O Insurgente

Fevereiro 6, 2011

Sobre a canção dos Deolinda poder ser transformada num Hino

Filed under: Blogosfera,Política,Portugal — elisabetejoaquim @ 13:13

O problema na canção dos Deolinda não parece ser o do Direito ao Trabalho (se não falaria também dos não licenciados ou dos que tiraram cursos profissionais – não imunes ao desemprego), o que faria da canção um hino socialista clássico.  O problema é mais preciso: parte do princípio que estudar (licenciar-se) é uma porta automática para uma remuneração, que estagiar é já uma fraude na promessa-símbolo da entrega do canudo, e que no fundo os licenciados são apenas instrumentalizados, escravizados por todo este sistema sem garantias.

Estamos de facto a falar apenas de um levantamento dos sintomas. A letra não aborda nem as causas, nem as soluções do problema, sendo nesse sentido apolítica. No entanto, torná-la hino seria, isso sim, torná-la política: seria dizer que dada minoria a quem não foram atribuídos privilégios implicitamente prometidos (pelo Estado através do sistema educativo?; pelo culto provinciano dos doutores?) deve ser considerada como classe cujos interesses devem ser protegidos.

A queixa «geração sem remuneração» parece desenhada para designar como interlocutor o Estado – na escolha do conceito macro «geração», unidade de medida apenas interessante na perspectiva da engenharia social, e no conceito legalista de «remuneração». Nesse sentido, tornar a canção num hino seria cristalizar a atitude que vê o Estado como primeiro interlocutor para resolver os problemas da sociedade, quer exigindo ao Estado menos peso, quer exigindo mais peso – ambas as atitudes vêm a sociedade como um mero espelho das acções do Estado.

E se o problema não fosse do Estado? E se o problema fosse da mentalidade portuguesa tradicionalmente adversa ao empreendedorismo; para quem «arranjar emprego» está a milhas do paradigma «criar oportunidade de trabalho»; para quem o acto de ser remunerado é um acto passivo, o resultado de uma hierarquia patrão-instrumento que roça sempre finamente o imaginário da escravatura? Os portugueses encaram o trabalho como a virgem passiva que permite aos outros o uso do seu corpo e exige por isso, muito ofendida, direitos em troca. Neste quadro mental, o trabalho é um sacrifício. Protegem-se os filhos desse mal durante o maior período de tempo possível; deseja-se que sejam agraciados pelo tipo de emprego que menos trabalho requer; fomentam-se as cunhas – trunfo para uma entrada directa da escola para o emprego sem passar pelo esforço de trabalhar o caminho até lá. Noutras culturas (inclusive socialistas cujo Estado tem um grande peso, como nos paises nórdicos) o trabalho é encarado como pedagógico desde de tenra idade; «estar empregado» é uma expressão vazia; e criar oportunidades de trabalho é uma realidade, mesmo entre jovens recém licenciados.

Mas vamos imaginar que o problema tinha mesmo raíz no Estado. Como é que fazer desta canção que perpetua o Estado como patrão de todos nós um hino pode fazer com que o peso do Estado na sociedade deixe de ser o problema? Tornar a canção um hino seria perpetuar a causa dos sintomas que levanta.

7 Comentários »

  1. O caminho político que estão a dar à canção dos Deolinda não esconde uma questão óbvia: a canção é apolitica, a mensagem aponta um problema e não uma solução. Compete a quem tem competência resolver este problema. Que nos sirva de chamada de atenção…

    Comentário por Victor Ferraz — Fevereiro 6, 2011 @ 16:20

  2. muito bem – e naturalmente se sair alguma coisa disto, é que uma geração de parvos vai sair-se com alguma coisa muito parva….

    Comentário por AntonioCostaAmaral (AA) — Fevereiro 6, 2011 @ 17:30

  3. O problema real, foi criado por toda uma sociedade, será esta no seu todo que terá de encontrar uma solução, sofrendo as consequências de erradas escolhas, jamais o Estado, cuja intervenção apenas pode agravar a situação…

    Comentário por António de Almeida — Fevereiro 6, 2011 @ 18:21

  4. Até que enfim! Os jóvens burgueses socialístico-líricos mas sem padrinhos -e não só- começam a perceber que já estão na fase do “salve-se quem puder”. Acabaram, há muito, os empregos injustificadamente “remunerados” do Estado, que a economia social-facista foi capaz de (mal)criar.

    Opções ?. Simples. Ou continuar a votar “Socialista”, PS e PSD, com os resultados que agora se metem pelos olhos dentro, ou acordar e, tal como o Sr. Obama, que também -aonde é já vimos este filme- quer um segundo mandato, ler Ronald Regan….

    Comentário por JS — Fevereiro 7, 2011 @ 12:10

  5. O grupo musical Deolinda marcou a agenda com o tema “Que Parva que Sou”, onde denuncia a “geração sem remuneração”.

    A que se deve o fenómeno de uma geração inteira com o futuro adiado?

    Porque motivo existem tantas empresas suportadas em estagiários sem remuneração? Essas empresas estão a funcionar, ou a sobreviver à incapacidade dos seus lideres de responder aos novos modelos de negócio?
    Considerarão esses “lideres” que o futuro passa pelo mix mão de obra gratuita com hierarquias cristalizadas?

    E os nossos jovens? Porque nao empreendem por conta própria num momento em que a sua mão de obra nao é valorizada ao serviço de outrém?
    Porque esperam que D. Sebastião regresse do nevoeiro para lhes oferecer um posto de trabalho?

    É tempo de reagir: É tempo de perder o medo de empreender por conta própria.

    Se a formação formal é igual a tantos milhares de outros profissionais, já as competências informais são mais individuais. E a sua conjugação, torna cada individuo num profissional único para responder a uma necessidade específica da economia.

    Actuamos?

    Comentário por Frederico Lucas — Fevereiro 8, 2011 @ 17:37

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