Para ler em conjunto com estas declarações de Guilherme Melo: Amar para morrer em NYC. A história de duas ilusões – Castro teve uma relação sem intimidade sexual e mandava um detective privado investigar a vida de namorados e amigos
Há anos que o cronista e o detective trocavam favores. Mário Costa servia-se de Carlos Castro para obter informações de gente do meio da moda e do jet-set: “Não havia melhor informador do que ele. Sabia tudo de toda aquela gente”. Em troca, Castro mandava investigar os namorados ou amigos quando suspeitava de alguma traição . “Queria saber se o traíam, que vida levavam ou o que diziam dele nas suas costas”, conta ao i Mário Costa. No que respeita aos envolvimentos amorosos, Carlos Castro cometia um erro crasso, na perspectiva do detective: “Chamei-o burro tantas vezes. Só vinha ter comigo quando as relações estavam à beira da ruptura.”
A necessidade de controlar a vida dos que o rodeavam não espantava os amigos mais próximos, que reconheciam nele “um homem de paixões intensas e fulminantes”, das quais saía quase sempre destroçado e com tendências de suicídio. Castro, que nunca se envolveu sexualmente com uma mulher, deixava-se atrair pela beleza dos homens entre os 20 e os 30 anos, pela sua força e masculinidade. Quando se apaixonava era dedicado e fiel e o seu lado romântico superava as leis da atracção dos corpos. Um amigo contou ao i uma confidência que Castro lhe fez: na relação que manteve com um GNR “não chegou a existir intimidade sexual. “O GNR dizia–lhe que não estava preparado para partir para uma relação física homossexual. E o Carlos, como gostava dele, esperava.”
Os amigos duvidam que tenha acontecido o mesmo com o manequim de Cantanhede, Ricardo Seabra.
(…)
Treze dias depois, Renato sai do hotel, em Times Square, após tomar o pequeno–almoço, enquanto Carlos Castro fica no Intercontinental a responder a um inquérito da revista “Pública”. No quarto do 34.o andar, Castro pensava “ir almoçar uma salada verdinha”. Respondia estar a viver “o primeiro e grande momento da sua vida” e que gostaria de morrer “agarrado ternamente” a esse momento. À mesma hora, num restaurante a dez minutos do hotel, segundo avançou o “Sol”, Renato pedia o telemóvel a uma desconhecida e ligava à mãe a pedir ajuda para regressar a casa. Odília terá sido a última a ouvir a voz de Castro, quando este lhe liga a avisar que o filho já chegou à suite. Depois de uma discussão, Renato asfixia-o. Esmurra-o, partindo-lhe um osso hióide que suporta os músculos da língua. Espezinha-o, deixando a sola do sapato marcada com sangue no rosto do cronista. Castro já está morto, mas Renato pontapeia-o e depois de espetar um saca-rolhas aleatoriamente em várias partes do corpo nu, rasga-lhe os testículos. Renato deixou-se de ilusões: já não acreditava que Carlos Castro podia ser o passaporte para a carreira.
Leitura complementar: Guilherme Melo sobre Carlos Castro e Renato Seabra; Renato Seabra inimputável ? ; As elites LGBT e o país real; Carlos Castro, a “comunidade gay” e a imprensa; Carlos Castro, Renato Seabra e a “tese da homossexualidade”.
Não percebo muito bem qual é o objectivo de todos estes posts sobre o assassinato de Carlos Castro. Falar de uma suposta elite que desculpa os crimes quando não são cometidos contra homossexuais não chega para construir um argumento. Convinha que se encontrassem as citações a que se refere. Porque caso contrário posso fazer o mesmo, quer ver: “as elites conservadoras/liberais de Portugal, rápidas a condenar homicidas e criminosos como malandros sem salvação, procuram agora desculpar este crime alegando que o envolvimento de um homossexual justifica os actos de Ricardo Seabra”. Assim como as suas acusações, isto é vago o suficiente para que ninguém me possa desmentir, mas por outro lado cínico o suficiente para deixar todos felizes aqueles que não gostam dos conservadores ou liberais portugueses.
Isto foi um crime horrível que envolve ambição desmedida, jogos de poder e um acto tresloucado de um indivíduo que aparentemente se deixou levar para um mundo que detestava. Mais nada. Tudo o resto são desculpas de quem quer aproveitar para condenar a homossexualidade sem o dizer directamente, ou de quem quer vitimizar-se usando uma situação que nada tem a ver com as descriminações do dia-a-dia.
Comentário por Pedro — Janeiro 17, 2011 @ 17:03