No debate promovido ontem pelo canal brasileiro Rede TV! em parceria com o jornal Folha de São Paulo, a candidata do PT à Presidência do Brasil, Dilma Rousseff, manteve a estratégia usada pelo Presidente Lula na eleição de 2006 contra o seu adversário Geraldo Alckmin, do PSDB: atacar as privatizações e acusar o actual candidato do PSDB, José Serra, de querer privatizar a Petrobras.
Naquela disputa, o esquema funcionou pela reacção equivocada da campanha de Alckmin, que acusou o golpe e adoptou para si o discurso do adversário até chegar ao acto medonho de vestir uma jaqueta com os símbolos das empresas estatais brasileiras. Se ambos os candidatos demonizavam as privatizações, era de considerar que a população, com essa informação, partilhasse da mesma opinião, mesmo que tenha sido beneficiada directamente, como no exemplo da privatização do sector de telefones móveis e fixos.
Agora, apesar de inicialmente seguir os passos de Alckmin, o candidato do PSDB parece ter escutado conselhos de colegas de partido e passou a defender o governo de FHC e as privatizações. No debate de ontem, chamou a atenção para os benefícios do acesso aos telemóveis pela população mais pobre. Isso não quer dizer que Serra seja um liberal. Está longe disso. Assim como sua adversária, a candidata do PT, acredita que o estado deve ser o agente do desenvolvimento econômico.
A nota cómica dessa segunda volta presidencial é que a candidata do PT que acusa adversário do PSDB de privatista, num tom ainda mais agressivo do que se acusasse a mãe dele de actos menos nobres, é a mesma que desenvolve um discurso mais pró-mercado do que o próprio José Serra. Ideologia de político brasileiro começa e termina naquilo que atrai mais votos.
O melhor até agora foi que a não-eleição da candidata do PT na primeira volta e a reacção do eleitor brasileiro às denúncias de corrupção no governo Lula e à satanização da privatização mostraram que o eleitor brasileiro é melhor do que imaginam os analistas políticos e os políticos em campanha. Essas informações permitem ratificar a observação do sociólogo Alberto Carlos de Almeida de que um partido de direita no Brasil (liberal-conservador) conquistaria uma parcela significativa dos votantes que carecem de uma proposta política alternativa e eficiente.
Entre a antiprivatista de ocasião (Dilma Rousseff) e o defensor envergonhado das privatizações (José Serra) há uma lacuna política a ser ocupada pelos liberais. Ou eles ocupam tal espaço ou vamos continuar lamentando que o leque de opções ideológicas da política partidária no Brasil vá do amplo espectro entre a esquerda e o canhoto.
[...] Leitura complementar: Eleições no Brasil: a antiprivatista e o defensor envergonhado das privatizações. [...]
Pingback por Lula v2.0 « O Insurgente — Outubro 31, 2010 @ 23:46