Mas a imagem dos privados continua a ser de um sector mais insensível, que põe pessoas fora do hospital…
Ainda há pouco tempo vi uma entrevista de um presidente de um hospital público, que até prezo, e que disse que se gerisse um privado e tivesse de mandar um doente embora por causa do plafond do seguro se demitia. Eu acho que ele se devia demitir hoje. Porque o Estado todos os dias manda doentes embora por razões económicas. Não vamos ser hipócritas. Enquanto houver listas de espera significa que estamos a não tratar por motivos económicos. Ao menos com as seguradoras sabe-se o que vendem. O Estado dá a entender que temos direito a tudo e depois na prática as pessoas esperam anos e anos. Esse presidente do hospital público diz isso porque vive num ambiente onde as pessoas querem que esta baralhação exista.
Que baralhação?
A litigância entre público e privado. Não tenho a certeza que os custos hoje com a informalidade – leia-se corrupção – dentro do sistema [público de saúde], não existiriam se fosse o cidadão a escolher. E se não pouparíamos dinheiro.
Dê-nos um exemplo desses interesses.
Na hemodiálise foi criada uma fundação com quem o Estado terá assinado um protocolo. O que é isto? Por que é que há uns tipos, normalmente políticos do PS e do PSD, que fazem uma fundação? É sempre esquemas… Esses esquemas custam muito dinheiro. Toda a gente sabe que a informalidade é responsável por 40% do nosso défice estrutural. Porque é que há sempre esquemas? Se há falta [na prestação destes serviços] abram a convenções. O Estado todos os dias não só cria ineficiências no público como vem também criar no privado. Não quero convenções nos meus hospitais. Não quero, não preciso, não vou entrar nesses esquemas, é uma questão de ética empresarial. O mercado das convenções está fechado há anos, a antiguidade é um posto. Chega-se a vender convenções. Posso tratar mal, nem ter procura, pode haver outros muito melhores, mas para o Estado isso não interessa nada. Cria distorções de concorrência terríveis. O Estado faz todos os dias figura de urso e acha lindamente. São os interesses instalados. Hoje ninguém faz regulação técnica, ninguém quer que façam o trabalho deles.
Quem é que não quer?
Os tais interesses… e ficamos por aqui.
(…)
Devia haver competitividade dentro do Serviço Nacional de Saúde?
Se me perguntar o que eu acho que devia ser o SNS, essa é a “one million dollar question”. A saúde é um investimento demasiado precioso numa sociedade para ser encarado unicamente como custo social. E tem de ser bem gerido, sobretudo em países como o nosso, onde gastamos mais do que temos. Não acredito nos regimes soviéticos, de planeamento central, num SNS baseado apenas no Estado como único pagador. Um sistema que ignora que há privado e que há uma dupla cobertura é completamente errado e não promove a prevenção das doenças. Sozinho, sem um estímulo exterior de mercado, de desassossego, de inquietude, ninguém melhora. A saúde não é diferente. Só o facto de os hospitais não terem de lutar pelo privilégio da escolha dos doentes, já cria isso. Ou seja, o meu Hospital da Luz só é um bom hospital enquanto existir a José de Mello Saúde. No dia em que for monopolista, vou ser um péssimo hospital. O que me faz correr é o Dr. Salvador de Mello. Fico piursa de perder um doente para ele.
(…)
Para um privado, o que muda se estiver no poder o PS ou o PSD?
Rigorosamente nada.
Mas o discurso político é diferente…
Acha? Eu acho que têm todos medo de falar do privado. Acham que perdem votos. A discussão certa não é público versus privado, palermices há nos dois sítios. Portanto, é um tema de votos e de curto prazo. Não vejo nenhum político, com excepção talvez de Correia de Campos e de Maria de Belém, que tivesse pensado a longo prazo. Correia de Campos tramou-se logo, Maria de Belém também. Aprecio mais um BE e um PCP, ao menos são coerentes. Não concordo, porque defendem o bloco soviético de saúde, assente na ideia e que a economia podia ser nacionalizada e isto tudo era controlado pelo Estado e era uma utopia bestial. Mas ao menos sabemos o que pensam. PS e PSD defendem exactamente a mesma coisa e, no fundo, o que estão a tentar é sobreviver no curto prazo, o que na saúde nos vai sair muito caro.