À partida não deveríamos gostar de escrever textos sobre quem morre. Mas vamos envelhecendo e quando aqueles que, de uma maneira ou outra, admiramos, desaparecem, passamos a encarar a morte de outra forma, respeitando ainda mais quem já foi embora e nos mostra que não há que ter medo.
Em 2010 faleceram três homens essenciais para Portugal: Ernâni Lopes, Saldanha Sanches e Henrique Nascimento Rodrigues. O primeiro, pela experiência que tinha, ideal para nos dizer como lidar com os problemas que vamos ter em 2011; o segundo, pelo espírito livre, crítico e descomprometido; o último pela honradez, a perseverança, o espírito de missão. Nascimento Rodrigues não foi apenas um dos dirigentes do PSD. Foi um dos obreiros do estado democrático em que vivemos, um exemplo do que deve ser o comportamento de um titular de um cargo público. Foi o melhor Provedor de Justiça que tivemos até agora, despachando processos de um modo a que nos desabituámos no mundo da justiça, que é o português, onde os tribunais decidem tarde e a más horas. Foi com espírito de missão que se manteve no cargo, espantado não com a incapacidade de escolher quem o sucedesse, mas o que isso significava da mediocridade da nossa classe política. Da sua falta de sensatez. De decadência cívica.
Já tenho escrito sobre isto várias vezes e creio que o próximo ano vai ser muito importante neste ponto. As presentes dificuldades forçar-nos-ão a reenquadrar o que entendemos por sucesso, que não é sermos melhor que os outros, mas aprendermos com eles; o que desejamos da vida, o que nos satisfaz, preenche e realiza. A estabelecermos novos limites para o inaceitável. Julgo que esta mudança de mentalidades será uma excelente oportunidade para conseguirmos uma sociedade mais justa sem que o estado necessariamente interfira. Apenas a conjugação do esforço de todos permitirá afastar o poder estatal, naturalmente centralizador prepotente, da equação. Muito do que está escrito neste parágrafo é um pequeno resumo, bastante superficial, do que está a ser discutido nos EUA e no Reino Unido. Só uma sociedade forte, de cidadãos responsáveis e prontos para agir, consegue vencer os desafios de hoje e preparar-nos para a concorrência das potências emergentes. Assim, são exemplos como os mencionados em cima que nos devem servir de base para 2011. E talvez por isso mesmo, este género de texto, à partida doloroso, acaba por se traduzir num bem haja; numa passagem de testemunho daqueles homens para nós.