O Insurgente

Janeiro 14, 2011

Ainda os impostos sobre o trabalho

Filed under: Comentário,Economia — Carlos Guimarães Pinto @ 08:44

O Miguel Madeira escreveu no Vento Sueste dois excelentes posts sobre a questão de saber quem paga os impostos sobre o trabalho, que passarei a comentar.

O Miguel, parece seguir no primeiro post exactamente o mesmo raciocínio que eu (embora não o saiba ainda). Com o primeiro gráfico demonstra como, em situações normais de mercado, a criação, ou aumento, do imposto sobre o trabalho, tenderá a ser suportado por ambas as partes. Essa foi a minha primeira conclusão, descrita neste post. Mas a parte desafiante nesta questão, é a de saber qual o montante relativo que caberá a cada uma das partes (50-50, 80-20,…).

Para responder a essa questão, eu utilizei dois cenários extremos:
- Um primeiro cenário, em que o salário do trabalhador está próximo do salário de reserva, que será o equivalente à situação que o Miguel Madeira descreve no segundo gráfico deste post. Este cenário, e parece-me este o comentário que faltou no post do Miguel, é típico de situações em que a oferta de trabalho é muito superior à procura, ou seja, semelhante ao cenário A deste post.
- Um segundo cenário corresponde à situação oposta. Ainda que o paralelo não seja intuitivamente tão directo, o terceiro gráfico deste post do Miguel corresponde ao cenário B deste meu post. Para ser mais específico, o meu cenário B corresponde a ter uma curva de procura de trabalho totalmente elástica o que teria os mesmo resultados.

Não sei se a intenção terá sido essa, mas os gráficos apresentados pelo Miguel, suportam exactamente a teoria que aqui apresentei, ou seja, que o valor do imposto é suportado na mesma relação que o benefício pelo valor acrescentado na produção (que por sua vez depende das condições negociais das partes).

Depois o Miguel parte para a análise do mercado de trabalho numa situação de desequilíbrio. E aqui é que parece que expliquei mal a minha teoria. Quando eu digo que o custo do imposto que é assumido pelo trabalhador depende do equilíbrio no mercado laboral, não me refiro à economia como um todo, mas a cada um dos diversos submercados (regiões, sectores, empresas,….), mais especificamente à relação laboral de cada um dos trabalhadores com o seu empregador. Um aumento do IRS em Portugal teria diferentes impactos no salário líquidos dos trabalhadores do Vale-do-Ave e no dos auditores da Deloitte do Saldanha (o meu comentário sobre a taxa de desemprego em Espanha terá sido infeliz). A análise de sobre quem recai a taxa de imposto só faz sentido se for feita a uma relação laboral específica. Ataxa de desemprego da economia é uma espécie de factor exógeno no modelo.

5 Comentários »

  1. queria lembrar que as “empresas” não pagam impostos, todo e qualquer imposto é sempre pago por pessoas, pelas pessoas produtoras.

    Comentário por CN — Janeiro 14, 2011 @ 09:51

  2. Carlos,

    É claro que a análise tem resultados semelhantes. Com métodos e pressupostos semelhantes tinham de dar resultados iguais.

    Se leres o manual de macro onde estão as análises baseadas no modelo neo-clássico existem uma série de pressupostos que não se verificam em geral e que estão particularmente longe da nossa realidade. Um exemplo é a rigidez contratual.

    Lembro que são modelos, tentativas de reprodução da realidade. Se a realidade não bate certo com o modelo, insiste-se como modelo? A realidade é que, impostos são custos directos na aquisição de trabalho. Ceteribus paribus a empresa prefere pagar estes custos directamente ao trabalhador que ao Estado.

    O efeito dinâmico, por mais complexo que seja, independentemente do efeito na procura/oferta total e no preço médio equilíbrio de mercado tem sempre a mesma pergunta respondida da mesma forma. Em qualquer momento a empresa, se dada a opção prefere pagar o imposto directamente ao trabalhador.

    Comentário por Ricardo G. Francisco — Janeiro 14, 2011 @ 10:39

  3. CN, sim. Onde se lê “a empresa”, pode lêr-se “o empresário” ou “o investidor”.

    Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Janeiro 14, 2011 @ 12:19

  4. “Ceteribus paribus a empresa prefere pagar estes custos directamente ao trabalhador que ao Estado.”

    De acordo. E o mesmo acontece com o IVA e o IRC. O empresário provavelmente preferiria pagá-los ao trabalhador do que ao Estado. Mas para entender quem paga de facto, temos que fazer uma análise dinâmica. A questão é: se o IRC não existisse, iria o trabalhador absorver o seu valor completamente? Na maior parte dos casos, não. Não podemos considerar o IRC commo um custo apenas do trabalhador se ele não recebesse esse valor se o IRC não existisse. O custo para o trabalhador é a diferença entre o que recebe com a situação actual e numa situação sem IRC.

    Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Janeiro 14, 2011 @ 12:34

  5. Carlos,

    O IVA e o IRC não são proporcionais à remuneração nem são consequência deste.

    As consequências não são só sofridas pela empresa e pelos seus trabalhadores individualmente. Tem impacto para a frente e para trás. A economia está toda ligada. So what?

    Comentário por Ricardo G. Francisco — Janeiro 14, 2011 @ 18:18


RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Tema: Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 2.441 outros seguidores