O Insurgente

Julho 31, 2010

Os chumbos já acabaram

Filed under: Educação,Media,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 19:56

As reacções até vão no sentido correcto, mas o problema é que na generalidade ignoram que os chumbos já praticamente acabaram de facto em nome da necessidade de garantir o sucesso estatístico do eduquês.

Leitura complementar: O corolário lógico do eduquês.

17 Comentários »

  1. A maneira como a ministra colocou este assunto não foi sábia e revela uma enorme falta de “jeito” para a comunicação política.

    Quando se fala em “acabar com os chumbos” é invariável a confusão que se gera. Obviamente que o que está em cima da mesa não é o fim das retenções por via legislativa (pelo menos no sentido em que todos “passam” independentemente do que souberem). Confundir isso com o que se pretende é distorcer tudo.

    Por isso, escrevo alguns pontos, para que se saiba do que estamos a falar e para que se recentre o debate naquilo que interessa:

    1. A defesa da não repetência não é equivalente à defesa do facilitismo e do “passar sem saber”.

    2. A repetência por si só não resolve, na maior parte das vezes, os problemas que estão por detrás das aprendizagens não concretizadas.

    3. A existência da repetência, muitas vezes, acaba por desresponsabilizar os professores na procura e concretização das estratégias mais adequadas a cada aluno com dificuldades.

    4. A alternativa a não reter um aluno passa, caso assim se queira, por um trabalho árduo, de maior exigência para todos (escola, professores e aluno).

    5. A escola não deve ser, como era no tempo dos meus pais, apenas para os alunos com facilidade de aprendizagem e com “jeito” para os estudos. A escola pública não deve apenas garantir o acesso a todos mas também garantir a qualidade das aprendizagens a todos.

    Ou seja,

    a retenção de um aluno acontece porque um aluno não consegue adquirir as aprendizagens necessárias, mas deriva de um conjunto diverso de razões. Ora se há alguma lógica em reter um aluno por falta de assiduidade ou indisciplina, já não há muita lógica em reter um aluno, assíduo e “bem comportado” por dificuldades de aprendizagem. Não quer isto dizer que se deva “passar” este aluno sem ele saber o que deveria saber. Não, não é isso que se pretende. O que se defende é que, para estes alunos, a repetência não é solução e que o mais lógico seria aplicar todas as medidas e estratégias possíveis de forma a que estes alunos possam ultrapassar as dificuldades e que aprendam o que têm de aprender.

    Será isto assim tão obtuso e tão anti-crato assim?

    Por exemplo, há muito que os professores já perceberam que as medidas de recuperação que utilizamos nas nossas escolas não funcionam. Ora bem, aqui está um bom exemplo, do que devia estar em discussão. Por que, a bem da verdade, há muito que toda a gente percebeu que tais medidas só existem nos papéis (resultado de copy-paste de ano para ano) e que são poucos a aplicá-las com sucesso. São ineficientes, burocráticas e contraproducentes, no sentido em que depois de, supostamente, aplicadas são poucos os professores que reconhecem a seu reduzido efeito, “vendendo” assim a não retenção pelo seu bom nome.

    É ou não tempo de alterar isto? Ou o que está serve?

    Tenho passado por muitas escolas e constato que, na maior parte dos casos, as medidas colocadas nos PEI, PCT e não sei que mais, são um “pro forma” feito por cruzes ou em resultado de copy-past de outros anos ou turmas. Poucos são os que levam a sério tais medidas e que as concretizam em verdadeiro benefício dos alunos. E porquê?

    A resposta não é assim tão simples, e envolve vários factores (burocracia, falta de meios, medidas “chapa 5″, falta de rigor, displicência,…). O pior é que já há uma cultura de “descrença” dos professores em quaisquer destas medidas e são poucos os que acreditam na sua eficácia.

    Pela minha parte, não estou satisfeito com o que temos. Acho que estes planos não funcionam e que se exige uma mudança radical destas práticas (especialmente na minha disciplina de matemática). Porém estou certo que não chega que se mudem as metodologias. É necessário também mudar as mentalidades, a cultura de escola, e fazer ver a todos que é possível levar um aluno com dificuldades ao sucesso e à aprendizagem efectiva do que lhe é exigido. Haverá melhor coisa do essa?

    Comentário por MAT — Julho 31, 2010 @ 19:59

  2. Com o aumento da escolaridade obrigatória para 12 anos, esta decisão já faz sentido.
    Trata-se de garantir um diploma para toda a gente, mesmo que mal saiba ler e escrever.
    Depois de completar a destruição do ensino secundário, o próximo passo, que já está em marcha, será a destruição do ensino superior universitário.
    O “eduquez” só se dará por satisfeito quando todo o cidadão tiver um diploma de dr. ou engº e para aceder ao saber e à excelência for necessário ir estudar para o estrangeiro.

    Comentário por ricardo saramago — Julho 31, 2010 @ 20:14

  3. conta Stephan Zweig que tirou o 12º ano em Viena de Áutria no final do séc. XIX. igualmente a avó de uma amiga. falava inglês, húngaro, russo, italiano.

    no rectângulo a periferia continuará a ser cultural e cívica
    a começar pelos intirulados dirigentes

    Comentário por floribundus — Julho 31, 2010 @ 21:28

  4. MAT: A ideia até pode soar bem no papel, mas não se adequa à realidade. O chumbo serve acima de tudo como incentivo. Se não houver essa consequência, no geral a nossa natureza humana leva-nos a que não nos esforcemos tanto – isto muitas das vezes nem chega a ser consciente. Está-se a pedir para estudar, que é por vezes tão difícil e implica tanto esforço, tendo apenas em vista o nosso enriquecimento pessoal.

    Se nem tantos adultos têm maturidade suficiente para fazer isso, vai-se pedir isso à generalidade das crianças?

    Já agora, não percebi se foi com este sentido, mas a frase “A escola pública não deve apenas garantir o acesso a todos mas também garantir a qualidade das aprendizagens a todos.” lembrou-me do programa No Child Left Behind na America, que foi outro problema de ignorar a realidade (neste caso, de como nos distribuímos em muitos aspectos segundo curvas normais).

    Comentário por Terebi — Agosto 1, 2010 @ 04:06

  5. Cada um interpreta as declarações de Isabel Vilar, segundo o seu próprio modelo. Para alguns parece que o sistema de ensino só será bom se houver chumbos que baste. Para outros onde me incluo, as repetências significam atrasos e prejuízos para o aluno e para o país. Assim é desejável acabar com os chumbos. Como? Aumentando a exigência a todos os intervenientes no processo, exigindo mais aos que são mais responsáveis. É inacreditável os partidos da oposição aproveitarem logo para criticarem sem verem os méritos da ideia da Sra Ministra. Foi o que se pode chamar pura demagogia. O desejável era que as ideias expressas visassem melhorar a ideia inicial.

    Comentário por Francisco Tavares — Agosto 1, 2010 @ 22:47

  6. Na verdade, já nem tenho grande vontade de comentar qualquer que seja a notícia sobre Educação. Os Ministérios andam a gozar com o Povo Português. Não há um Rumo. Muda-se de Ministra muda-se de estratégia, de objectivos… Uns fazem a apologia das competências… vem outra e chama-lhes “METAS”. Meus caros. Uma verdade é indiscutível. Chamemos-lhe bosta (das vacas) ou caganitas (das ovelhas), na verdade tudo o que sai do cu., seja ele de um animal ou de uma ave… é merda!. Ponto final. Por isso, deixemo-nos de merdices (vulgo, paneleirices). Acabemos com os incompetentes que chegam a Ministério da Educação não por competência mas por Nomeação. Apresentem-se os candidatos com um programa a implementar em 10 anos. Depois, Vamos votar e eleger a equipa que ficará com x por cento do OE para a Educação. E o Ministro da Educação será responsabilizado pelos resultados. Sim! Responsabilizado. Já chega de vir para o Ministério, fazer o seu “chichi” (vulgo, deixar a sua marca como os cães!) e depois pisgar-se sem prestar contas nem limpar a merda que fez… Vamos lá exigir responsabilidade e seriedade. Força aos Pais, aos alunos e aos Professores. Vamos mudar este país de uma vez por todas. Enfim. Desafio os leitores interessados na causa educativa a ler este artigo:
    Autonomia Conquistada Vs Autonomia Enquistada. ; ou este: Sócrates com 15 Anos de Atraso…! ; ou este: Um Dia a Escola Vem Abaixo! ou este: Que Trio de Incompetentes. ; ou este: Educação a Caminho do Abismo – I ; ou este: A Caminho de Uma Luta Sem Tréguas. ; ou este: TENHO Vergonha de “Ser Professor”. ; ou este: Ministra Casmurra ? Cega?… Surda?… Nada Muda!

    Comentário por Joaquim Ferreira — Agosto 2, 2010 @ 01:16

  7. [...] Mais uma vez, vários argumentos válidos mas que ignoram o ponto fundamental de, na prática, os chumbos já terem praticamente acabado. Neste contexto, a proposta da Ministra Isabel Alçada de acabar definitivamente com as [...]

    Pingback por Os chumbos já acabaram (2) « O Insurgente — Agosto 2, 2010 @ 13:05

  8. Os chumbos acabaram na prática na escolaridade obrigatória, por isso esta ideia tem que ver com os 10º-12º anos onde, por enquanto e apesar do nível decrescente de exigência, se continua a chumbar quando não se sabe a matéria.

    Comentário por ricardo saramago — Agosto 3, 2010 @ 00:05

  9. [...] complementar: Os chumbos já acabaram; O corolário lógico do [...]

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