Acho uma certa piada o “interesse nacional” só voltar a ser tema de debate porque envolve, num único negócio, milhares de milhões de euros e um grupo de gente que não está habituado a ser sodomizado pelo poder político. Já o português médio, mais calejado nestas andanças, não tem grandes problemas em que o “interesse nacional” lhe saia do bolso. Abdica de algum do carinho a que o grande capital tem direito em troca de estabilidade emocional e prestações suaves. Não tem direito a capas de jornais mas é um arranjinho que dá para ir vivendo.
A RTP, por exemplo, em nome do interesse nacional e do direito ao “entretenimento de qualidade”, passa os dias a brindar pessoas que não pagam impostos com produção nacional e publireportagens destinadas a promover a diversidade cultural da nação e, por este serviço, para além da publicidade que desvia da SIC e da TVI, cobra 300 milhões de euros anuais aos portugueses que a essa hora estão a trabalhar. Até aqui, nada de novo. Parece que andam há 75 anos nisto.
O que é verdadeiramente requintado neste negócio são as manobras a que a RTP e o poder político recorrem para desorçamentar os custos reais da sua actuação. A publireportagem de hoje tinha como patrocinadores a REN, o Turismo do Açores, e o Queijo Terra Nostra, curiosamente, dos Açores. Para além de ser mais uma prova da utilidade dos lacticínios na composiçao de ramalhetes, este trio de beneméritos é um digno representante da delicadeza com que o Estado trata o contribuinte.
Alguém achou que pedir directamente aos portugueses mais do que 300 milhões por ano era demais, por isso tratou de pedir ao Turismo do Açores e à REN para nos sacarem mais qualquer coisinha, sem deixar provas. O Queijo Terra Nostra agradece a boleia, os accionistas privados da REN parece que também não se incomodam e o produtor beirão de enchidos que vai aparecer na “nossa” televisão a vender a sua morcela ao som do Duo Ele e Ela já vai ter uma razão para votar nas próximas eleições.
Golden shares? Para quê?
“para além da publicidade que desvia da SIC e da TVI, cobra 300 milhões de euros anuais aos portugueses”
Então o que é que o Tomás preferiria – que a RTP não cobrasse nada aos portugueses e, em compensação, desviasse ainda mais publicidade da SIC ed a TVI, ou que, pelo contrário, a RTP não desviasse publicidade nenhuma mas cobrasse ainda mais euros aos portugueses?
Queixar-se simultâneamente das duas coisas é que não me parece correto.
Comentário por Luís Lavoura — Julho 14, 2010 @ 12:26
Luís Lavoura, a RTP trabalha com valores de orçamento operacional anual, muitissimo superiores aos da SIC ou da TVI, o que é totalemente incompreensivel face aos shares obtidos e ao tipo de programação (concursos e quejandos…)disponibilizada. Poderia perfeitamente, caso houvesse racionalidade na sua gestão, trabalhar apenas com o que já actualmente recebe da publicidade.
Comentário por Miguel — Julho 14, 2010 @ 13:00
Luís,
Eu preferia que a RTP não existisse. Mas, não sendo essa hipótese viável no imediato, preferia pelo menos não ser enganado. Se querem ter uma comunicação social pública, prefiro que me digam me digam claramente o que entendem por serviço público, que me mostrem a conta desse mesmo serviço público (não de um serviço público misturado com uma componente comercial que vicia completamente as regras do jogo e que serve sobretudo para nos pôr a pagar tudo e mais alguma coisa) e que depois defendam o pacote nas urnas com esses números.
Comentário por Tomás Belchior — Julho 14, 2010 @ 17:28
O importante é que a rtp continue a apoiar o cinema português e não haja cortes na cultura.
Comentário por harms — Julho 14, 2010 @ 17:43
A RTP é sempre uma pedra-de-toque.
Que projectos o PSD vai apresentar, para a RTP, ou omitir?
Como, na prática, agirá PPC quando/se for eleito PM?
Entretanto lá vão mais uns milhões de €uros, para a RTP, que bem falta fazem nas escolas e nos postos de serviços de saúde.
Opções genuinamente “socialistas” do PS.
Comentário por JS — Julho 14, 2010 @ 19:52
“Então o que é que o Tomás preferiria – que a RTP não cobrasse nada aos portugueses e, em compensação, desviasse ainda mais publicidade da SIC ed a TVI, ou que, pelo contrário, a RTP não desviasse publicidade nenhuma mas cobrasse ainda mais euros aos portugueses?”
Se quer ter publicidade, que concorra por ela sem o dinheiro do contribuinte.
Se quer receber do contribuinte, não pode ter publicidade paga, e tem de prestar contas/sujeitar-se à disponibilidade de pagar do contribuinte.
Parece fácil…
Comentário por Miguel — Julho 15, 2010 @ 12:04
Eu preferia que privatizassem a RTP. Não vejo qualquer utilidade no canal de propaganda governamental.
Comentário por Miguel — Julho 15, 2010 @ 12:09
O comentador em 6 passará a postar como Miguel C.
Não vá alguém querer confundir as coisas.
Comentário por Miguel C. — Julho 15, 2010 @ 12:19
É melhor, é melhor.
Comentário por Miguel — Julho 15, 2010 @ 12:33