Inspirado por este artigo no Jornal de Negócios, o João Galamba redescobre Marx, com o fim último de alegar que um pretenso liberalismo, convenientemente indefinido, é de algum modo responsável pela crise de endividamento que assola múltiplos estados pelo mundo fora, particularmente na Europa.
«A tese de que os preços reflectem toda a informação disponível, ignora o facto de que os preços não se limitam a reflectir: reflectem…e contribuem para criar a realidade que supostamente estão a descrever. Quem procura racionalidade nisto tudo, esquece-se de uma coisa fundamental: toda a acção é reflexiva, pois agir sobre uma determinada realidade contribui para a transformação dessa mesma realidade, o que, por implicação, inviabiliza qualquer tipo de racionalidade a-histórica que queiramos imputar a este tipo de acontecimentos.»
Este argumento é a clássica falácia do apelo à complexidade. O facto de uma coisa ser complexa e de difícil entendimento de modo algum implica que não possa ser analisada racionalmente. É especialmente irónico que este argumento seja usado pelo João Galamba, pois para além do uso da falácia em si, acresce à sua tese uma contradição quando afirma que a alegada falha de mercado é algo «que só a política pode resolver». Isto é, os agentes individuais, com todo o seu acesso à informação dispersa, são incapazes de encontrar o preço certo. Já politicamente, com alguma forma de controlo e planeamento central, apesar das limitações inerentes ao acesso à informação, o preço certo pode ser estabelecido. Oh presunção fatal! Será possível que o João Galamba não veja o que sucederia se o exemplo de Lebre de Freitas fosse real: Um único credor da dívida pública não veria o seu risco diminuido. Seria simples e inevitavelmente levado.
«É urgente recuperar parte do [pensamento de Marx], sobretudo a ideia de que a economia é uma totalidade, não um aglomerado de fenómenos independentes, sem ligação entre si. A economia é uma totalidade histórica, isto é, trata-se de uma narrativa. Ignorar a dimensão narrativa da economia leva-nos a reproduzir (e a ampliar) as patologias que estão na base de todos os ‘problemas’ que enfrentamos. Um exemplo disto é a tendência para falar da crise actual como se esta não tivesse qualquer relação com os acontecimentos de 2007 e 2008, como se a crise da dívida pública não tivesse qualquer relação com a necessidade dos Estados substituirem um sector privado em crise. É óbvio que a narrativa que importa recuperar começa mais atrás, muito mais atrás. Mas não falarei disto agora.»
Claro que ele não fala disto agora. A “narrativa” não bate certo. É evidente que a actual crise não é de agora; que os eventos de 2007 e 2008 contribuiram; que tudo começou muito mais atrás. O problema é que nada disso na verdade contribuirá para justificar as teses e escolhas políticas que o João defende. Ele fala como se o endividamento insustentável dos estados, causado pelos modelos sociais que implementaram no último século, fosse de algum modo o resultado de políticas liberais e não de políticas socialistas. E sugere que um redescobrir do planeamento centralizado e pseudo-científico que levou ao colapso económico do bloco soviético pode ser a solução para a falência dos estados sociais. A “narrativa” do João é de tal forma contraditória que não há de facto muito a dizer.
Eu posso dar uma ajuda: A minha narrativa começa com a passagem das leis de legal tender, no início do século XX. Passa pela abolição do padrão-ouro e pela criação de sistemas de segurança social desenhados para baixa esperança de vida e para populações em crescimento constante. Passa pelo financiamento crescente de mais e maiores serviços públicos com recurso a dívida pública e à monetarização da mesma. Passa por um aumento galopante do peso dos estados nas respectivas economias. Passa por bolhas especulativas resultantes de taxas de juro mantidas artificialmente baixas e das crises subsequentes quando essas bolhas inevitavelmente rebentam. Passa pela presunção dos estados de que podem endividar-se sem limites, quando já não conseguem receitas de impostos para cobrir as suas despesas correntes.
Como termina esta narrativa? Não sei. Mas se passar por Marx e pela vontade política do João Galamba não creio que acabe bem.