Gueorgui Plekhanov foi um marxista russo que defendeu a transição democrática para o comunismo na Rússia. Fê-lo contra Lenine e os bolcheviques que tinham pressa em chegar ao poder e mudar, à força, o regime e o sistema que acusavam de opressor. Para Plekhanov, enquanto a maioria do povo não se convencesse das vantagens de um regime comunista, o aceitasse e o escolhesse, de nada valia uma mudança de regime.
O que se passa hoje em Portugal não é tão grave quanto o que sucedia na Rússia no início do século XX, nem as mudanças que se pretendem, tão radicais. De qualquer forma, as chamadas de atenção de Plekhanov, porque sensatas, merecem toda a nossa consideração. De há vários anos a esta parte, o país corre o risco de se partir em dois. Dois modos e perspectivas de vida que não encaixam uma na outra. De um lado, uma grande parte da população activa tem emprego certo para o resto da vida, enquanto do outro, são muitos os que, com muitas horas de trabalho em cima, aguentam fortes quebras salariais e até o desemprego. Perda de trabalho sem qualquer perspectiva de regresso a médio prazo. A fuga para o estrangeiro tornou-se moda e não se cinge aos capitais. Cerca de 700 mil pessoas já saíram do país nos últimos dez anos. Mais de 7% da população.
Naturalmente que a esta divisão se junta a diferença geracional. Poucos são os que, com vinte anos, conseguem, não direi o emprego da suas vidas por tal ser impossível e não desejável naquela idade, mas uma perspectiva para o futuro. Também para eles, a saída para o estrangeiro é a única opção. Um perigo, na medida em que um país sem gente nova, mais cedo que tarde, acaba.
Cavaco Silva no seu discurso de tomada de posse afirmou que temos de ser realistas e pormos de lado as ideias utópicas. Ter os pés bem assentes na terra, implica não gastar o dinheiro que não há num TGV e noutro aeroporto em Lisboa. Mas ser realista não é apenas dar más notícias, aguardar pela realidade brutal do apocalipse, ostracizando os que se queiram iludir como se de estúpidos se tratassem. Precisamos de políticos prontos para perceber os perigos que o país corre e capazes de se adaptarem, todos os dias, aos desafios que forem surgindo, às dificuldades que se forem colocando à nossa frente. Realismo não é apenas conhecer a triste situação em que nos encontramos, mas compreender o que as dificuldades que ainda estão para vir vão fazer as pessoas sofrer e acreditar na difícil capacidade de adaptação e sobrevivência que todos temos.
Por isso, os alertas de Plekhanov, tão distante de nós no tempo, na geografia e nas ideias, batem tão certo. O próximo governo, os próximos políticos que dele farão parte e o apoiarão no Parlamento precisam de se preparar a fundo e bem, para convencer os cidadãos da necessidade urgente das reformas que irão ser levadas a cabo. Da necessidade do sofrimento que aí vem. Convencendo-as que desta vez será com um propósito digno e compensador. Com resultados à vista em alguns anos. Ter a lição bem estudada para conseguirem a adaptação diária das respostas aos novos problemas, permitindo-se excepções (que são como que uma traição ética aos princípios para manter o essencial) como única forma de levar por diante a política de mudança que preconizam.