Vivendo em Espanha, já tive que ouvir mais do que uma vez referências pouco simpáticas a Camilo José Cela. O seu pecado: ter sido simpatizante da causa franquista. E alguma esquerda, com Francisco Umbral, durante muitos anos, à cabeça, nunca lhe perdoou. No entanto, não leram, ou pouco leram, e não querem ler. A ideologia pode cegar-nos para a literatura.
Mas obras são eternas e os homens são mortais. É disto que muita gente com uma opinião bem armada se tem esquecido nas últimas horas, tanto os que celebram o homem e a “figura pública”, como aqueles que nele cospem. Morreu um grande escritor. Só isso. E já é dizer muito.
Ninguém está a esquecer coisa nenhuma. Se a obra não morre, não há que carpir. Se morreu o homem, julgue-se o que fez em vida.
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Junho 19, 2010 @ 18:12
Esses julgamentos, com o tempo, vão perder importância, ou tornar-se-ão muito complexos. Veja-se Wagner.
Comentário por Carlos M. Fernandes — Junho 19, 2010 @ 18:18
Sim Wagner era anti-semita como Saramago foi. Em épocas muito diferentes.
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Junho 19, 2010 @ 18:26
Pelo que li e pelo que o ouvi em entrevistas sempre me pareceu um homem vulgar. A fama veio-lhe com o nóbel; mas ele era comunista, a academia Sueca é comunista e o Mário Soares foi, antes do prémio, com uma mala cheia de dinheiro para que se lhe pagassem as traduções em várias línguas.
Parece-me que o Saramago está para a literatura, como o Stiglitz ou o Krugman estão para a Economia. Mas está bem, “a verdade não tem pressa…”
Comentário por Luís Barata — Junho 19, 2010 @ 18:27
Anti-semita, socialista, revolucionário, reaccionário, pagão. Qual deles?
Comentário por Carlos M. Fernandes — Junho 19, 2010 @ 18:37
127 anos afastados, e dezenas de milhões de mortos pelo caminho.
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Junho 19, 2010 @ 18:44
Um grande escritor não quer significar que se seja uma grande pessoa.
Saramago foi um grande escritor.
“Louis Armstrong nasceu pobre, morreu rico e durante a sua vida não fez mal a ninguém.”
Não há muitos como ele.
“Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” são livros magníficos.
Comentário por commentetrepersan.blogspot.com — Junho 19, 2010 @ 18:47
E Céline? Também foi antes das dezenas de milhões de mortos, mas no entanto teve a ideia da solução final! (O que quero dizer é que um julgamento moral não pode estar dependente de se estar, ou não, do lado errado da História e do tempo. E é isso que fazemos – ou não – a Saramago, Wagner, Céline, ou Pound. Um julgamento moral.)
Comentário por Carlos M. Fernandes — Junho 19, 2010 @ 18:50
Isso era o que o Saramago dizia. Que os brutos da Bíblia deviam ser julgados por critérios universais (os contemporâneos e progressistas, pois claro).
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Junho 19, 2010 @ 19:01
Um homem sempre pronto a condenar Israel ( profundamente anti-semita ) e a defender o indefensável ( Cuba e o comunismo / prec em Portugal) mas que durante a ditadura portuguesa esteve calado como um rato, nunca se atrevendo a escrever o que quer que fosse que incomodasse o regime.E desde que fugiu para Espanha, por diversas vezes defendeu que Portugal devia ser uma província de Espanha, escarnecendo e ofendendo os portugueses a quem chamou de estúpidos. Um grande escritor, sem dúvida, mas um fraco homem.
Comentário por joao — Junho 19, 2010 @ 19:13
Carlos M. Fernandes,
Excelente post. Muito certeiro. Tão ocupados estão a destruir ou incensar o político…, que se esquecem do essencial: morreu um escritor português universal. Dos muito poucos que, no século passado, talvez a par com Sophia e Lobo Antunes, pôde reivindicar tal estatuto.
“Parece-me que o Saramago está para a literatura, como o Stiglitz ou o Krugman estão para a Economia.”
Ora aqui está alguém que deve conhecer tão bem a obra de Saramago como conhece a obra de Krugman e de Stiglitz.
Comentário por LA-C — Junho 19, 2010 @ 19:54
LA-C, lá porque não se fala dos lindos olhos de Saramago, ninguém está a esquecer-se dos lindos olhos que Saramago tinha.
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Junho 19, 2010 @ 20:09
Grande escritor por obra da máquina de propaganda comuna. Homem? Era muito pequenito que tratava mal a família mais chegada.
Comentário por A. R — Junho 19, 2010 @ 22:43
Que grande hipocrisia. Se o escritor tivesse sido um assassino já o autor do post não falaria assim. Porquê? Porque o valor do homem tem de ser medido em relação ao da sua obra.
Comentário por tina — Junho 20, 2010 @ 09:15
Menos um comunista no mundo… menos mal!
Comentário por Vasco — Junho 20, 2010 @ 22:24