Em 1931, em pleno auge da grande depressão, o Estado do Nevada decidiu-se pela legalização do jogo, que era já na altura uma indústria com algum tamanho, mas ilegal. A legalização do jogo levou a um boom em contra-ciclo no Estado que se prolongou até ao pós segunda guerra mundial. Tendo sido pioneira nos EUA, Las Vegas foi durante muitos anos o maior centro de jogo do mundo em termos de receitas (recentemente ultrapassado por Macau cuja indústria do jogo explodiu após o fim do domínio português). A situação económica actual de Portugal, muito semelhante à de alguns estados americanos durante a grande depressão, deveria fazer-nos repensar o assunto da liberalização do jogo.
A liberalização do jogo traria benefícios ao país evidentes: crescimento das receitas do turismo, criação de postos de trabalho, aumento de receitas para pequenos lojistas e empresários de restauração, e criação de zonas de lazer em áreas mais esquecidas do país. Por outro lado, as críticas mais comuns à liberalização do jogo como os impactos sociais e económicos fazem cada vez menos sentido. Qualquer português com ligação à internet pode já fazer apostas nos jogos da liga Sagres, jogar na roleta ou entrar no mundo fascinante dos torneios de poker. Portanto, os impactos negativos, a existirem, já se deveriam fazer sentir já que para todos os efeitos, qualquer português pode legalmente jogar em qualquer parte do país, desde que em privado. A legalização dos estabelecimentos físicos apenas tornaria o jogo numa prática mais social, suportando também o desenvolvimento de actividades complementares que só podem existir se aliados a espaços físicos de jogo (hotelaria, espectáculos artísticos, etc).
A liberalização total do jogo também seria um contributo para a democratização das receitas do jogo. As restrições actuais fazem com que todas as receitas do jogo se concentrem na Estoril Sol, Solverde e Santa Casa da Misericórdia*. Pelo contrário, em Espanha, onde as regras sobre o jogo são mais fléxiveis, as slot machines representam uma receita relevante para muitos pequenos empresários da área da restauração.
Apesar do impacto positivo ser evidente, a liberalização do jogo não foi, até hoje, uma causa que interessasse a ninguém no nosso espectro político. A esquerda ainda vê o jogo como coisa de ricos, apesar de, como escrevi acima, as restrições ao jogo tenderem a prejudicar os pobres e a beneficiar um restrito número de empresários. À direita socialista, moralista e paternalista que temos também faltam motivações para avançar para a legalização. E assim se coloca no lixo toda uma indústria, uma fonte de receitas e de empregos.
* Note-se que a Santa Casa da Misericórdia, apesar de ser uma instituição que apoia os mais carenciados, financia-se através de um tipo de jogo normalmente reservado às classes baixa e média-baixa. Os lotos, lotarias e raspadinhas não são mais que um método de transferência de rendimento de pobres para muito pobres. A liberalização do jogo numa situação em que uma pequena parte dos lucros fossem redirecionados para a Santa Casa da Misericórdia faria mais pela ajuda aos mais carenciados do que a actual situação de quasi-monopólio.


