Setembro 2, 2010
Diluição do conceito de género
Emerge a notícia, saudada obviamente nos locais do costume, de que o governo aprovou hoje uma proposta de lei que retira os processos de mudança de sexo e de nome próprio da sede judicial onde hoje em dia são apreciados, tornando-os num mero acto administrativo praticado pelas conservatórias.
Para além da dúvida que me fica sobre se a decisão abrange os processos de mudança de nome próprio tout court, caso em que me interrogo se foram sequer ponderados os problemas de segurança jurídica que daí possam advir (não me parece, tendo em conta a origem), sobre o grosso do tema não tenho muito a acrescentar àquilo que já escrevi inspirado num caso concreto há algum tempo, e para o qual remeto: Ver de bancada.
A crescente diluição do conceito de género, transitando de um cenário em que era algo definido fisicamente pelo nascimento para o domínio da escolha livre de um indivíduo e da “identidade de género”, conjugada com o conceito positivo de não descriminação e da igualdade de género que conquista cada vez mais território nos ordenamentos que nos rodeiam, fazem antever tempos curiosos.
Trivial Pursuit
Notícia do dia: Stephen Hawking exclui Deus como criador do Universo
«O cientista considera que a prova que sustenta o seu argumento é o facto de ter sido observado, em 1992, um planeta que girava em torno de uma estrela distinta do sol.
Hawking alega que essa observação comprova a possibilidade de existirem outros planetas e universos o que significa, em seu entender, que se a intenção de Deus seria criar o Homem, estão os restantes universos seriam redundantes.»
O socialismo foi criado por génios
A forma como se conseguiu pôr um prestador de serviços a cobrar IVA tem piada. Torna-se num agente do estado e de borla. Todos os três meses é a mesma coisa com impressos preenchidos e cheque entregue nos cofres do estado. Até lá é cobrar, fazer de mau e separar contas. Quem inventou este sistema foi um génio.
Mártires da eco-religião
«A gunman police shot to death after he took hostages at Discovery Channel’s headquarters said he hated the company’s shows such as “Kate Plus 8″ because they promote population growth and its environmental programming because it did little to save the planet.
(…)
It wasn’t the first time Lee, a homeless former Californian, had targeted Discovery’s headquarters. In February 2008, he was charged with disorderly conduct for staging a “Save the Planet Protest.” In court and online, he had demanded an end to Discovery Communications LLC’s shows such as TLC’s “Kate Plus 8″ and “19 Kids and Counting.”
Instead, he said, the network should air “programs encouraging human sterilization and infertility.”
“Humans are the most destructive, filthy, pollutive creatures around and are wrecking what’s left of the planet with their false morals and breeding cultures,” Lee wrote in a bitter manifesto on his website.»
Dia 2
No meu quarto há duas toalhas de cor azul (uma para as mãos e outra para o banho) e duas toalhas cor-de-rosa. É a isto que chamam um “reforço e difusão dos estereótipos opressivos e enraizados numa sociedade patriarcal e compartimentada”? (Não deve ser exactamente assim, mas não tenho a verborreia dos ideólogos do género.) Para esclarecer a dúvida, alguém devia chamar uma brigada de costumes.
Empresas com medo de hostilizar o Estado
Credores do Estado recusam aparecer em lista pública
A lista, publicada anualmente no site do Ministério das Finanças, ficou deserta. Ninguém quer hostilizar o Estado
(Fonte: Jornal de Negócios)
Setembro 1, 2010
Racionalismo iluminista e liberalismo
Quanto menos, melhor. Por Rui Albuquerque.
O Despotismo Esclarecido, o Terror da Revolução Francesa, o historicismo marxista e o Estado Social contemporâneo são, todos, resultado do racionalismo iluminista, e todos eles se propõem dar resposta às mesmas perguntas: «o que deve ser o bom governo e quem deverá governá-lo?» Por outras palavras: como devem proceder os governantes para, através da soberania, trazerem a felicidade para os seus povos e que legitimidade devem procurar eles obter para exercerem os amplos poderes que para esses fins reclamam? As respostas são historicamente conhecidas: o Despotismo concentrou a soberania nas mãos de um homem e deu-lhe poderes plenos para atingir as finalidades «racionais» do seu governo; o Terror fez o mesmo com um pequeno comité ditatorial, com o qual «tentou» salvar a Revolução e as «liberdades» que ela entretanto supostamente alcançara; as várias experiências do «socialismo real» procederam de modo muito parecido com o do Comité de Salvação Pública, e transpuseram a figura teórica da «vanguarda do proletariado» para comités políticos dirigentes, participados por um muito reduzido número de elementos; o Estado Social é determinado pela via democrática para ampliar, quase ilimitadamente, as suas faculdades de ingerência na vida e na propriedade dos cidadãos. Seja um governo de um, de poucos ou de muitos, o princípio racionalista de determinação, através do governo, das «leis» que conduzirão à «felicidade» dos povos é o princípio estruturante de todas estas formas de organização política. A legitimidade de actuação encontra-se, nestes casos, nos fins a atingir e não tanto nos meios utilizados para os alcançar.
(…)
A tradição liberal clássica nada tem a ver com este tipo de racionalismo. Podemos mesmo dizer que os pressupostos do liberalismo se podem encontrar no problema epistemológico da razão humana e do uso desta pela soberania. Deste ponto de vista, Hayek foi, a meu ver, o mais importante filósofo liberal de sempre, porque, ao longo das suas obras sobre teoria política, ele explicou as razões pelas quais o governo não deve, por princípio, intervir, e fundamentou a defesa do governo limitado na teoria do conhecimento, o que a torna dificilmente refutável. Os motivos não são difíceis de enunciar: porque o governo não sabe e porque não pode antever racionalmente as consequências dos seus actos e das suas decisões, deve deixar a decisão no nível mais próximo dos directos interessados, como se deve abster de dispor sobre assuntos concisos e particulares, devendo ficar-se por enunciar regras gerais e abstractas. O problema do governo é, assim, antes de mais, um problema epistemológico: o que podem os governantes conhecer e antever para que possam racionalmente decidir e planificar a vida e os interesses de milhões e milhões de seres humanos?
The Fountainhead, 6 de Setembro, na Cinemateca
The Fountainhead, dia 6 de Setembro (segunda-feira), na Cinemateca, pelas 21:30.
(via A Arte da Fuga)
A inevitabilidade III
A última manifestação no Largo do Camões, acabou por ser tornada no habitual divertimento público e respectiva contagem de cabeças. Entretanto esquecido (provavelmente por não ter tido lugar na Palestina ou noutro qualquer ponto do Médio Oriente), convém recordar um pouco de alguma da essência humana, nos acontecimentos macabros que tiveram lugar entre 1993 e 2003, no então Zaire. E que terão custado dois milhões de mortos. O título da reportagem da revista Spiegel, a propósito de um relatório da ONU sobre o assunto (em 2010) é avassalador: Hell on earth.
A inevitabildade II
For centuries, Afghan men have taken boys, roughly 9 to 15 years old, as lovers. Some research suggests that half the Pashtun tribal members in Kandahar and other southern towns are bacha baz, the term for an older man with a boy lover. Literally it means “boy player.” The men like to boast about it.
Having a boy has become a custom for us.
How can you fall in love if you can’t see her face.
We can see the boys, so we can tell which are beautiful.
It’s not homosexuality, they aver, because they aren’t in love with their boys.
Once I grow up, I will be an owner, and I will have my own boys
Daniel Oliveira faz dura crítica a Francisco Louçã
(…)Quem faz política usando a irracionalidade alheia não é só intelectualmente preguiçoso. É eticamente leviano e politicamente irresponsável.
(Daniel Oliveira no Arrastão)
Rumo ao paraíso
Uma cartilha de sacrifícios que se justifica, sem qualquer margem de dúvida. Água e luz racionados, fecho e expropriação de supermercados (!), consequente escassez de bens básicos. Pequenos sacrifícios na busca legítima do socialismo do século XXI, capaz de proporcionar coisas boas, verdadeiramente espantosas.
Para nós, neo-liberais fica a receita de sucesso e uma lição de vida socialista: é preciso muito mais estado na vida das pessoas.
Dia 1
Estou instalado mais uma vez no bairro judeu de Budapeste. Uma sinagoga, meia dúzia de restaurantes kosher e algumas lojas com uma estrela de David bem visível visível (e um Mr. Chaim, na equipa do hotel, que, como o nome indica, fala hebreu); são estes os frágeis sinais de outros tempos. Entretanto, reparei que o Central Kavehaz está fechado. Parece que está em reformas, e que, para já, não vai ser substituído por um banco. Mas há muito que estou preparado para essa fatalidade. É o tempo. É só o tempo. Daqui não saímos vivos e o melhor é não nos preocuparmos muito.
Budapeste, 2010

