
Em tempos de centenário da imposição da república, foi particularmente delicioso assistir a um presidente da república, em pleno prime-time, assumir de sua iniciativa e vontade a incapacidade orgânica em decidir algo de institucionalmente consequente.
Nem sequer em relação à possibilidade de um lobby aceder a um papelucho com a chancela da respectiva repartição da república (porque para casamento – se algum dia lá chegarem – ainda vai faltar um bom bocado, minhas jóias).
Depois de uma semana com o papa a abençoar os espectros da tralha primo-republicana no terreiro do paço (à sombra de D. José, marioneta da república à là Cromwell portuguesa), e a mobilizar em largos números o povão que teima em falhar as cerimónias da dita efeméride pergunto-me, até lavar os cestos, o que ainda estará para vir.
Saiu um triste presidente este cavaco.
Sem convicções (só aquela treta dos Açores é que foi importante para ele), sempre preocupado em não fazer ondas, caladinho, discreto, inútil.
Enfim, venha o próximo.
Comentário por bla bla bla — Maio 18, 2010 @ 00:41
Ena, dois suícidios políticos numa semana só.
Já não bastava o Coelho tangueado, temos um presidente atado para enchido (ou vice-versa).
É pôr ao fumeiro.
Comentário por Euro2cent — Maio 18, 2010 @ 01:01
Todos os presidentes da república são maus. Mas Cavaco escusava de se esforçar tanto.
Das três uma:
1) Se Cavaco queria tomar uma posição clara de valores sobre o casamento gay, então vetava a coisa;
2) Se, pelo contrário, o assunto é irrelevante para o PR e ele não lhe queria dar atenção em tempos de crise, então não fazia qualquer comunicação, bastando um comunicado da Presidência.
3) Se o assunto era importante, mas menos relevante que a crise que requer a atenção total do país, então Cavaco deveria ter feito uma comunicação sobre a crise e, em nota de rodapé, dizia que aprovava o casamento gay, porque não queria dar desculpas ao governo para não governar.
O homem não toma uma posição coerente: passa a quase totalidade da comunicação a dizer que é contra o casamento gay e depois termina dizendo que não veta, porque tal seria inútil e só desviaria as atenções do PEC. Ou seja, consegue o milagre de desvalorizar os seus próprios poderes, demonstradamente inúteis e de assinalar a contradição flagrante entre a menor relevância que atribui ao tema do casamento gay face aos problemas financeiros e a seriedade de uma comunicação ao país.
Comentário por José Barros — Maio 18, 2010 @ 01:54