O Insurgente

Março 25, 2011

E agora, um desabafo: Passos Coelho, dì qualcosa di destra!

Filed under: Política,Portugal — Tomás Belchior @ 12:02

Estes primeiros dias do resto das nossas vidas estão a revelar-se deprimentes. Numa altura em que precisamos de alternativas, o melhor que nos conseguem dar é uma possibilidade de aumento de impostos, depois de conhecermos a realidade das contas públicas. Há algo nesta conversa que me parece familiar

No dia do pedido de demissão do governo, o Luís Naves voltava à lenga-lenga de que o voto no CDS ou no BE eram votos de protesto. Presumo que a tese seja de que, em circunstâncias normais, pessoas normais votam em partidos que ganham eleições. Eu tenho outra tese: há pessoas que gostam de pensar, mesmo que erradamente, que quando votam estão a escolher entre caminhos diferentes, independentemente dos partidos em que votam ganharem ou não eleições.

Talvez seja idiota pensar desta forma mas, a confirmar-se esta hipótese, é uma idiotice sobretudo da responsabilidade do PS e do PSD. Vamos a exemplos práticos:

“Temos de racionalizar o sector empresarial do Estado e, ao contrário do que tem sido dito pelo actual governo e pelo primeiro-ministro, essa necessidade não resulta de uma visão ideológica do Estado, mas de gastar menos e de ter um Estado que os contribuintes possam sustentar com os seus impostos.”

Esta foi a resposta que o Pedro Passos Coelho, hipotético futuro Primeiro-Ministro deste país, deu há uns dias quando lhe perguntaram sobre a possibilidade de privatizar empresas públicas. A ideia de cortar no Estado não resulta de uma visão ideológica? Então resulta do quê? Quando chegar a altura de acabar com algum dos tais 14.000 organismos públicos vai começar por onde? Vai até onde? Se tivermos dinheiro para pagar não há problema em termos 14.000 organismos públicos a levarem-nos os nossos impostos? É nisto que consiste a visão pós-ideológica?

Isto para mim quer dizer uma coisa muito simples: ou o Pedro Passos Coelho e o PSD não têm convicções, ou têm medo das suas convicções. Em qualquer dos casos, talvez fosse altura de se deixarem de amadorismos porque, mesmo que o objectivo seja dar uma de neo-guterrismo, é preciso fazê-lo com alguma arte se quiserem livrar-nos do Eng.º Sócrates.

Se querem ganhar eleições não se limitem a dizer que se o PS baixa reformas e depois aumenta impostos, vocês têm outro caminho que é o de primeiro aumentar impostos e depois baixar reformas. Se ao fim de um ano e meio não conseguem lidar com as mentiras com que o PS inunda o espaço mediático, se ao fim de um ano e meio não têm nada de melhor para apresentar ao país do que um livrinho escrito por um empresário qualquer como sucedâneo de um programa, se ao fim de um ano e meio não têm um plano para desfazer de cima a baixo os 6 anos de Eng.º Sócrates e os 14 anos em 16 de governação socialista, então ao menos ofereçam convictamente aos portugueses abraços fraternos e muita compreensão para lidar com o FMI ao melhor estilo do nosso Alto Comissário para os Refugiados. Se não ficarem a meio caminho, pode ser que pegue.

Em alternativa, digam qualquer coisa diferente. Digam que querem voltar a meter o Estado na toca porque este impede as empresas de competirem livremente e de criarem empregos. Digam que querem injectar alguma liberdade e responsabilidade individual na saúde, na educação, na segurança social, no código do trabalho, na lei do arrendamento, na função pública, etc. porque é importante não termos metade do país a afundar a outra metade se quisermos sair deste buraco. Digam que querem tirar o Estado das nossas vidas porque numa altura de crise é especialmente importante termos a capacidade de nos preocuparmos livremente uns com os outros, porque numa altura de crise é especialmente importante não estarmos de mão estendida à espera da salvação.

Digam qualquer coisa de direita. Ou desamparem-nos a loja.

15 Comentários »

  1. “Digam qualquer coisa de direita. Ou desamparem-nos a loja.”

    A melhor coisa que ouvi desde há muito tempo…
    É triste não é?

    Comentário por Vasco — Março 25, 2011 @ 12:22

  2. Alterntiva será por o Sr. Portas à prova pois ele, há algum tempo, afirma que fará o que TB acima assinala.
    Ou seja: Srs. Eleitores, ASSUMAM.
    São de esquerda? Óptimo. O socialismo Sócrates não chega? Votem PC
    São de direita? Óptimo. O Passos Coelho é mais do mesmo? Votem CDS
    Para grandes males, grandes remédios.

    Comentário por JS — Março 25, 2011 @ 12:37

  3. JS,

    Eu tenho sérias dúvidas que alguém faça algo de semelhante com o que é preciso fazer mas bolas, temos que exigir mais desta malta. Já chega de palhaçada.

    Comentário por Tomás Belchior — Março 25, 2011 @ 12:47

  4. “Digam que querem voltar a meter o Estado na toca”

    Já agora, nos últimos 90 anos, quando é que ele “esteve na toca”?!
    No Estado Novo? Com Marcelo Caetano? No PREC (julgo que não)? Com Cavaco dos anos 80?

    “porque este impede as empresas de competirem livremente”

    Concordo: Escoltar camiões do pingo doce através de piquetes de greve enquanto outros transportadores ficam retidos, é concorrência desleal.
    Assim como liberalizar sectores e permitir depois que os preços subam e fiquem iguais entre todos os operadores, é ausência de concorrência e…deslealdade para os consumidores!

    Quanto às razões do voto, podem existir muitas explicações:

    Eu voto desde 1991 e, desde sempre nas legislativas, o meu voto sempre foi de protesto, em partidos que não teriam a mínima hipótese de vencer, ou mesmo (muitas vezes) de eleger um único deputado (sim, não tenho qualquer culpa no estado em que isto está)…

    Nas últimas eleições, pela primeira vez, foi diferente:

    Quis votar de forma a que o protesto fosse o maior possível e votei num partido em que possivelmente, “em condições normais”, seria o último a ter o meu voto…mas foi o que me mentiu menos e me propôs menos demagogia.

    Comentário por Dervich — Março 25, 2011 @ 13:03

  5. excelente post

    Comentário por AntonioCostaAmaral (AA) — Março 25, 2011 @ 15:12

  6. Dervich,

    “Já agora, nos últimos 90 anos, quando é que ele “esteve na toca”?!
    No Estado Novo? Com Marcelo Caetano? No PREC (julgo que não)? Com Cavaco dos anos 80?”

    E então? Não estou a perceber o argumento.

    “Assim como liberalizar sectores e permitir depois que os preços subam e fiquem iguais entre todos os operadores, é ausência de concorrência e…deslealdade para os consumidores!”

    Para nem ir mais longe, aconselho um salto a este artigo: http://en.wikipedia.org/wiki/Perfect_competition#Basic_structural_characteristics

    Comentário por Tomás Belchior — Março 25, 2011 @ 16:28

  7. Obrigado António. :)

    Comentário por Tomás Belchior — Março 25, 2011 @ 16:29

  8. Lembro o nome da agremiação a quem vocês estão a pedir coisas de Direita:

    Partido Soci@list@ Democrata

    “Assim como liberalizar sectores e permitir depois que os preços subam e fiquem iguais entre todos os operadores, é ausência de concorrência e…deslealdade para os consumidores!”

    Os preços sobrem em sectores outrora subsidiados e agora com mais impostos e ou porque há mais procura internacional e menos oferta? ora que surpresa.

    Comentário por lucklucky — Março 25, 2011 @ 16:42

  9. Partido SOCIAL-democrata…

    Comentário por filipeabrantes — Março 25, 2011 @ 18:40

  10. Tiago,

    A frase “Digam que querem voltar a meter o Estado na toca” pressupõe que ele (o Estado), algum dia no passado, esteve lá (na toca).

    A minha pergunta é simplesmente: Em que época é que considera que isso aconteceu, de 1928 para cá?

    Julgo que a resposta é importante para ter um termo de comparação e perceber que tipo de modelo de sociedade se defende.

    O link que apresentou descreve condições de concorrência no comércio (ou da falta delas).
    Está-me a dizer que o estado português eliminou algumas das condições ideais de concorrência que o artigo descreve?
    Concordo consigo nesse ponto, e dei exemplos de como isso aconteceu.

    luck,

    “Os preços sobrem em sectores outrora subsidiados e agora com mais impostos e ou porque há mais procura internacional e menos oferta? ”

    Se outrora eram subsidiados mas (na maioria dos casos) funcionavam melhor e eram mais baratos, talvez fosse preferível.

    E não me parece que na água, nas telecomunicações, na distribuição e nos transportes (para dar exemplos) haja “mais procura internacional e menos oferta”…

    Comentário por Dervich — Março 25, 2011 @ 19:28

  11. “Se outrora eram subsidiados mas (na maioria dos casos) funcionavam melhor e eram mais baratos, talvez fosse preferível.”

    Ahahah. Não paga os subsídios?

    “E não me parece que na água, nas telecomunicações, na distribuição e nos transportes (para dar exemplos) haja “mais procura internacional e menos oferta”…”
    Então as telecomunicações estão mais caras. Olha que coisa estranha. Na água fortemente subsidiada no passado e ainda hoje montada num sistema anti competição tinha os mesmo requisitos e necessidades que há 20 anos? Os esgotos para onde eram mandados e como eram tratados? Quais transportes?

    Comentário por lucklucky — Março 25, 2011 @ 19:54

  12. “Partido SOCIAL-democrata”

    Até agora têm se revelado o mesmo.

    Comentário por lucklucky — Março 25, 2011 @ 20:00

  13. [...] – Aviso laranja 2 – E agora, um desabafo: Passos Coelho, dì qualcosa di destra! 3 – Largo do Rato 4 – Momento histórico 5 – O preço da [...]

    Pingback por Top posts da semana « O Insurgente — Março 26, 2011 @ 22:16

  14. Um dos melhores posts que li nos últimos 6 meses! Muito bom porque verdadeiro. Gostei particularmente dessa de votar em partidos pequenos porque se pensa de uma outra forma. É o meu caso. O partido em que voto “quase nem existe”.

    Comentário por Francisco — Março 27, 2011 @ 20:29

  15. Muito obrigado, Francisco :)

    Comentário por Tomás Belchior — Março 28, 2011 @ 00:22


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