra”, então os resultados económicos vão ser os mesmos. Se toda a gente decidir partilhar tudo, isso até pode não estar na constituição, pode ser totalmente voluntário, mas o comunismo passa a ser “lei da terra”, e cada um e toda a gente ficará mais pobre. Se as pessoas decidirem voluntariamente comprar caro para vender barato, pode não ser obrigatório, mas fica cada um e toda a gente mais pobre.
Se cada um de nós só consumir produtos portugueses só porque são portugueses, acabará mais pobre, e toda a gente acabará mais pobre. Por muito que seja um resultado livre, é um resultado estúpido do ponto de vista individual, tal como é do ponto de vista social. O proteccionismo é moralmente mau quando é imposto — e é mau quando é livre, e não há cá lugar a relativismos. Uma pessoa pode voluntariamente querer ficar mais pobre, pode sentir-se bem com isso, podemos deixá-la em paz, mas não é por ser uma opção livre que deixa de ser uma opção má e antihumana. Conduz a resultados que objectivamente minam as o bem-estar material e espiritual do indivíduo e da sociedade.
Comentário por AA — Abril 16, 2011 @ 12:56
Isso é um cenário que vive à custa de sermos consumidores irracionais, é fantasioso. É tão provável que aconteça quanto surgir espontaneamente e em massa o Novo Homem não ganancioso de que os comunistas falam. Há coisas que só existem se o Estado as segurar: o protecionismo é uma delas.
Comentário por elisabetejoaquim — Abril 16, 2011 @ 13:09
Deixem-nos consumir os produtos subsidiados pelos estrangeiros!
Comentário por João Luís Pinto — Abril 16, 2011 @ 13:46
Felizmente vivemos em liberdade de comércio, senão estas ideologias ainda nos levavam mais para o abismo.
Eles gostavam era de viver no país do “carro do povo, do uniforme do povo, da televisão do povo e da literatura do povo”.
Hitler e Mao já o fizeram antes com o resultado que conhecemos – a miséria do povo.
Comentário por ricardo saramago — Abril 16, 2011 @ 13:59
Ou seja em vez de lutar contra os custos dos produtos portugueses, quer-se favorecer esses mesmos altos custos. O Estado Soci@lista agradece.
Mais uma organização a favor dos impostos altos…
Comentário por lucklucky — Abril 16, 2011 @ 14:24
Isso é um cenário que vive à custa de sermos consumidores irracionais, é fantasioso. É tão provável que aconteça quanto surgir espontaneamente e em massa o Novo Homem não ganancioso de que os comunistas falam.
??
Há coisas que só existem se o Estado as segurar: o protecionismo é uma delas.
Ninguém está a dizer que as pessoas voluntariamente serem proteccionistas implica que o Estado esteja a obrigar as pessoas a serem proteccionistas. Isto não é um debate semântico. Uma coisa é o Proteccionismo como política pública, outra coisa é o proteccionismo como padrão social. Uma e outra práticas empobrecem um país.
Comentário por AA — Abril 16, 2011 @ 15:06
António, acho que não estás a perceber o que estou a dizer: estou a dizer que acredito ser economicamente impossível “pessoas voluntariamente serem proteccionistas”, pois isso implicaria fazer reiteradas escolhas irracionais, o que não é sustentável. Imaginemos que existe um grupo de nacionalistas que escolhe ficar sempre prejudicado quando consome. Ainda que fanáticos desta ordem possam existir, serão sempre uma minoria, como os suicidários, e nunca atingirão números suficientes para que desse consumo irracional advenha uma tendência que se traduza economicamente em protecionismo.
Comentário por elisabetejoaquim — Abril 16, 2011 @ 15:16
Ou se preferires, o que digo é que não existe tal coisa como “proteccionismo como padrão social”.
Comentário por elisabetejoaquim — Abril 16, 2011 @ 15:21
“tendência que se traduza economicamente em protecionismo”
A economia faz-se à margem.
“agora vamos todos ser suicidas para ajudar o país”
“o suicidarismo é estúpido e economicamente perdulário”
“o fenómeno nunca será significativo numa escala macro”
“por cada suicidário há uma perda líquida para a pessoa e para a sociedade”
Comentário por AA — Abril 16, 2011 @ 15:24
Se um produto português é caro e/ou mau para o consumidor nacional, ainda pior o será para exportação. Habituem o produtor nacional a ser esmeradinho no preço (custos de produção) e excelente na qualidade, e não a ser artificialmente protegido. Isso seria/é a receita da n/ desastrosa balança de bagamentos.
PS. Que fechem ou deixem ir à falência, à vontade, os que mal fazem/produzem. Excepto, claro, se forem Banqueiros amigos do Governo.
Comentário por JS — Abril 16, 2011 @ 15:31
Não existe como padrão social? Então aquela iniciativa toda no Facebook que refere no seu texto? O consumidor está a comprar produto português porque acredita ser a melhor hipótese, porque o economista x e y disse que iria elevar a economia portuguesa e porque o nacional é que é bom! (acho que resumi mais ou menos os motivos) 80mil é um número que impõe algum respeito, para não falar que estas ideias estão enraizadas na mente do português como ervas daninhas.
E verdade seja dita,desde quando é que o ser humano é sempre capaz de escolhas racionais? Se a pessoa só quer ter acesso a este tipo de informação (porque sinceramente também não lhe interessa mais e está satisfeita com estes ‘argumentos’)deixa-se embalar suavemente em retóricas bonitas e sentimentos patrióticos e fica-se por aí,pensa que já fez a sua parte: comprou português, salvou o país, toda a gente fica feliz.
Comentário por RitaM — Abril 16, 2011 @ 15:45
Há dois (grandes) argumentos que podem ser feitos contra a proteccionismo:
Um é o argumento “deontológico”, de que é imoral proibir alguém de comprar produtos estrangeiros.
Outro é o argumento pragmático, de que o proteccionismo prejudica tanto o país que deixa de exportar como o pais que deixa de importar (basicamente, é a teoria da vantagem comparativa).
Ora, se da perspectiva do argumento “deontológico” proibir de comprar produtos estrangeiros e apelar à compra de produtos nacionais é totalmente diferente, da perspectiva pragmática é exactamente a mesma coisa – as percas de eficiência motivadas pelas barreiras alfandegárias acontecem à mesma se, em vez de barreiras e tarifas, tivermos um mentalidade de “compre 560″.
Por outras palavras, apelar ao consumo nacional implica deitar pela janela o que é provavelmente o mais forte argumento anti-proteccionista (enquanto o argumento “deontológico” só convence os que já estão convencidos, o argumento da “vantagem comparativa” até faz algumas pessoas que não têm nada de liberais a serem a favor do comércio livre).
Comentário por Miguel Madeira — Abril 16, 2011 @ 15:59
Parece que fui chamado aqui, agradeço o interesse pelo meu texto que mostrou, do mesmo modo, publiquei a minha resposta no Replicador dos blogs sapo, poderá vê-la clicando no link do website.
Comentário por João Rodrigo — Abril 16, 2011 @ 19:07
António, queres proibir os suicidários económicos? O impacto das suas escolhas irracionais na concorrência é irrisório, e duvido que existam sequer em grande quantidade.
JS, se “um produto português é caro e/ou mau para o consumidor nacional” obviamente ninguém o vai comprar, que tem isso a ver com o post?
Miguel, uma “mentalidade compre 560″ só é racional enquanto os produtos portugueses forem competitivos, logo o seu argumento de que se perderá eficiência não colhe.
Comentário por elisabetejoaquim — Abril 16, 2011 @ 19:07
*que mostrou pelo meu texto
Comentário por João Rodrigo — Abril 16, 2011 @ 19:08
*sigh*
não te vou responder como responderia a um não-insurgente
Comentário por AA — Abril 16, 2011 @ 19:12
1) O Homo economicus é um mito. A acção humana é composta de elementos racionais, emocionais e irracionais no plano individual e colectivo;
2) Desde David Ricardo e da sua Teorias das Vantagens Comparativas que se sabe que o bem-estar de uma colectividade/país reside na especialização e no comércio pelo que, racionalmente, qualquer campanha que vise combatê-los implica uma perda para a colectividade/país que adopte (pela força impositiva do Estado ou não) práticas proteccionistas.
Comentário por Eduardo F. — Abril 16, 2011 @ 21:54
O que tem o ponto 2 a ver com o post? Em quê que apelar a que perante dois produtos igualmente competitivos se prefira um português “visa combater o comércio”?
Se reparar, no post não defendo o Homus economicus mas o seu contrário, dizendo que é perfeitamente racional incorporar na compra elementos culturais, emocionais, e nacionalistas, mesmo que isso custe um pouco mais.
Comentário por elisabetejoaquim — Abril 17, 2011 @ 12:29
haha.. “consumidor é racional”.
Claro que sim, 100%, consome sempre o melhor e mais barato e toma tudo em conta, até elementos culturais (claro, então esses!) Como se vê na nossa dívida privada… “Credito agora? sim vou racionalizar tudo e medir para decidir!”
Podemos fazer o mesmo mas mais eficaz, tiramos dos impostos para apoiar empresas em falência a sustentarem venda de produtos iguais mas mais caros. ops.. já tentámos, funciona mal…
Comentário por Joao — Abril 17, 2011 @ 16:02
Por mais que não seja, a decisão preferencial de escolha de produtos nacionais será sempre mais acertada do ponto de vista ambiental e este valor também deve ser considerado. Os mesmos produtos vindos da China têm uma pegada ecológica esmagadoramente elevada comparativamente àqueles que são produzidos e vendidos apenas a alguns quilómetros adiante.
Comentário por Paulo Pereira — Abril 19, 2011 @ 10:57
“podemos” regressar à idade média e não ter “pegada” nenhuma.
mas não é fazendo o país mais pobre que se melhora o ambiente.
antes pelo contrário, os países mais pobres são aqueles que menos luxos se podem dar no que diz respeito à protecção ambiental.
Comentário por AA — Abril 19, 2011 @ 13:21