A Europa nos últimos anos tem vindo a consumir mais do que aquilo que produz. Com a crise do crédito que alimentava este consumo adicional, e com o mundo em desaceleração do crescimento, não há forma de contornar aquilo que é evidente: vamos mesmo ter de mudar de vida.
Mudar de vida significa desde logo que o Estado Social vai passar a ter de viver com aquilo que a sociedade produz hoje. Não há margem para que a solidariedade actual continue a ser feita parcialmente à custa dos recursos futuros: os défices vão deixar de ser uma opção nas mãos dos governos europeus; e vamos ter também de diminuir um pouco o recurso ao crédito, que vai provavelmente tornar-se marginalmente mais caro e selectivo.
Mudar de vida significa também que vamos ter de tornar os Estados menos consumidores de recursos, porque o “Modelo Social Europeu” só é viável, ipso facto, se as economias o suportarem. Só há lugar para políticas sociais na Europa na medida em que os nossos espaços económicos sejam competitivos, e claramente a Europa tem vindo a perder marginalmente competitividade. Ora, o nível da nossa fiscalidade está hoje desfasado da produtividade, e portanto há que libertar cidadãos, empresas e gerações futuras deste excesso de tributação. É também importante que no futuro a fiscalidade e os encargos sociais com o trabalho e a previdência alinhem com o nível de produtividade, o que significa, num cenário de défice 0, e pelo menos no médio prazo, que terá de haver uma redução do peso dos Estados e das suas prestações.
Mudar de vida significa ainda que num mundo mais complexo e incerto, temos de estar dispostos a assumir mais riscos, a viver num quadro de menor segurança, sem encararmos isso como uma tragédia ou uma fatalidade. Temos também de ser menos avessos à mudança e capazes de construir os nossos espaços de felicidade de uma forma distinta das gerações dos nossos pais. Temos ainda de ser mais exigentes nas nossas vidas e naquilo que esperamos dos outros.
Quem ouviu com atenção por estes dias Merkel, Cameron, ou os Ministros Luís Amado e Teixeira dos Santos percebe – se ainda não tinha percebido – que é um pouco isto o que nos está reservado. Na melhor das hipóteses, porque estes são os cenários mais benignos, e aqueles até que desenhando-se no horizonte com cores de exigência, ainda assim deixam em aberto um certo espaço para que alimentemos uma esperança não utópica. Nada garante porém que a Europa não descambe.
Nota final: Não tenho dedicado particular atenção a contrariar os disparates que continuam a ser ditos e escritos nos media e nos blogues que se limitam a repetir até à náusea as retóricas da avestruz, porque o tempo – e não falta muito – se vai encarregar de lhes provar quão gigante tem sido a sua indigência intelectual e incapacidade para perceber o que se está a passar.
> incapacidade para perceber o que se está a passar
O que se está a passar é a apoteose final da venda de sabonetes.
No século XIX, para vender sabonetes, fizeram anúncios, que pagaram a “imprensa livre” mais as novelas românticas que propagandearam o “direito a ser feliz” (i.e. cevar os instintos, que se amolem as obrigações – não se vendem sabonetes a chatear o cliente com miudezas).
Depois foi a bola de neve. Progresso imparável. Não sei como é que ainda não é obrigatório fazer sexo em grupo com animais quadrúpedes. Mas vegetariano, não-fumador, e neutral em CO2, com fengshui positivo e energia astral das pirâmides. Ah, e quem acreditar em Deus é um tosco.
Entretanto, injecta-se crédito directamente para a veia, seja para os governos comprarem votos, seja para as famílias comprarem tralha que não precisam nem têm onde pôr. Os passadores de crédito depois ficam muito amofinados quando descobrem que os viciados estão nas lonas. Justamente quando iam conseguir concentrar 90% da propriedade nas mãos de 1% (que só pagam os impostos sobre a dita que lhes apetece – “imposto sobre rendimentos” é para tansos).
“And so it goes”, como dizia o camarada do Slaughterhouse-Five. Um optimista.
Comentário por Euro2cent — Junho 9, 2010 @ 00:23
o ‘fórró-badó’ socialeiro
tinha que acabar mal.
Comentário por floribundus — Junho 9, 2010 @ 07:53
RAF
Concordo com tudo o que aqui refere, mas não tem sido o governo a manter a ficção oficial? A manter a ilusão desde sempre, a manter a ficção antes mesmo das eleições legislativas?
Isto para dizer que não compreendo como coloca aí Amado e Teixeira dos Santos, que só vieram dizer o que lhes mostraram como inevitável.
Aliás, a forma como o governo tem gerido esta inevitabilidade tem sido vergonhosa. Mantêm a ficção nas televisões, mantêm o TGV, as despesas aumentam, e as medidas só pesam nos mais frágeis e vêm a conta~gotas.
O comportamento do ministro das Finanças em relação aos cidadãos-contribuintes tem sido execrável. Tem sido próprio de uma autêntico chantagista.
E alerto desde já os cidadãos-contribuintes para o enorme risco deste precedente, da retroactividade fiscal. Os socialistas têm sido peritos em dar pontapés na Constituição que é a deles, ainda por cima!
Todo o cenário que o RAF aqui descreve já devia ter sido anunciado mesmo antes das eleições legislativas de Setembro, quando se sabia, mas se iludiu, qual era realmente o valor do défice, da dívida, dos nºs do desemprego, etc.
Teixeira dos Santos colaborou nessa mentira, ou não? Com o apoio inestimável de Constâncio, o governador que inventou o nº celeste 6,83, ou não? E tenta ou não manter este equilibrismo suicida de medidas a conta-gotas e sempre quando apanha os cidadãos distraídos (e este período do Mundial vai ser muito útil), mantendo o TGV, as despesas, os organismos estatais inúteis, etc.?
Esta estabilidade ilusória é ali assegurada (também de forma vergonhosa e inclassificável) pelo “novo PSD”, e este “bloco central” é apoiado tacitamente pelo Presidente.
(Uf! Preciso mesmo de voltar a ouvir o CD mais recente dos Divine Comedy…)
Ana (mais chata do que é aceitável)
Comentário por agfernandes — Junho 9, 2010 @ 10:37
[...] ser muito confortável, num quadro de raciocínio na lógica da retórica da avestruz, alegar que medidas que nos são exigidas por razões nesta fase meramente técnicas, que se nos [...]
Pingback por A lenta agonia dos Estados Sociais « O Insurgente — Junho 9, 2010 @ 16:08
Eles enterram a liberdade em nome da liberdade.
Eles provocam o desemprego em nome do direito ao trabalho.
Eles promovem a desiguldade de oportunidades em nome da igualdade.
Eles protegem a corrupcção e a impunidade em nome do direito.
Eles geram a falência da segurança social em nome da protecção dos desfavorecidos.
Eles impedem o crescimento económico em nome da modernidade.
Eles subsidiam o fracasso e tributam o sucesso.
Eles defendem a ignorância em nome do progresso.
Eles mentem em nome do interesse nacional.
Como se chama esta ideologia?
Comentário por ricardo saramago — Junho 9, 2010 @ 18:26
[...] de prosa, um dos melhores exemplos da corrente política que ganha cada vez mais espaço, a da retórica da avestruz. Deixe um [...]
Pingback por A retórica da avestruz (II) « O Insurgente — Junho 9, 2010 @ 18:33