Falemos agora de comida. A gastronomia sérvia não pode competir com as cozinhas mediterrânicas, mas também não fica atrás das cozinhas continentais do centro da Europa, sendo até mais interessante do que a maioria. Em primeiro lugar, o que nos espera? Uma gastronomia tipicamente continental, como foi referido, baseada nas carnes assadas e grelhadas e nos guisados, com uma forte componente de peixe de rio, e até, por motivos óbvios que a História nos ensina, com alguns traços mediterrânicos. Mas não vamos aqui escrever um tratado sobre a cozinha sérvia. Sigamos para o que é importante: informação prática.
Nos restaurantes, como acontece em quase todos os países, a gastronomia sérvia reduz-se a uma caricatura, e se não nos atrevermos um pouco acabaremos quase sempre a comer cevapcici, ou então um homérico mesano meso (prato misto de carnes na brasa). Alguns pontos de referência ajudam a contornar o óbvio. Em Novi Sad há três restaurantes que tenho frequentando nos últimos anos, e que, até agora, não desiludiram. Não vou dar detalhes, para que isto não se alargue, mas deixo aqui os nomes, para o caso, muito improvável, de que algum leitor passe por Novi Sad nos próximos tempos: o Sokače (carnes na brasa), o Aqua Doria (peixe de rio, à beira do Danúbio) e o Fish&Zeleni (mediterrânico). Em três refeições podemos percorrer grande parte da cozinha sérvia. E com prazer.
Aqua Doria, Novi Sad, 2010
Em Belgrado, destino mais provável, mas ainda assim afastado dos principais roteiros turísticos, há dois restaurantes obrigatórios (há mais, mas não vou sugerir tascos com indecifráveis ementas em alfabeto cirílico). O Madera é o clássico de Belgrado. (Sim, o nome nasce de uma corruptela de Madeira.) Tem uma longa história e quem quiser ver como se serve a elite da cidade tem mesmo que sentar-se na sua distinta sala interior, ou então, no Verão, na magnífica esplanada. À entrada, um cartaz recorda-nos que há diferentes formas de estar e de vestir para cada lugar. Coisa rara e politicamente incorrecta, numa época em que liberdade, no sentido progressista do termo — ou seja, com muitas aspas —, é dizer aos outros o que devem fazer, impor e autorizar no seu espaço privado. Mas, como já disse, o Madera é um clássico. Quem quiser jantar de chanatos encontrará, facilmente, um restaurante adequado em Belgrado.
O restaurante tem apenas um defeito: a cozinha. Não se come mal, atenção!, mas falta-lhe personalidade. Vai-se ao Madera para ver e ser visto, para fechar um negócio, para celebrar um casamento. A comida cumpre a sua função, não é incómoda, mas também não comove. O Šaran é outra conversa. Menos formal, mas também muito elegante, tem uma enorme vantagem sobre o Madera: a comida é óptima, mesmo quando a medimos pela bitola das melhores gastromias/restauração da Europa (as ibéricas e a italiana). A especialidade da casa é o peixe de rio, mas quem torce o nariz a tal coisa pode encontrar também bichos de água salgada e carnes. O Šaran tem um problema, no entanto. Encontrá-lo pode ser complicado, pois está afastado do centro da cidade, em Zemun, um dos municípios de Belgrado, na margem direita do Danúbio. Para lá chegar, há que atravessar a última ponte do Sava, e logo caminhar, durante cerca de uma hora, pelas margems dos rios, o Sava, primeiro, o Danúbio, depois. Outra opção: o autocarro 15 até Zemun, procurar o centro do bairro, e daí andar até ao rio. Encontrado o restaurante Venecija, há que resistir à tentação de ficar logo numa das suas mesas sobre as águas do Danúbio, e percorrer mais 200 metros para montante. E ali está ele, o Šaran. (Há sempre um táxi para nos levar até à porta do restaurante, mas qual é piada disso?)
E por aqui ficamos, porque a nota sobre comida já vai larga. A Hungria fica para outro dia. Podemos, no entanto, adiantar que o fígado gordo de ganso (foie gras para os amigos) frito na sua própria gordura é incontornável em Budapeste. Mas é melhor não falar muito sobre isso, para não ofender os misantropos. Perdão, os amigos dos animais.