O tema é complexo, mas depois de ler o texto E se nos colocássemos no lugar de Truman?, de José Manuel Fernandes, continuo a achar que a melhor análise sobre a decisão de Truman é a de Elizabeth Anscombe: Mr. Truman’s Degree. Por G. E. M. Anscombe.
In 1939, on the outbreak of war, the President of the United States asked for assurances from the belligerent nations that civil populations would not be attacked.
In 1945, when the Japanese enemy was known by him to have made two attempts toward a negotiated peace* [* See Appendix.], the President of the United States gave the order for dropping an atom bomb on a Japanese city; three days later a second bomb, of a different type, was dropped on another city. No ultimatum was delivered before the second bomb was dropped.
(…)
It was the insistence on unconditional surrender that was the root of all evil. The connection between such a demand and the need to use the most ferocious methods of warfare will be obvious. And in itself the proposal of an unlimited objective in war is stupid and barbarous.
(…)
The Japanese attacked Pearl Harbour and there was war between America and Japan. Some American (Republican) historians now claim that the acknowledged fact that the American Government knew an attack was impending some hours before it occurred, but did not alert the people in local command, can only be explained by a purpose of arousing the passions of American people. However that may be, those passions were suitably aroused and the war was entered on with the same vague and hence limitless objectives; and once more unconditional surrender was the only condition on which the war was going to end.
(…)
“It pretty certainly saved a huge number of lives.” Given the conditions, I agree. That is to say, if those bombs had not been dropped the Allies would have had to invade Japan to achieve their aim, and they would have done so. Very many soldiers on both sides would have been killed; the Japanese, it is said—and it may well be true—would have massacred the prisoners of war; and large numbers of their civilian p opulation would have been killed by “ordinary” bombing.
I do not dispute it. Given the conditions, that was probably what was averted by that action. But what were the conditions? The unlimited objective, the fixation on unconditional surrender. The disregard of the fact that the Japanese were desirous of negotiating peace. The character of the Potsdam Declaration—their “chance.” I will not suggest, as some would like to do, that there was an exultant itch to use the new weapons, but it seems plausible to think that the consciousness of the possession of such instruments had its effect on the manner in which the Japanese were offered their “chance.”
(…)
The Censor of St. Catherine’s had an odious task. He must make a speech which should pretend to show that a couple of massacres to a man’s credit are not exactly a reason for not showing him honour. He had, however, one great advantage: he did not have to persuade his audience, who were already perfectly convinced of that proposition. But at any rate he had to make a show.
The defence, I think, would not have been well received at Nuremberg.
Lembro-me de um debate televisivo, já há muitos anos atrás, onde um dos seus participantes, para além de referir que, de facto, uma invasão terrestre custaria mais vidas do que o bombardeamento nuclear, também referir que este bombardeamento podia ser visto não como um dos últimos actos da 2ª Guerra Mundial, mas como um dos primeiros actos da Guerra Fria, onde os Americanos fizeram uma demonstração prática à União Soviética de que já tinham conseguido uma bomba nuclear. Também enquadrou o desembarque na Normandia no mesmo princípio. Não seria só para derrubar o regime Nazi, que basicamente tinha perdido a guerra a Este, mas tambem para travar o avanço das tropas soviéticas e impedir que os soviéticos ocupassem toda a Europa. Resta saber se isto é verdade ou não.
Comentário por Nuno — Setembro 4, 2010 @ 13:47
Se recuarmos ao contexto da época, antes dos tempos do políticamente correcto, a guerra era algo que tinha como objectivo a vitória.
Ninguém, a não ser os cientistas, tinha consciência da verdadeira diferença entre uma arma nuclear e uma qualquer bomba de grande potência.
Aliás nessa época, os bombardeamentos convencionais de cidades com dezenas de milhares de vítimas de cada vez, eram quotidianos e não causavam especial comoção.
Posto perante a resistência até à morte dos japoneses, o presidente Americano usou mais uma das armas que tinha e acabou com a guerra.
Ninguém duvida que, caso a possuissem, qualquer dos outros beligerantes a teria usado.
Quanto ao desembarque na Normandia, teve como único objectivo, pôr fim à guerra.
Conforme conta Churchill nas suas memórias, a Inglaterra e os aliados europeus, tentaram sem sucesso convencer os americanos a abrir a 2ª frente ocidental invadindo pelos Balcãs, com o propósito de impedir a ocupação da europa oriental pelos russos.
A História viria a dar-lhes razão.
Comentário por ricardo saramago — Setembro 4, 2010 @ 14:53
A guerra total é um fenómeno democrático
Comentário por jpm — Setembro 4, 2010 @ 15:26
Um muito mau texto, começa com a fixação bizarra nas bombas nucleares.
Depois não percebe que apartir de determinado grau de violencia e diferença a rendição total é a única solução.
“A guerra total é um fenómeno democrático”
Verdade? é só ir à História…podemos começar por aquilo que se aprende(ia?)
na escola: Cartago delenda est.
Comentário por lucklucky — Setembro 4, 2010 @ 22:16
“Verdade? é só ir à História…podemos começar por aquilo que se aprende(ia?)
na escola: Cartago delenda est.”
Roma e Cartago eram o que modernamente chamaríamos “regimes parlamentares”, logo esse exemplo talvez não refute a tese do jpm
Comentário por Miguel Madeira — Setembro 4, 2010 @ 22:21
“antes dos tempos do políticamente correcto, a guerra era algo que tinha como objectivo a vitória.”
Muito pelo contrário – mesmo muito “antes dos tempos do politicamente correcto”, a guerra era algo que tinha como objectivo conquistar algum território ou resolver uma querela dinástica, e normalmente acabava com um tratado, em que uma das partes cedia alguma coisa mas não muito (pelos padrões modernos, grande parte das guerras “antigas” acabavam com “empates”).
Foi a partir do momento em que as guerras passaram a ser feitas em nome da Humanidade, da Paz, da Justiça e da Fraternidade Universal (no fundo, com o começo do que imagino ser o que RS chama “politicamente correcto”) que a guerra até à destruição total do inimigo se tornou a regra.
Comentário por Miguel Madeira — Setembro 4, 2010 @ 22:29
“Depois não percebe que apartir de determinado grau de violencia e diferença a rendição total é a única solução.”
O governo Japonês propôs paz, com a única condição de manter o Imperador, antes das bombas. Vá-se lá saber porquê, o governo americano não aceitou; preferiram destruir aquelas cidades, os inocentes com elas, e no fim, ironia das ironias, decidiram manter o Imperador.
Comentário por MilkMan — Setembro 5, 2010 @ 00:15
Pseudo pacifísmo, primário, e anti-americanismo, desta vez via bomba atómica e Truman?. “The disregard of the fact that the Japanese were desirous of negotiating peace.” … Esta frase é sintomática senão anedótica. Pacifistas? Quem? Aonde?. Porque não especifica quais os Japoneses que estavam assim tão desejosos de negociar a Paz? Quais? As elites político/militares? Um povo servil sem poder absolutamente nenhum? Um Imperador de opereta, os políticos sem poder, os poderosos militares, (Aonde é que já vimos isto!)
Quem queria, e que Paz, e a poderia negociar? Um Imperador sem força perante uma toda poderosa elite militar? Que cresceu, ganhou força e prestígio numa luta fora das ilhas, na Ásia, (matérias primas) contra …? O bloqueio aos combustíveis… Quem iniciou o ciclo de violência? Quantos anos antes de 1939 e com quais “elites” politico/militares?. EEUUAA, Japão, China, Rússia? e/ou até a longínqua Alemanha?. Quem nasceu primeiro? A galinha ou o ovo?
… Mas o juízo é sobre quem autorizou o lançamento de (mais) umas bombas, claro que cada vez mais destruidoras e, por acaso, até acabou, daquela vez, com aquela guerra … (até às que se seguiram).
Na guerra não é quem (ou como) termina -tipo a Rainha Isabel a passear entre as tropas inimigas perfiladas- “façam o favor de embainhar as espadas”. Ou “quietos senão lanço mais uma bomba atómica” a 3ª!.
Não. O busílis é quem/como começou.
PS. Porque é que o General D. MCarthy exigiu, no couraçado, representantes dos militares, e do governo japonês, a assinar a rendição incondicional, e poupou o Imperador? (desculpem a extenção do comentário).
Comentário por JS — Setembro 5, 2010 @ 00:20
@JS A proposta de paz por parte do governo japonês, antes das bombas, é um facto.
http://www.ihr.org/jhr/v06/v06p508_Hoffman.html
http://pqasb.pqarchiver.com/chicagotribune/access/475703002.html?dids=475703002:475703002&FMT=ABS&FMTS=ABS:AI&type=historic&date=Aug+19%2C+1945&author=WALTER+TROHAN&pub=Chicago+Daily+Tribune+%281872-1963%29&edition=&startpage=1&desc=BARE+PEACE+BID+U.+S.+REBUFFED+7+MONTHS+AGO
Não é anti-americanismo, é anti-governos.
Comentário por MilkMan — Setembro 5, 2010 @ 02:21
Obg. MilkMan. MT. interessante. E estamos do mesmo lado, nomeadamente quanto ao “governos sem controle” … e “uma só vítima mortal é sempre um morto a mais”. Uma guerra, com mais de quatro anos, com aquela violência e dimenção, não se pára numa tarde. Por outro lado, sim, conhecida a animosidade entre o(s) político(s) e o(s) general(is), e não estando nos sapatos de nenhum deles, imagino (só) que “described the general as a “poor politician”" retrata a impossibilidade de o político aceitar uma paz que lhe chegava pela mão do militar…. Via chancelarias nórdicas sim, é “a minha gente”. Tudo bem. Infelizmente. São estes pequenos nadas que podem causar + 100.000 (incêndio de Tokio, não nuclear), ou 140.000 + 100.000 vítimas das armas atómicas. Mas, ao som dos Cavaleiros do Apocalipse, quem é que controla o quê?
PS. O facto de os porta-aviões não estarem em PearlHarbour, aumenta a certeza de que alguém sabia do ataque (não do detalhe). Os militares japonêses logo ali perceberam que perderiam a guerra. Em Midway, tiveram a certeza. Mas só começaram a falar em paz uns largos meses depois, óbviamente. Na ZIAC, Zona de Intervenção do Ar-Condicionado, os estados-maiores têm um ritmo específico. Obg.
Comentário por JS — Setembro 5, 2010 @ 03:53
Pobres indios. Naquele tempo na America,não havia ONU,não havia direitos humanos,não havia pacifistas.Era prerciso fazer-se limpesa étnica fez-se.Para gáudio de uns tantos,construiram-se as resevas de indios,que mais não eram que campos de concentração.E para suprema vaidade a industria do cinema deu-nos e continua a dar,lições de como acabar democráticamente com uma raça.Não os americanos,estes americanos não podem dar-nos lições de democracia e liberdade.Digo estes,porque estes,são uma mistura genética que resultou da imigração que houve.Os verdadeiros americanos,mostram-nos”orgulhosamente”nos filmes.Foram democratizados a golpes de winchester,e de colt.Mas têm aprendido a lição.Quiseram democratizar Coreia.foi o que se sabe.Quiseram democratizar o Iraque,saem com se vê com o rabo entre as pernas,No Vietname foi o que se viu.O Afgnanistão è o que se está a ver.
Os tempos são outros,Nem estes são indios,E JÁ TEMOS ONU…SERÁ QUE TEMOS?
Comentário por o fantasma — Setembro 5, 2010 @ 08:52
“O governo Japonês propôs paz, com a única condição de manter o Imperador, antes das bombas. Vá-se lá saber porquê, o governo americano não aceitou; preferiram destruir aquelas cidades, os inocentes com elas, e no fim, ironia das ironias, decidiram manter o Imperador.”
Não propôs coisa nenhuma dessas, os japoneses estavam divididos e desde há um ano que estavam cada vez mais atrasados em relação aos factos no terreno. Depois do anúncio da rendição do Imperador ainda houve uma tentativa de golpe de Estado.
“Roma e Cartago eram o que modernamente chamaríamos “regimes parlamentares”, logo esse exemplo talvez não refute a tese do jpm”
?!
Comentário por lucklucky — Setembro 5, 2010 @ 13:51
“Quiseram democratizar Coreia.foi o que se sabe.Quiseram democratizar o Iraque,saem com se vê com o rabo entre as pernas,No Vietname foi o que se viu.O Afgnanistão è o que se está a ver.”
Segundo a sua bitola no Coreia do Norte é que se está bem.
Comentário por lucklucky — Setembro 5, 2010 @ 13:53