Concordando a base deste artigo, de que partidos como o BE ou como PCP, têm uma visão da democracia que é uma ditadura de partidos amigos do BE e do PCP, e que nas ruas do Cairo estão muitos que partilham desta visão, creio que não podemos alinhar com a ideia de que esta é uma revolução “deles”.
É antes de mais uma revolução contra um regime autoritário, que não é melhor nem por estar alinhado com a Internacional Socialista, nem por ser apoiado pelos EUA ou por ter boas relações com Israel. Um revolução pacífica, e aqui o artigo de Alberto Gonçalves esta deslocado da realidade, em que os manifestantes mostraram várias vezes que querem manter o estatuto de não violentos, por oposição aos defensores do regime. Algo que lhes está a garantir muitos apoios, mesmo nos EUA, que sempre apoiaram Mubarak.
As massas que participam nesta revolta não são homogéneas ideologicamente. Há de tudo e o que os une é a vontade de mudar de regime. Apenas podemos esperar que saia uma democratização liberal do Egipto em vez de, tal como AG teme e o BE anseia, uma ditadura de inspiração corãnica com tempero socialista.
Não podemos ser contra uma revolução pacífica contra uma ditadura. Não podemos. Poderemos ser contra um novo regime também ditatorial. É cedo para ver que é isso que se trata. Para já há que aplaudir e torcer “for the good guys”. Eles precisam.
Muito bem.
Comentário por lucklucky — Fevereiro 6, 2011 @ 13:32
Não sabendo o que está na cabeça dos outros militantes do BE (apenas da minha) acho muito pouco prov´vel que anseiem por um ditadura corãnica, nem que seja porque isso seria benéfico para a direita no Ocidente (a esperança que muita gente bna extrema-esquerda tem que estes protestos de rua saltem o mediterraneo só se poderia cumprir se eles adiptassem uma ideologia aceitável neste lado do mediteraneo)
Comentário por miguelmadeira — Fevereiro 6, 2011 @ 19:07
Explicando melhor o que eu queria dizer no ponto 2 – imagine-se daqui a uns meses uma vaga de protestos contra mais uma série de medidas de austeridade algures nalgum país europeu. Então, no meio de uma manifestação, ou de um plenário, ou coisa ssim, alguém se levanta e sugere “deveria-mos era fazer uma greve geral e uma manifestação permanente, e levantarmos uma barricadas, até derrubarmos este governo dos banqueiros! Viram como foi no Egipto??”.
Em que situação este discurso irá ter mais capacidade mobilizadora? Se, entretanto, nesse momento no Egipto estiver um governo secular-progressista”, ou se estivermos a ouvir noticias estilo “aprovada pena de morte para os adúlteros no Egipto”?
Muito provavelmente, o que a maior parte dos raidicais de esquerda devem estar pensado agora é algo no género “espero que deia tempo para aparecer um partido esquerdista laico – estilo FDLP palestiniana – que assuma a direcção do movimento de massas antes da Irmandade Muçulmana o fazer; senão estragam-nos o esquema todo!”
Comentário por miguelmadeira — Fevereiro 6, 2011 @ 19:22
Miguel,
Bem sei que no BE não há um pensamento único. Dito isto, por essas bandas continua a valer a lógica do “inimigo do meu inimigo meu amigo é”. O ansiarem por um outro Irão inimigo dos EUA tem mais adeptos que a tua alternativa.
De qualquer forma discordo de um dos teus pressupostos. As manifestações por lá têm origem política, no sentido mais básico. Por aqui revolta só se for nas urnas em partidos que queiram dar de facto soluções para as novas gerações, e não mais dos mesmos que estão por lá para defender os direitos adquiridos e impossíveis de partilhar das outras.
Comentário por Ricardo G. Francisco — Fevereiro 6, 2011 @ 19:40
Vamos lá a tentar perceber o que é que os «gajos porreiros» querem; melhor: o que é que faz deles «gajos porreiros»!
Ser a favor de um movimento porque promete mudança é pueril.
Não estão em causa as qualidades humanas dos manifestantes: seguramente que querem o melhor para si próprios, para os seus próximos, para o seu país. A questão é, tão somente, o que é que eles pensam que é bom, que é o melhor.
Será que os apoiantes de Mubarak são maus? Querem o pior para o Egipto e para os egípcios?
Lapidar um adúltero parece-nos uma atrocidade injustificável; mas para um escrupuloso muçulmano é o melhor que há a fazer, não apenas porque a sharia o estipula, mas porque é necessário punir um crime que é danoso para a sociedade e dar o exemplo. Lapidar o adúltero é, na perspectiva dos zelosos do islão, o melhor que há a fazer e fazem-no porque, na sua perspectiva, é bom, movidos pelas melhores intenções, suponho. Julgo que não o fazem por perversidade.
A propósito disto, recomendo a leitura do mais recente postal do Daniel Greenfield:
http://sultanknish.blogspot.com/2011/02/what-if-problem-really-is-people.html
Já agora: caracterizar a revolução no Egipto, depois das manifestações da semana passada, como pacífica não me parece razoável. Eu vi pedras às centenas serem projectadas em ambas as direcções. Não sei quem atirou a primeira pedra, embora, pela cronologia, parece ter sido obra dos apoiantes de Mubarak; mas os pacifistas, alguns, pelo menos, deixaram de o ser quando ripostaram.
Nem os censuro por isso: provavelmente, faria o mesmo. Mas não ficaria à espera de ser considerado pacifista.
Comentário por Luís Cardoso — Fevereiro 7, 2011 @ 17:01
Caro Luís Cardoso,
Dentro dos manifestantes existe de tudo, incluindo “good guys” a quem vale a pena apoiar.
Sobre se as manifestações são pacíficas ou não creio que há consenso. Não estão a atacar nem pessoas nem bens. Estão concentrados em locais públicos.
Houve confrontos. Sim. Nos dias em que Pro-mubarak atacaram os locais públicos de concentração. A evidencia de que foi apenas resposta é de que os confrontos começaram apenas com as “Contra-manifestações”. Antes e depois em convivencia com o exército que é quem está a policiar as ruas.
POrtanto 2 pontos:
1. Existem no meio da massa heterógenea “good guys”. Se há dúvida para mim a definição de “good guys” são indivíduos que querem ter uma democracia liberal de estilo ocidental(e sei que há e não são poucos).
2. Em geral os manifestantes têm sido um exemplo de não violencia. Repare que é uma coisa pensada e planeada. São propositadamente não violentos, amigáveis de jornalistas e estrangeiros, fazem gala da não confrontação religiosa e por fim mostram que estão com o exército (parte que para mim leva a crer que a revolução não vai a lado nenhum).
Comentário por Ricardo G. Francisco — Fevereiro 7, 2011 @ 17:36
Caro Ricardo,
Considera a sua amostra da sociedade egípcia significativa? Aqueles «não poucos» que querem uma democracia liberal de tipo ocidental?
Não está a par de estatísticas recentes feitas no Egipto?
«Democracy
59%: Say democracy is preferable to any other form of government.
22%: Say a non-democratic system can be preferable in certain circumstances
Islam in politics
95%: Say it’s good that Islam plays a large role in politics
85%: Say Islam’s influence on politics is good
48%: Say Islam currently play a large role in Egyptian politics
Islamist extremism
80%: Think suicide bombings are never or rarely justified.
20%: Think suicide bombings are sometimes or often justified
70%: Are concerned or very concerned about Islamist extremism in the world
61%: Are concerned or very concerned about Islamist extremism in the Egypt
Traditional Muslim practices
54%: Believe men and women should be segregated in the workplace
82%: Believe adulterers should be stoned
84%: Believe apostates from Islam should face the death penalty
77%: Believe thieves should be flogged or have their hands cut off»
In http://www.theglobeandmail.com/news/world/crisis-in-egypt/poll-shows-egyptians-favour-democracy-and-stoning-for-adultery/article1892414/
Cumprimentos,
Comentário por Luís Cardoso — Fevereiro 7, 2011 @ 17:48
Luis Cardoso, parece-me que a única parte dessas sondagens que desmentem o que o Ricardo Francisco diz é a dos “Traditional Muslim practices”.
Comentário por miguelmadeira — Fevereiro 7, 2011 @ 22:29
Já agora, é conveniente ditinguir os conceitos de “pacifista” e “pacifico”.
Comentário por miguelmadeira — Fevereiro 7, 2011 @ 22:32
Miguel Madeira,
Parece-lhe irrelevante?
Comentário por Luís Cardoso — Fevereiro 7, 2011 @ 22:33
# 8.
Para além do mais, não me parece que seja verdade o que diz:
Comentário por Luís Cardoso — Fevereiro 7, 2011 @ 22:45
Provavelmente 16 milhões; e…? Façamos o raciocínio inverso – a que percentagem da população correspondem esses eventuais 16 milhões – apenas 20%!
[Já gora, eu pessoalmente não tenho nada contra ataques bombistas suicidas; tenho, sim, contra ataques bombistas contra inocentes, mas é me totalmente indiferente se o bombista se mata a si próprio ou se activa a bomba por controle remoto]
Comentário por miguelmadeira — Fevereiro 7, 2011 @ 23:07
Entretanto, descobri que a pergunta em questão era “Some people think that suicide bombing and other forms of violence against civilian targets are justified in order to defend Islam from its enemies. Do you personally feel that this kind of violence is…?”, o que torna sem sentido o meu parágrafo dentro de parenteses
Comentário por miguelmadeira — Fevereiro 7, 2011 @ 23:20
De acordo com a sondagem, e coma a sua avaliação do caso, «apenas» 16 milhões de pessoas no Egipto pensam que «suicide bombing and other forms of violence against civilian targets are justified in order to defend Islam from its enemies»?
Será isto?
Comentário por Luís Cardoso — Fevereiro 7, 2011 @ 23:38
Incomodaria-me mais se 2 milhões de jordanos (em 6 milhões em meio) pensasse isso do que 16 milhões de egípcios (em 80 milhões)
Comentário por miguelmadeira — Fevereiro 8, 2011 @ 01:07
Pois. O Miguel deve ser uma pessoa serena e muito em paz. A mim, como tenho traços ansiosos, preocupa-me saber que 16 000 000 de pessoas (a tomar por válidos os resultados da sondagem) julguem justificados actos de terrorismo. Preocupa-me, ademais, que uma percentagem, por ínfima que seja, desses 16 000 000 de egípcios possa estar na disposição de passar ao acto.
O que não me preocupa minimamente é nacionalidade dos zelosos soldados de Alá.
Comentário por Luís Cardoso — Fevereiro 8, 2011 @ 09:39