A musiquinha dos Deolinda (eu gosto) trouxe à ribalta o óbvio. Os jovens têm dificuldades em entrar no mercado de trabalho e que não é por estudarem mais que a situação muda.
De imediato muitos lembraram que esta geração estava mal habituada e que quem sofre a sério são os desgraçados que têm aos 50 anos se vêm desempregados.
Este não é um problema de gerações. O problema é de sistema, de um sistema que protege quem está dentro em prejuízo de quem está fora. Quem está empregado, quem tem a carteira profissional, a empresa estabelecida e por aí adiante versus os desempregados, os formados fora da ordem e os potenciais empreendedores entalados.
A proteção industrial da segunda república foi potenciada pelo colectivismo da terceira república. Quem está mal é quem está fora ou é atirado para fora do sistema. Quer tenha 20 ou 50 anos está tramado. E estará tramado enquanto não forem eliminadas as barreiras à entrada e à saída que são o garante do sistema proteccionista dos instalados em que vivemos. No emprego são as barreiras à flexibilidade contratual e a proteção da incompetência que jogam contra os jovens e menos jovens que não estão no sistema. Na inovação e empreendedorism serão outras as barreiras concretas mas o princípio é mesmo.
Fazermos disto uma guerra de gerações não é produtivo nem correcto, e é confundir algo relacionado com causa da mesma. Ser jovem está muito correlacionado com estar fora do sistema, mas a causa é estar fora do sistema, estar desempregado,não é ser jovem, o que tambem acontece a menos jovens.
Quando colectivistas defendem mais colectivismo, mais protecção dos que estão no sistema, temos que chamar a atenção aos outros que estão a tentar salvá-los de um incêndio atirando-lhes com baldes de gasolina. Temos de lembrar que é necessário que todos, tanto os que estão dentro como os que estão empregados deviam ter direitos iguais. Que deviam ser eliminadas as barreiras à entrada e à saída do sistema. Que a única forma de isto acontecer é com liberdade contratual.
Esta apropriação da música dos Deolinda é vergonhosa. Além disso, dizer que a canção não tem profundidade nem mostra alternativas é de um preconceito descabido e completamente vergonhoso. Precisamos de mais, Deolinda. Força nessa verve!!!
Comentário por Julian — Fevereiro 18, 2011 @ 23:56
Concordo inteiramente consigo. Em Portugal existe uma forma perversa de feudalismo que cada vez se acentua mais. Só temo que os jovens, em vez de combaterem esse feudalismo, comecem a procurar um senhor. Não é uma luta de gerações porque os mais jovens não têm quem os represente verdadeiramente. Neste últimos 37 anos o país mudou, os políticos não. Já dizia o Eça de Queirós “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo…”
Comentário por André — Fevereiro 19, 2011 @ 11:43
Julien,
Não me aproprio em absoluto. Também não a interpreto para alem do que ela diz. A letra constata uma realidade, esta nao é sujeita a interpretações nem a apropriações.
É claro que não há acordo sobre a causa da realidade e ainda menos sobre como sair dela. E digo-lhe de caras que o mais provável é que sobre a causa não esteja minimamente de acordo com o autor da letra dos Deolinda.
Comentário por Ricardo G. Francisco — Fevereiro 19, 2011 @ 13:27
“O problema é de sistema”
Só que, acontece que as leis do trabalho não mudaram em Portugal nos tempos mais recentes, e esta dificuldade dos jovens em encontrar emprego é coisa recente.
Ou seja, a situação dos jovens há dez ou vinte anos atrás era muito melhor, apesar de as leis do trabalho serem mais ou menos as mesmas.
O que contradiz a ideia de que o problema seja das leis de trabalho.
Comentário por Luís Lavoura — Fevereiro 19, 2011 @ 16:55
LL,
em rigor as leis do trabalho têm se fartado de mudar nos tempos recentes – qualquer novo governo lança um “Código do Trabalho”, mas essas mudanças até são no sentido defendido pelos que que dizem que a culpa é das leis do trabalho.
Comentário por Miguel Madeira — Fevereiro 19, 2011 @ 19:06
Miguel Madeira,
De facto o Estado continua a penalizar e limitar cada vez mais os contratos de trabalho com termo. Outra coisa que continua a aumentar cada vez mais é o diferencial entre as condições e direitos adquiridos de quem está dentro do sistema e as condições e direitos disponíveis para quem está fora do sistema. No contexto actual existe de facto menos emprego do que indivíduos prontos a trabalhar. O sistema garante que não são os melhores a serem empregues. O primeiro critério é estarem já dentro do sistema. Se por uma infelicidade uma pessoa fica desempregada o delta entre o disponível e a expectativa é ainda maior. De qualquer forma a resposta é sim, é o sistema que protege quem está empregue em desfavor de quem está desempregado. To add pain to injury é um sistema que vende a ideia de que a expectativa deve ser uma quando a realidade é outra. Que fazendo uma pós graduação, per si, garante melhores expectativas.
Comentário por Ricardo G. Francisco — Fevereiro 19, 2011 @ 21:01
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