Ontem estive em dois aeroportos africanos, no regresso a Espanha, e reparei que o controlo de passageiros não tem o rigor dos aeroportos europeus e norte-americanos. Os líquidos podem passar, em frasquinhos ou frascões, e não vale a pena tirar cinto e sapatos, porque ninguém o exige. Há uma semana, ainda em Espanha, fiz uma viagem de comboio entre Valência e Barcelona. Como já me tinha acontecido noutras ocasiões, fui obrigado a passar a bagagem pela máquina de raios-x, num controlo semelhante ao dos voos. Semelhante, apenas semelhante, pois cintos e sapatos ficam no seu lugar natural, e as garrafas de água não são recolhidas num contentor, podendo seguir viagem tranquilamente. (Os terroristas especializados em comboios devem ser menos sofisticados.) E quem já fez uma viagem passando por aeroportos espanhóis e holandeses, ingleses ou húngaros, sabe que estes últimos são muito mais exigentes no controlo da bagagem de mão, exasperando qualquer pessoa que não tenha vocação para cordeiro; em Barajas ou no El Prat todo o processo é mais transigente. Com estes dados, a questão da segurança nos aeroportos parece uma farsa e os argumentos a favor do desrespeito pela paciência e dignidade dos passageiros perdem peso, não é? Um conhecimento mais amplo de determinados assuntos dá-nos sempre outras armas para usar quando, com a voz suave e segura dos protectores, nos tentam convencer que a liberdade não é assim tão importante quando outros valores estão em causa. Só se deixa levar pelo canto da sereia paternalista quem quer.
Mas poderá mesmo haver esperança num maior cepticismo dos cidadãos, quando sabemos que informação disponível é coisa que não falta hoje em dia? É inquietante ver como tanta gente continua a trocar liberdade por segurança sem pestanejar, sem questionar métodos e objectivos. E o mais assustador é ver os passageiros europeus nos aeroportos africanos já com sapatos e cinto nas mãos antes de chegarem à máquina de raios-x. Entre isto e convencer o povo a denunciar judeus não há grande diferença. Chama-se doutrinação.

Não! Chama-se guerra.
Comentário por Luís Cardoso — Novembro 2, 2010 @ 13:24
Ok, para não incomodar o sr. doutor venham de lá as bagagens e cintos e tudo o mais que se Deus quiser, nenhum muçulmano estará hoje disposto ao martírio. Os centenas de casos de bagagem com explosivos e terroristas prontos ao martírio infelizmente desmentem o àvontade com que este post foi escrito.E não é por me tirarem o cinto e o relógio e o telemóvel por 10 segundos que me tiram a liberdade.Quem não quer incómodos fica em casa.
Comentário por antonio — Novembro 2, 2010 @ 15:31
Resta saber que tipo de informação, é que está disponível e quem a fornece. Esta história do terrorismo, dá direito, a todos os tipos de intervenções e de controle dos cidadãos, a bem da “segurança”.
É preciso continuar a alimentar, as teorias dos ataques terroristas, é claro, que dentro das secretas de todos os países, há sempre alguem a fazer o trabalho ” sujo “.
De repente, lembrei-me do caso do “rainbow warrior” da Greenpeace.
Já não dou para este peditório.
Comentário por Jose Domingos — Novembro 2, 2010 @ 18:55
#2.
Como se sabe são às dezenas, por dia, os sapatos com bombas que entram nos aviões que partem de Espanha, só porque este malandros são muito tolerantes. E não percebo porque é que não há cintos-bomba em barda a entrar nos voos do aeroporto do país muçulmano que deixei ontem, especialmente nosvoos que vão para Europa, Madrid, Paris, cheios de alvos. E também se sabe que é impossível entrar com uma arma num voo, ui, mesmo impossível. Aliás, aqueles senhores estão sempre atentos ao que passa no raio-x, nunca os vi olhar para o lado enquanto passa uma, duas, três malas, nunca. O que eu gosto mesmo é de tirar cinto e sapatos para depois, enquanto estes passam no ecrã, ver o tipo responsável a falar com o colega. Parece que temos um cordeirinho, que até baixa as calças se isso lhe pedirem. Força! E um exame rectal, já agora? Até onde está disposto a ir para não se sentir ameaçado quando sobe a um avião?
Comentário por Carlos M. Fernandes — Novembro 2, 2010 @ 19:11
Excelente post.
Comentário por ruicarmo — Novembro 2, 2010 @ 20:03
A segurança é um assunto sério, mas começa a surgir outro problema: os serviços de segurança dos aeroportos europeus, quase sempre confiados a empresas privadas, dão muito dinheiro a ganhar e até criam bastante emprego (precário, acrescente-se). Por isso, eles tendem a autojustificar-se, não se vá perder o negócio… É evidente que se terroristas a sério (e não esquerdistas alucinados) quiserem atacar um voo, eles sabem muito bem como o fazer. Não o têm feito porque nos últimos anos os USA reagiram à bruta e aí há que ter em conta a avaliação custo/ beneficio que o terrorismo bem conhece.
Comentário por Alves — Novembro 3, 2010 @ 21:30
[...] Leitura complementar: Doutrinação. [...]
Pingback por Doutrinação II « O Insurgente — Novembro 8, 2010 @ 12:00