(publicado também aqui)
Há dias, Pedro Passos Coelho terá dito (segundo o que leio no Público), referindo-se ao PEC apresentado pelo Governo e a entretanto confirmada rejeição do mesmo, que “o teatro” tinha chegado ao fim, ou seja, que era altura de derrubar o Governo. De facto, o Governo caiu, mas tenho sérias dúvidas que “o teatro” tenha acabado. E basta ter visto o debate de hoje para o perceber.
Quando o Governo tomou posse, um outro debate parlamentar levou-me a escrever que o “ciclo político” que então se iniciava mais não era que um “longo intervalo” entre uma legislatura e a seguinte: todos os partidos tinham a sensação de que esta legislatura não contava. A anterior tinha terminado (o PS já não tinha maioria absoluta), mas a actual surgira num quadro de tão grande indefinição e incerteza (até pela conjuntura económica) que ninguém esperava nada de muito relevante enquanto ela durasse. Desde então, e como na altura escrevi, os partidos representados no Parlamento encararam esta legislatura como esse tal “longo intervalo entre a anterior e a próxima”: fora uma ou outra excepção o debate não passaria nunca de um “jogo de posicionamento” que duraria até à convocação de eleições antecipadas, em que o PS se apresentaria como um agente de “modernização” que só a “cegueira” do “bota-abaixismo” e da “irresponsabilidade” ousava bloquear, e a oposição acusaria o Governo de “arrogância” e, claro, “irresponsabilidade”. Todos sabiam que a legislatura não chegaria ao fim, e todos procurariam que esse destino funesto fosse considerado da responsabilidade da outra parte.
Foi isso que se verificou até hoje. E hoje continuou. Com a excepção da intervenção de Manuela Ferreira Leite, que durante anos alertou quem a quis ouvir para o que de facto se veio a verificar, todos os “agentes políticos” mais não fizeram que “posicionar-se” para a “batalha eleitoral” que se avizinha. O facto de Sócrates ser derrubado não o impede de continuar o tal “teatro”, antes pelo contrário: uma vez fora do poder, Sócrates não têm outra alternativa senão continuar com o “teatro”, representando o papel do Primeiro-Ministro “determinado” e “corajoso”, mas “vítima” do “egoísmo” e dos “interesses partidários” dos que a ele se opõem, motivados por “ressentimento”. E mesmo o dr. Passos Coelho, apesar de ser o autor do obituário do “teatro”, terá de a ele recorrer abundantemente: terá de fingir que nada havia hoje que justificasse queda do Governo, que já não a justificasse há muito tempo; terá de fingir que não serviu de muleta à política que agora crítica; terá de fingir que, tal como Sócrates, passou anos a ignorar os avisos de manuela ferreira leite, a única pessoa que, pelo seu discurso, teria legitimidade para pedir aos portugueses os sacríficios que o “teatro” (de Sócrates, de Passos, de Cavaco) tornou inevitáveis.
Quando escrevi acerca do intervalo que então se iniciava e que agora termina, disse que o verdadeiro problema estava em que, enquanto os deputados e governantes se divertiam a atirar a batata quente de um lado ao outro do hemiciclo, os problemas do país não teriam intervalo. Não tiveram. Disse que piorariam, e de facto pioraram. E salvo essas raras excepções, o Parlamento não os discutiria, como não discutiu. Tornar-se-ia (e foi) inútil, aumentando (como aumentou) a descrença dos cidadãos nos seus representantes. A conta, claro, saiu cara para nós. E o pior é que, tal como o “teatro” não acabou, a conta também não vai ficar por aqui.