Novi Sad, a capital da Voivodina e a segunda maior cidade da Sérvia, nasceu no final do século XVII. Há vestígios na margem direita do Danúbio que apontam para ocupações pré-históricas, e Petrovaradin, a fortaleza que domina a curva do Danúbio que acolhe, do outro lado, Novi Sad, tem uma história mais longa e antepassados ali edificadas com os mesmos objectivos. Mas foi em 1694, quando uma colónia de sérvios expulsos de Petrovaradin por professarem a fé ortodoxa se instalou na margem esquerda do Danúbio, que começou a crescer a Novi Sad moderna. Não nasceu amaldiçoada, como Belgrado, que se diz ter sido arrasada dezenas vezes na sua história, mas teve a sua dose de destruição e sofrimento, desde as revoluções de 1848 e 1849 aos bombardeamentos da NATO, em 1999. Quando visitei a cidade pela primeira vez, em 2003, as cicatrizes eram ainda visíveis, e atravessar o Danúbio, com as ruínas das pontes a saírem da água como ossos semi-enterrados na areia do deserto, era uma experiência um pouco perturbadora. A cidade recompôs-se, como quase todas, mas mantém a pátina e a estrutura que denunciam o passado turbulento. Do quarto do hotel, com uma ampla janela que dá para uma estreita perpendicular à estruturante Jevrejska, posso ver alguns dos estratos de História que foram moldando Novi Sad. Há casas baixas e de telhados inclinados que nos transportam para Sarajevo e recordam a ocupação e influência otomana na região (Petrovaradin esteve 150 anos sob ocupação turca); na esquina oposta da Jevrejska está um edifício com traços imperiais; e por trás das árvores adivinho a sinagoga, construída entre 1905 e 1909. Aliás, Jevrejska significa judia, e é um sinal da importância que a comunidade judaica tinha antes II Guerra Mundial. Hoje, já nem se pode chamar comunidade às poucas centenas de judeus que vivem em Novi Sad (e alguns saíram de Novi Sad nos anos 1990, para fugir ao recrutamento militar, como um fotógrafo de Budapeste, que conheci no comboio Budapeste-Novi Sad, em 2004 ou 2005, e que ia a caminho de um casamento na sua antiga cidade, agora livre da ameaça que o afastou das raízes) .
Quando todos os dias víamos imagens de caos e destruição na Jugoslávia, escutávamos frequentemente que Sarajevo era uma espécie de Balcãs em miniatura, onde se condensavam toda os problemas que atormentam a região. Novi Sad é uma miniatura da Europa, da Europa que interessa: a mittel. O resto são espectáculos de província.
Petrovaradin, 2010

Segundo julgo, a Voivodina é uma região da Sérvia de maioria étnica húngara. É verdade?
Comentário por Luís Lavoura — Setembro 6, 2010 @ 14:51
Minoria, ainda que larga. 30%, mais ou menos, na Voivodina. Em Novi Sad são apenas 5% da população.
Comentário por Carlos M. Fernandes — Setembro 6, 2010 @ 15:54
Em Subotica, a segunda cidade de Voivodina, serão maioritários ou perto disso.
Comentário por Carlos Guimarães Pinto — Setembro 6, 2010 @ 16:31
Em Subotica sim. E está mesmo ao lado da fronteira com a Hungria.
Comentário por Carlos M. Fernandes — Setembro 7, 2010 @ 10:19