O Insurgente

Julho 20, 2010

Medicamentos grátis para os primeiros 5 dias após cirurgia

Filed under: Economia,Media,Política,Portugal — André Azevedo Alves @ 14:57

Reproduzo de seguida um texto do leitor Fernando Costa, recebido a 2 de Julho:

Usar a Saúde para fazer política

Com o habitual aparato que a generalidade da comunicação social costuma fazer sempre que o Bloco mexe, lê-se hoje [2 de Julho] que foi aprovada uma lei que atribui medicamentos grátis para os primeiros 5 dias após cirurgia.

Também se fala de outra situação, proposta igualmente pelo Bloco, mas que a maioria dos deputados, numa crise de bom senso, chumbou: que as farmácias (supostamente por vontade do utente) pudessem alterar a medicação expressamente indicada pelo médico.

Em relação ao primeiro aspecto:

Então e se o convalescente levar, por exemplo, um omeprazol para tomar 2 meses (uma embalagem)?

Divide-se o preço? O Estado paga 1/12 da totalidade da prescrição (5 dias de toma) e a respectiva comparticipação para o restante?

De notar que praticamente toda a medicação prescrita nas altas (incluindo antibióticos que têm em média 7 dias de toma), ultrapassa largamente os 5 dias de gratuitidade

Como se farão as contas? Quem as fará? Qual o verdadeiro benefício? Imagine-se a confusão…

É mesmo mais uma lei para fazer show-off e jornalistas babados elogiarem

Em relação à segunda situação, há que saber que existem genéricos e genéricos. Ou seja, aparecem hoje em dia “laboratórios” que ninguém conhece, alguns patrocinados pela Associação Nacional de Farmácias, a propor medicamentos alguns cêntimos abaixo da concorrência. No entanto, o grau de confiança é mais que duvidoso. Na verdade, embora o princípio activo possa estar lá (se e quando o Infarmed controlar), há outros aspectos a considerar para além do preço: excipientes, embalagem, cor e forma que sejam reconhecidas pelo utente, efeito psicológico de mudar uma marca em que o doente se habituou a confiar, por exemplo. Também não é incomum (comigo já sucedeu por mais de uma vez) haver diferenças marcadas de efeito ou de reacções indesejáveis com diferentes genéricos, supostamente iguais…

A questão fulcral é a seguinte: se houver uma falta de eficácia ou um efeito secundário grave com a toma de um medicamento que foi trocado na farmácia, a responsabilidade é do médico? Como é óbvio não pode ser. E como é menos óbvio, mas inelutável, se isso fosse lei, nunca mais se poderia pedir a responsabilidade a um médico sempre que tais trocas sucedessem. Pessoalmente, eu seria o primeiro a colocar na porta do meu consultório: “não me responsabilizo por efeitos adversos ou falta de eficácia de medicamentos que sejam alterados em relação á minha prescrição”. Estou certo que haveria muitos seguidores.

Fernando Costa (médico)
Coimbra

17 Comentários »

  1. O dr Fernando Costa tem razão em não se responsabilizar por uma troca de medicamentos.

    Mas o Bloco também tem razão em reivindicar que os doentes sejam livres de trocar o medicamento.

    Comentário por Luís Lavoura — Julho 20, 2010 @ 15:42

  2. Sou o primeiro a concordar que os utentes devem os responsáveis pelas decisões que tomarem. Por isso, deverão ser esclarecidos que ao aceitarem trocar a medicação estão a desresponsabilizar o médico por eventuais falhas ou efeitos danosos. Por outro lado, quem está no terreno sabe muito bem que na esmagadora maioria das vezes ou o doente nem sabe que lhe trocaram a medicação, ou essa troca é induzida pela pessoa que lhe vende o medicamento (na maioria das vezes nem sequer é farmacêutico), sendo em ambas as situações essa troca motivada quase exclusivamente pelas conveniências comerciais, prémios de venda ou de gestão stocks. Para obviar a este comércio é que nada se faz, nem se fala.

    Comentário por Fernando Costa — Julho 20, 2010 @ 16:20

  3. so s fala no corporativismo e mesquinhez d medicos e tao pouquinho d cartelizacao da apf..

    Comentário por andrecruzzz — Julho 20, 2010 @ 16:24

  4. De novo negam que existam assimetrias na relação profissional entre duas entidades. Na relação médico-paciente e farmacêutico-paciente, as assimetrias são notáveis. Tanto o médico como o farmacêuticos dispõem de muito mais informação que o paciente. A responsabilização do paciente de que falam é absurda.

    Mas indo ao texto do Fernando Costa. Os seus argumentos contra a proposta do BE passam por: 1) Há um problema entre o tempo de aplicação da dose ao paciente e os 5 dias; 2) Os genéricos podem não ser iguais aos inovadores.

    Vamos por partes. Em relação ao argumento 1, o erro do BE foi em determinar os 5 dias em vez de pedir para a dosagem total do medicamento. Estabelecer 5 dias é aparentemente arbitrário. Contudo, as questões para mim acabam dessa foram. O que o Fernado está a passar é um atestado de falta de criatividade na resolução de desafios. Cabe ao Parlamento fazer leis. O modo como essas leis devem ser aplicadas é da responsabildiade do poder executivo. Ou seja, o médico Fernando em vez de usar o argumento mais óbvio dada a sua actividade profissional tenta atirar uns graõs de areia.

    No caso do segundo argumento, a situação piora. Se o genérico não é igual ao inovador é porque os ensaios laboratoriais que testam a bioequivalência não foram bem conduzidos (culpa do laboratório e da entidade reguladora) ou porque não foram bem prescritos (culpa do médico). Colocar uma tabuleta daquele género, como refere o Fernando, é simplesmente ridículo. O que o médico prescreve é um princípio activo. Se tudo o resto falha a culpa não pode ser do paciente.

    Fico triste ao ver um médico a usar esta base de argumentação.

    Comentário por nuno vieira matos — Julho 20, 2010 @ 16:52

  5. Concordo inteiramente com Nuno Vieira Matos e acrescento… Num Hospital, onde não existe essa questão de prescrever genérico ou de marca(para leigos entenderem), uma vez que a prescrição é feita por DCI, essa desresponsabilização não existe, nem se contesta a ineficácia do medicamento… O que muda sr Fernando Costa?

    Comentário por Mauro_G — Julho 20, 2010 @ 18:05

  6. Prezo em ver que os esquerdalhos continuam a sua luta para a desgraça de todos nós…
    Viva o Lavoura!!
    Viva o Nuno!!
    O mais engraçado no sujeito esquerdalho é a sua luta por direitos que ninguém quer nem precisa. Mas o mais engraçado são as suas soluções para os males da nação, são como o eter, ninguém as vê…

    Comentário por Vasco — Julho 20, 2010 @ 18:12

  7. Vasco, chamar esquerdalho a alguém não me parece um argumento muito válido. Eu sou assumidamente de direita e apesar de não concordar com a 1ª proposta, estou absolutamente de acordo com a segunda, pelos motivos aduzidos pelo Nuno e complementados pela pertinente questão do Mauro.

    Comentário por Miguel — Julho 20, 2010 @ 18:19

  8. Os medicamentos não são grátis. Alguém pagará. Provavelmente o próprio doente a duplicar…

    Comentário por lucklucky — Julho 20, 2010 @ 20:37

  9. Para o Nuno Vieira Matos:

    1- O que se passa ao prescrever no hospital é que os medicamentos são os que existem na farmácia hospitalar para onde foram comprados por concurso (portanto com garantias das empresas que os vendem) podem ser controlados, e os médicos já sabem exactamente o que vão dar, o que não sucede com as trocas nas farmácias comerciais, em que o médico desconhece se e qual vai ser a troca.
    2- Fora dos hospitais o que acontece é que o interesse das farmácias em gerir os seus stocks leva que sejam muitas vezes fornecidos medicamentos genéricos de laboratórios que ninguém conhece, nem dão a cara.
    3- Além disso, se no hospital houver uma falha ou efeito secundário do medicamento, como o doente está sempre vigiado a correcção pode ser imediata. Óbviamente que tal não sucede no ambulatório…
    4- Já agora, e para desanuviar a tristeza do Sr Nuno Matos, deixo-lhe um caso prático:
    Há umas semanas atrás atendi na urgência uma utente com uma reacção alérgica aguda grave. Por coincidência era uma doente minha, a quem eu tinha substituído o seu habitual Brufen por um genérico. Nesse dia, após tomar esse genérico pela primeira vez, começou de imediato a fazer a alergia. A explicação para o caso, não inédito, não tem nada a ver com a falta de qualidade do genérico em causa mas ao facto de que os excipientes dos medicamentos podem mudar (só o princípio activo é que não). Assim, provavelmente houve uma alergia a um desses excipientes do genérico. Agora diga-me: eu só lhe vou receitar a partir de agora o Brufen. Se na farmácia lhe trocarem o medicamento e ela voltar a fazer a reacção alérgica (da segunda vez é quase sempre mais grave) quem será responsabilizado?

    Não fique triste, que V. não será com certeza…O problema é que dar palpites é muito diferente de actuar e assumir riscos…

    Comentário por Fernando Costa — Julho 20, 2010 @ 23:40

  10. Desculpem esta nova nota, mas esqueci-me de responder à contestação do Nuno Matos em relação ao meu primeiro ponto:
    Como é óbvio, se a lei aprovada fosse em relação à prescrição de saída, “tout court” eu não faria a argumentação sobre os 5 dias. O que se passa é que, vá lá saber-se porquê, especificar esse espaço temporal foi um erro, como o Nuno admite, e portanto achei bem denunciá-lo. O Nuno Matos acha que fiz mal. Fico sem saber se por ser simpatizante do Bloco se por estar habituado a que as leis em Portugal não são para levar a sério. De qualquer modo, esse erro só demonstra a ligeireza e incompetência de quem a elaborou. Ou, como eu disse, que apenas se destina a fazer show off. Não há nada como ver se o erro vai ser corrigido…

    Comentário por Fernando Costa — Julho 21, 2010 @ 00:01

  11. Caro Fernando,

    Respondo-lhe apenas agora porque o serviço de subscrição do blogue falhou.

    Comentário 9, Ponto 1
    A Ministra da Saúde já veio afirmar que a dispensa dos medicamentos terá de ser feita pela farmácia hospitalar (o executivo vs. legislativo, vê?).

    Comentário 9, Ponto 2
    “Laboratórios que ninguém conhece, nem dão a cara”. Isto parece-me um ataque violento às competências do INFARMED. Começo a achar que você nutre um desconforto cegante á indústria dos genéricos. Qualquer empresa que fabrique medicamentos tem de estar registada no INFARMED e é inspeccionada. Se acha que as inspecções são mal conduzidas, tal afecta não só os genéricos.

    Comentário 9, Ponto 3
    A proposta de lei é para os 5 dias após alta do paciente. Não percebo o argumento.

    Comentário 9, Ponto 4
    Porra Fernando, e isso explica o quê?? Quer que lhe conte histórias de medicamentos inovadores que continham resíduos de agentes genotóxicos??
    Dar palpites? Pela superficialidade do seu argumentário parece-me que quem está a dar palpites é o Fernando; não me venha com a história: eu sou médido eu é que sei e como tal nãp tenho que discutir estas questões com ninguém.

    Comentário 10, Ponto único
    Penso que o Fernando teve dificuldade em entender o meu comentário. Sõ não entendo se o seu enviesamento é propositado ou não. Eu não ‘admiti’, eu reproduzi a minha opinião. Você não denunciou a irracionalidade dos 5 dias, você denunciou: 1) que era complicado executar a lei devido aos 5 dias; 2) que os genéricos são maus. O que eu achei mal não foi o acto da denúncia mas antes o conteúdo dessa mesma denúncia.

    Fernando, leia bem as réplicas que lhe fazem e não tente distorcer o conteúdo em seu benefício; fica-lhe mal.

    And you know what? I am still sad.

    Comentário por nuno vieira matos — Julho 21, 2010 @ 13:28

  12. Caso conteste algum dos meus argumentos em vez de argumentar com processos de intenções que me atribui, eu poderei responder. Caso contrário,tenho mais que fazer.

    Comentário por FGCosta — Julho 21, 2010 @ 16:05

  13. é engraçado em como hoje em dia os médicos nao podem dizer “eu sou médico e percebo d q falo”…
    toda a gente sabe tudo. e percebe d tudo.

    Comentário por andrecruzzz — Julho 21, 2010 @ 19:03

  14. Fernando, eu contestei os seus argumentos de forma bastante clara. Mantenho o que disse acerca do seu enviesamento.

    André, o que estamos a discutir pertence à multidisciplinaridade e se me permiti opinar foi porque acho que tenho algo a contribuir para a discussão. Mas vamos assumir que sou um leigo que resolveu mandar uma boca; torna-se estranho a falta de capacidade por parte de um médico, cuja opinião você tanto valoriza, não conseguir fazer passar a mensagem.

    Comentário por nuno vieira matos — Julho 21, 2010 @ 20:45

  15. Dr. Fernado Costa:
    «alguns patrocinados pela Associação Nacional de Farmácias» – Quais? É capaz de concretizar esta afirmação ou é apenas má-fé?

    Quanto à prescrição por DCI, como já foi aqui dito, explique-nos por favor como prescreve em ambiente hospitalar e confirme-nos que os seus colegas que, em Portugal e estrangeiro, mesmo no ambulatório, permitem a substituição por DCI (não trancando a receita) são uns irresponsáveis.

    Quanto à bioequivalência atestada pelo Infarmed e que contesta, dê-nos uma evidência científica da sua desconfiança. Uma, por favor.

    Declaração de interesses: farmacêutico, já não proprietário de farmácia.

    Comentário por Sá Peliteiro — Julho 21, 2010 @ 21:21

  16. nao acredito em verdades absolutas..casos cm os relatados pelo dr.f.gomes tb conheco e ja os vi.. E nao confio piamenTe no controlo d infarmed aos inumeros laboratórios d genéricos. Acho q hà falta d controlo. . Estranho é q parece q só os médicos falem d falta d qualidad em mts genéricos.
    Nuns casos serao soment coincidencias, e os genéricos serao uns scape goat à mão.. Mas noutros casos tv nao..
    P.s. Sou est medicina e ex-paciente d dr.fernando costa

    Comentário por andrecruzzz — Julho 22, 2010 @ 00:14

  17. André, quais verdades absolutas?

    O caso relatado (singular, não plural) não contribui em nada para a discussão. Alergia a um excipiente tanto pode acontecer num genérico como num inovador e não nos diz nada sobre bioequivalência ou qualidade de fabrico.

    Que não acredite piamente no Infarmed e Laboratórios de genéricos acho saudável. Crenças pias sempre toldaram visões. Mas daí a um completo antagonismo vai muita diferença. A atitude deve ser permanentemente crítica mas construtiva.

    No fim o André remata com uma frase que nos deixa na mesma e nada conclui o que me confunde relativamente à sua argumentação.

    Comentário por nuno vieira matos — Julho 22, 2010 @ 08:17


RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Tema: Rubric. Blog em WordPress.com.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 2.441 outros seguidores