Algum dia teria de ser e coube ao Pedro Bandeira desmascarar-me:
Tanto para o Rui Albuquerque como para o André Azevedo Alves, ressai uma coisa: dependem os dois do estado, directamente ou indirectamente. O primeiro trabalha no ensino superior privado (que depende em grande parte da cartelização estatal do sector, e dum sem-fim de subsídios). O segundo trabalha para uma universidade estatal.
http://www.rebides.oces.mctes.pt/rebides07/rebid_m3.asp?CodD=24848&CodP=4032
http://www.facebook.com/andreazevedoalves
Dito isto, não custa muito perceber porque razão têm tanta reticência em pôr realmente em causa a própria existência do estado (como o fazem os liberais radicais e coerentes), e porque razão defendem o sistema de vouchers para a educação (um sistema de roubalheira socialista como qualquer outro). Ou, no caso do André Azevedo Alves, que se ofenda com a violência política em si, sem se fazer a pergunta mais fundamental: será que a violência política, ou alguma dela pelo menos, é legítima, nomeadamente para responder aos crimes do estado?
O Pedro Bandeira não só descobriu que eu não sou anarquista, como conseguiu perceber – certamente após um considerável esforço de reflexão – que eu não apoio manifestações de “violência política”. Mas o que mais merece parabéns é a forma como o Pedro Bandeira conseguiu descobrir a informação na qual alicerça a sua brilhante dedução: consultando informação publicamente disponível na minha página do Facebook. Simplesmente brilhante. Em relação ao Rui Albuquerque, o que o Pedro Bandeira escreveu está factualmente errado, pelo que a metodologia produziu menos frutos, mas ainda assim deve louvar-se o esforço e a consistência da tentativa.
No meu caso, o Pedro Bandeira foi mais longe e teve a sagacidade, a cortesia e a bondade de me explicar as raízes psicológicas profundas da minha rejeição do anarquismo. Segundo consegui perceber, terá tudo a ver com o facto de subordinar as ideias que expresso ao desejo (porventura sublimado ou quiçá reprimido por “décadas e décadas” de serviço ao Estado) de ser socialmente aceite quando vou “tomar um café à sala dos professores”:
De facto, não se espera de (quase-)funcionários públicos que sejam anarquistas, querendo destruir a instituição que lhes põe o pão na boca. Além disso, imagine-se o suplício de ir tomar um café à sala dos professores (a maioria deles altamente intervencionistas) depois de ter escrito um post a defender a privatização completa do ensino superior… Cuidado com os olhares que matam. Finalmente, trabalhar décadas e décadas para o estado tende a confundir mesmo a melhor das cabeças, promovendo nela um forte enviesamento pró-estatal. Os interesses e os laços de afecto com colegas acabam por turvar as ideias e afectar a lógica.
Daí, continua com a mesma perspicácia o Pedro Bandeira, que a minha “falta de radicalismo” demonstre “além de incoerência e cobardia intelectual, um ridículo dum tipo muito especial: o ridículo de ter medo de ser ridículo, quando já se o é”.
Mas o que se poderia esperar de alguém que tirou a licenciatura numa Universidade pública; o mestrado numa Universidade concordatária (e que, por isso, envolve dois Estados e não apenas um) e o doutoramento numa instituição de ensino superior fundada por socialistas e onde o perigoso estatista Hayek trabalhou no seu período mais produtivo? Só podia mesmo acabar no mais baixo dos pontos baixos, ou seja: a trabalhar para uma “universidade estatal” (nos EUA, quem sabe, poderia acabar ainda um pouco pior – por exemplo a trabalhar para uma “universidade estatal” relativamente medíocre como a UNLV).
Seguindo a mesma linha lógica de argumentação, não espantará certamente o Pedro Bandeira que alguém que usa ruas e estradas públicas, recorre a serviços de saúde estatais e regularmente utiliza nas suas investigações dados recolhidos por agências financiadas por via fiscal escreva livros sobre a natureza do Estado e o seu funcionamento, alguns dos quais – horror dos horrores! – editados por um instituto público.
Ou que essa pessoa – na sua sôfrega e ridícula ânsia de evitar a todo o custo olhares desaprovadores quando vai “tomar um café à sala dos professores” – organize até conferências sobre Segurança e Defesa que não se subordinam às irrefutáveis e inigualadas contribuições de Hoppe sobre o tema em apreço nem à condenação absoluta de organizações estatistas como a NATO.
Neste contexto, não admira – como o Pedro Bandeira sabiamente conseguiu antever – que, face a um “adversário anarquista” deste calibre, me reste apenas esquivar-me ao debate “com sarcasmos e perguntas irónicas”.
Quanto a Hoppe, não obstante os seus vários contributos válidos, a verdade é que, em parte, a génese de textos como este está também na sua obra e nas suas intervenções públicas. De uma forma que não está, por exemplo, nas obras de autores como David Friedman, Jesús Huerta de Soto, Robert Nozick ou Chandran Kukathas. E é também – ainda que não apenas – por essa razão que este artigo do Rui Albuquerque é importante e deve ser lido com atenção e espírito crítico, especialmente por todos os liberais.
Leitura complementar: Os erros de Hoppe. Recomendo também a leitura e reflexão sobre as questões levantadas pelo António Costa Amaral em comentário ao post.