“All wise men are of the same religion.”. “What was that religion?” one lady asked. “Madam”, Shaftesbury replied, “wise men never tell.”
Gertrude Himmelfrab, The Roads to Modernity.
O Pedro Picoito explica neste ‘post’ o porquê da sua relativa, mas importante desilusão com Cavaco Silva. Faço apenas um pequeno comentário antes de me debruçar sobre o que julgo ser o cerne da hipotética candidatura ‘católica’ às presidenciais. A questão não se põe, como o Pedro a coloca, entre ‘Cavaco ou o caos’. Trata-se, isso sim, de decidir se vale a pena punir um presidente que tem feito o que pode para alertar o país para os graves problemas que o atingem, apenas e tão só porque promulgou a lei do casamento homossexual, lei essa que, independentemente da decisão de Cavaco, seria posteriormente aprovada pelo Parlamento.
Que interesse pode ter este episódio que não seja o de uma direita mais conservadora, auto-intitulada de católica, se reafirmar politicamente e deixar sementes para um projecto político futuro? Que outro interesse poderá existir que não seja o desta direita (onde bem sei que o Pedro não se revê) procurar um candidato presidencial contra Cavaco Silva, sob o pretexto de a lei que permite o casamento homossexual ir contra os ensinamentos da Igreja? Ser uma lei contrária à moral católica. E porque contrária, naturalmente imoral. Ou amoral, que pouco interessa ao que se segue.
Esta militância, e agora vamos ao miolo do problema, não lhe vou chamar dogmática, porque não é, mas de certa forma intransigente, já aceitou a separação entre a Igreja e o Estado, mas não a concebe entre a moral e a religião. No seu entendimento, as duas confundem-se radicando a primeira na segunda. Ao contrário de, por exemplo, Adam Smith que, já no século XVIII, considerava a religião como uma aliada da moralidade, esta sim, inerente ao homem, há quem, por cá, ainda conceba que os nossos valores morais terão origem divina e apenas por essa forma será possível abarcá-los na sua plenitude.
Esta conversa já foi feita na Grã-Bretanha há muito tempo por homens como Gibbon, Hume, Hutcheson e também Adam Smith. Talvez por sermos um país periférico, talvez por, a partir de determinada altura, nos termos centrado em demasia na cultura francesa, esse debate passou-nos ao lado. A modernidade chegou-nos à força e sem alicerces intelectuais que a fundamentasse. Essa falha intelectual dos ‘modernos’, mais o horror de um certo sector ‘conservador’ à destruição pura e simples do passado, levou estes a fecharem-se em ideias pré-concebidas e seguras. Os dois lados ergueram barricadas e a conversa inglesa nunca existiu por cá. Tivesse ela acontecido e talvez (continuo a conjecturar), a hipotética candidatura de Bagão Félix, ou qualquer outro candidato ‘católico’ contra Cavaco Silva, nem tinha pés para andar, tomando a sensatez o seu lugar. Tal como as coisas estão, nunca o saberemos.