Pois é. A Comissão Europeia chama-lhes “medidas suplementares de consolidação orçamental”.
Abril 14, 2010
Espírito de serviço
Henrique Nascimento Rodrigues não foi só o melhor Provedor de Justiça, o mais discreto e mais trabalhador (é sempre assim, não é?), mas também nos deu um exemplo ímpar, na forma digna como terminou o seu mandato. Dignidade comprovada por aguentar (apesar dos seus problemas de saúde) a sua manutenção no cargo, devido aos atrasos na escolha de um sucessor. Numa época em que os valores do trabalho e da abnegação não se valorizam devidamente, é bom termos noção do esforço de Nascimento Rodrigues. São poucos os que se vão embora desta forma.
Vai uma apostinha?
Suspeito que a inesperada (e que Francisco Assis explicou muito mal) antecipação na tributação das mais-valias bolsitas terá algo a ver com as dúvidas levantadas pela Comissão Europeia acerca do PEC português. Assinale-se que, mais uma vez. preferem aumentar os impostos a reduzir a despesa pública. E fazem mais um frete à extrema-esquerda.
Sobre tolerâncias de ponto e feriados
Um católico devoto não se deveria importar de abdicar de um dia de férias para acompanhar a visita do Papa. O mesmo raciocínio se aplica à celebração da Sexta Feira Santa, do dia do Corpo de Deus, do dia da Assunção, do dia de todos os santos, da Imaculada Conceição, do Natal e do Carnaval. Se nenhum destes dias é suficientemente importante para os devotos abdicarem de um dia de praia, porque devem ser os empresários e contribuintes obrigados a pagar por eles?
É o que dá ter ministros sindicalistas
Diz a nossa sindicalista-in-chief, Helena André, que o subsídio de desemprego é ‘um direito’ e incomoda-se se alguém que recebe dinheiro dos contribuintes numa situação de falta (espera-se que temporária) de rendimentos tiver de trabalhar como contrapartida desse dinheiro dos contribuintes (e que custa a ganhar aos contribuintes). Já não preocupa a sindicalista ministra que haja quem recebe o subsídio de desemprego ficando dois anos a usufruí-lo em vez de procurar novo emprego (as vezes que me chegaram fichas de candidaturas – cujo destino era o caixote do lixo – com a observação de que o candidato só começara a procurar emprego um ou dois meses antes de terminar as transferências de dinheiro dos contribuintes, algo que, de resto, muitas vezes era candidamente assumido pelos candidatos, como se fosse óbvio que depois de ficar desempregado se devesse ‘gozar o subsídio de desemprego até ao fim’). Nem que, devido à falta de mecanismos de fiscalização, muitos recebam o subsídio de desemprego e simultaneamente aceitem um emprego recebendo ‘por fora’ (as vezes que isso me foi proposto por candidatos que até poderiam interessar à empresa, e que recusavam as propostas de trabalho, uma vez que não queriam perder a oportunidade de acumular subsídio de desemprego com ordenado).
Ora bem, se o subsídio de desemprego fosse – como devia, e qualquer PSD liberal o proporá – efectivamente um seguro que cada trabalhador contratasse com uma seguradora, negociasse a percentagem do ordenado que receberia em caso de desemprego, o período de tempo máximo em que receberia a prestação do subsídio de desemprego, que quinhão do ordenado pagaria mensalmente à seguradora, então ninguém teria nada a dizer sobre o que outro faria enquanto desempregado e recebendo a prestação da seguradora (sendo certo que o prémio do seguro aumentaria se se tratasse de alguém propenso a grandes períodos de desemprego). Como actualmente se acede ao ‘direito’ ao subsídio de desemprego pelos descontos mensais para a segurança social, mas as receitas da segurança social não chegam para tanto subsídio de desemprego e tanta prestação social, quem recebe o subsídio de desemprego está efectivamente a receber transferências de quem produz e paga impostos. Que quem recebe o subsídio de desemprego faça trabalho comunitário, que devolva em espécie e tempo de trabalho aos contribuintes o esforço que lhes exige, é (no sistema actual) da mais elementar justiça.
Abril 13, 2010
O (discreto) vencedor do Congresso II
Hoje, o jornal i destaca o bom feedback que, terminada a contenda eleitoral, a candidatura de JPAB estará a receber por parte não só das estruturas do partido como da actual direcção do PSD, já aqui referenciado n’O Insurgente.
A eleição não correu bem, mas é perceptível que JPAB acumulou nestes meses não apenas um forte capital de simpatia, como melhorou a percepção pública das suas qualidades políticas, que alguns não lhe reconheciam; acresce que, aos poucos, boa parte das ideias que trouxe para a campanha têm feito o seu caminho. Além dos aspectos programáticos referidos no artigo do i, julgo também ser de realçar que o mote escolhido para a campanha por JPAB – a “Unidade” – que foi tão criticado por tantos, acabou por ser adoptado pela nova direcção de Passos Coelho, que fez dele o objectivo principal desde o dia em que venceu as eleições, nesta primeira fase de exercício das suas funções.
Da minha parte, escrevo estas linhas, não movido por qualquer sentimento crítico ou de revanchismo “ex post“, mas relativamente satisfeito por perceber que um trabalho cuidado, pese embora não tenha tido adesão em termos eleitorais, estará a ser aproveitado e a ter utilidade.
Quem é que lhes fornece a palha?
Na capa da Revista Sábado desta semana, o título é:
QUANTO GANHAM OS GESTORES MILIONÁRIOS PAGOS PELO ESTADO
Os exemplos são: Zeinal Bava da PT, Murteira Nabo da GALP e António Mexia da EDP. Não há ninguém na redacção, na administração ou na limpeza da Sábado que perceba alguma coisa seja do que for? Quem é que paga aos analfabetos que produzem a revista? Propunha que os substituíssem por chimpanzés, parece que aprendem depressa.
Nisto da Ryder Cup 2018 já é à descarada
Já tinha escrito que a candidatura de Portugal à organização da Ryder Cup 2018 vai ser paga pelo contribuinte, mas nem com a maior das más vontades, nem que fosse um apóstolo do David Icke, me teria passado pela cabeça que o despautério chegasse tão longe.
O Algarve é dos melhores destinos de golfe que existem (foi considerado o melhor do Mundo em 2000 e 2006), com campos desenhados pelos melhores arquitectos do Mundo, muitos com qualidade para receber qualquer prova de top, da European Tour ou até da PGA, se fosse o caso. Há infraestruturas de todo o género necessário e, até, desnecessário. Mesmo assim suspeito que o investimento acabasse por ser integralmente, ou quase, pago pelo contribuinte como é o caso do Portugal Masters ( a propaganda dirá que não, mas o que é certo é que quem o paga é o Turismo de Portugal, ou seja, o contribuinte). Pois a lata é tanta, o descaramento é de tal ordem, que é a Herdade da Comporta que é a zona escolhida pela comissão de candidatura à Ryder Cup. Um daqueles projectos PIN que toda a gente percebe, excepto toda a gente. O tal projecto PIN já incluia seis três campos de golfe (que ainda não existem) e com esta candidatura, imaginem quem vai pagá-los. Pelo menos uma vez, gostava de ver um pouco de coluna vertebral nesta choldra sem nome. Que, por amor de Deus, as pessoas se revoltem e que alguém ponha fim nesta loucura, encha a ladroagem de alcatrão e penas e a leve num carril até ao Cabo de S Vicente.
A acrescentar a tudo isto e se me vierem com a conversa do fomento do turismo, aconselho que vão saber da evolução do mesmo e muito especialmente no golfe, desde 2008 no Algarve e quais são as perspectivas para os próximos anos. O génio do ex-Ministro Pinho (que coincidência tão gira)é uma coisa só ao alcance dos eleitos.
Foda-se lá para isto tudo!
Nota: no meio de tanto descaramento e apesar das promessas, não há uma porcaria de um campo público em Portugal onde as pessoas com menos meios possam praticar golfe.
Nota II: faltou escrever que a Herdade da Comporta é um projecto PIN do BES, que vem do tempo do Ministro Manuel Pinho que, por sua vez, preside à comissão de candidatura à Ryder Cup 2018. Andam nitidamente a gozar com isto.
Publicidade institucional
Num conjunto de contratações que fazem inveja a qualquer blogue que se preze, anuncia-se que dois comentadores aqui da casa, a Ana Silva Fernades e o José Barros, iniciaram a sua colaboração no Farmácia Central.
Thomas Jefferson, 13 de Abril de 1743
Educate and inform the whole mass of the people… They are the only sure reliance for the preservation of our liberty.
It takes time to persuade men to do even what is for their own good.
No government ought to be without censors; and where the press is free no one ever will.
A democracy is nothing more than mob rule, where fifty-one percent of the people may take away the rights of the other forty-nine.
I predict future happiness for Americans if they can prevent the government from wasting the labors of the people under the pretense of taking care of them.
Politics is such a torment that I advise everyone I love not to mix with it.
I would rather be exposed to the inconveniences attending too much liberty than those attending too small a degree of it.
There is not a truth existing which I fear… or would wish unknown to the whole world.
Truth is certainly a branch of morality and a very important one to society.
Caso Figo/Taguspark
Américo Thomati, presidente da comissão executiva, João Carlos Silva, administrador executivo, e Rui Pedro Soares, administrador não executivo, foram acusados de corrupção passiva para acto ilícito, um crime punível com um a oito anos de prisão.
A procuradora que dirigiu a investigação, Teresa Almeida, decidiu não acusar Luís Figo. O ex-jogador do Inter de Milão e da selecção nacional de futebol assinou um contrato no valor de 750 mil euros para que a sua imagem fosse usada numa campanha de promoção internacional do Taguspark.
O (discreto) vencedor do congresso
Para além de Aguiar Branco, estão de parabéns o Rodrigo Adão da Fonseca e toda a equipa por ele coordenada: Passos Coelho assume moção eleitoral de Aguiar-Branco. Sinal que o valor da equipa e ideias da candidatura de Aguiar Branco eram bem superiores à escassa expressão eleitoral.
[C]om apenas 3% dos votos nas últimas directas José Pedro Aguiar-Branco é um dos grandes vencedores do congresso de Carcavelos: parte substancial do seu programa eleitoral na campanha para as directas foi aproveitado por Pedro Passos Coelho no discurso de encerramento. A começar pela proposta de revisão constitucional, uma das principais bandeiras de Aguiar-Branco. A diferença é apenas de timing.(…)
Não admira que Aguiar-Branco tenha sido o escolhido para dirigir a comissão de revisão do programa laranja, depois de ter recusado manter-se na liderança parlamentar ou assumir a presidência do Instituto Sá Carneiro.(…)
A moção de estratégia do ainda líder parlamentar foi coordenada pelo jurista Rodrigo Adão da Fonseca, contando com o envolvimento de mais de uma dezena de contribuintes, desde o presidente demissionário do Instituto Francisco Sá Carneiro, Alexandre Relvas, ao economista e antigo ministro de Cavaco Silva Miguel Cadilhe, passando por personalidades como Diogo Vasconcelos, José António Salcedo, Miguel Frasquilho, Rosário Águas, Santana Castilho, Jorge Bleck e Luís Miguel Novais, entre muitos outros.
“abrantes” de má qualidade (2)
Já aqui tinha apontado a fraquissima qualidade da assessoria “abrantina” em matérias económicas. Aqui está outro exemplo. Até nem é muito complicado perceber porque é que uma eventual privatização da RTP, que implicaria a cessação das restrições publicitárias, é negativa para o negócio das estações privadas. Sintoma que a qualidade é mesmo muito fraca.
Balão de oxigénio
O bail out que a UE propôs para a Grécia com o meu dinheiro deu hoje os primeiros resultados:
O organismo que gere a dívida pública grega anunciou hoje que foram emitidos 780 milhões de euros em Bilhetes do Tesouro com maturidade de 26 semanas, sendo que a oferta foi superior em 7,67 vezes ao valor disponível. O juro ficou em 4,55%.
O mesmo aconteceu com outra emissão, mas de Bilhetes com maturidade a 12 meses, tendo sido emitidos 780 milhões de euros em que a procura dos investidores mais do que sextuplicou a oferta. O juro desta operação ascendeu a 4,85%.
O plano de emergência foi conhecido no Domingo e os mercados reagiram em força no dia de ontem (os que tinham informação previligiada da comissão europeia já tinham reagido na Sexta). Os detalhes que são conhecidos dizem que estamos a falar de 30 mil milhões a serem emprestados este ano e para serem pagos a 3 anos. Olhando para a notícia do DE podia pensar-se que foi um grande sucesso (e tendo em conta que a semana passada as taxas chegaram aos 14% foi de facto um leilão muito bom), mas olhando para toda a curva de yields grega percebe-se o que se passou melhor:
Primeiro, as obrigações a curto prazo desceram sabendo os especuladores que podiam compra-las baratas que haveria sempre comprador para elas a preços mais caros (cortesia da UE e do FMI). Os especuladores maléficos de ontem são os investidores angélicos de hoje porque fizeram aquilo que os governantes queriam: baixar os juros sem que estes tivessem de fazer nada.
Em segundo lugar, apesar da queda abrupta nos yields durante o dia de ontem nas obrigações de mais longo prazo (as taxas a 10 anos passaram de 7,50 para 6,60) mas hoje já vão novamente a subir (6,75)demonstrando que o mercado não tem confiança nenhuma na Grécia a longo prazo mas sim na capacidade da UE de imprimir notas a curto prazo.
Juntando estes dois pontos, chega-se à mesma conclusão que eu cheguei aqui: O bluff vai, mais tarde ou mais cedo, ser chamado pelos que na altura serão novamente maléficos especuladores e teremos mesmo que colocar o nosso dinheiro naquele buraco. Toda a gente sabe disto, menos aqueles que preferem não saber. Em Maio haverá novo leilão de dívida para aqueles lados, a ver vamos se o mercado continuará tão crente nas palavras europeias ou se vai pedir acções.
A Realidade e o Jornalismo
Continuando no tema do futuro do jornalismo, recomendo o que o Clay Shirky tem andado a escrever. No caso do nosso jornalismo de referência em particular, talvez este texto intitulado “Newspapers and Thinking the Unthinkable” seja útil:
“Revolutions create a curious inversion of perception. In ordinary times, people who do no more than describe the world around them are seen as pragmatists, while those who imagine fabulous alternative futures are viewed as radicals. The last couple of decades haven’t been ordinary, however. Inside the papers, the pragmatists were the ones simply looking out the window and noticing that the real world increasingly resembled the unthinkable scenario. These people were treated as if they were barking mad. Meanwhile the people spinning visions of popular walled gardens and enthusiastic micropayment adoption, visions unsupported by reality, were regarded not as charlatans but saviors.
When reality is labeled unthinkable, it creates a kind of sickness in an industry. Leadership becomes faith-based, while employees who have the temerity to suggest that what seems to be happening is in fact happening are herded into Innovation Departments, where they can be ignored en masse. This shunting aside of the realists in favor of the fabulists has different effects on different industries at different times. One of the effects on the newspapers is that many of their most passionate defenders are unable, even now, to plan for a world in which the industry they knew is visibly going away.
[...]
For the next few decades, journalism will be made up of overlapping special cases. Many of these models will rely on amateurs as researchers and writers. Many of these models will rely on sponsorship or grants or endowments instead of revenues. Many of these models will rely on excitable 14 year olds distributing the results. Many of these models will fail. No one experiment is going to replace what we are now losing with the demise of news on paper, but over time, the collection of new experiments that do work might give us the journalism we need.“
Leituras
Luís Naves sobre a Hungria (aqui e aqui)
João Marques de Almeida sobre Lech Kaczynski
Henrique Raposo sobre a Grécia e a Alemanha
Conteúdos “Gratuitos” e Inovação
A propósito do tema da inovação no modelo de negócio informativo, este artigo do NY Times relembra dois princípios importantes:
1. “Open platforms promote innovation and diversity more effectively than proprietary ones.”
A internet, que assenta em larga medida neste princípio, é o exemplo acabado de que a abertura e a descentralização podem fazer mais pela diversidade jornalística e pelos jornais propriamente ditos do que qualquer regresso ao passado. Podem não fazer grande coisa pelo modelo de “jornalismo de referência” tal como ele existe actualmente mas é um problema que esse mesmo jornalismo de referência terá de resolver. Agora, se há coisa que ficou provada nos últimos anos é que o jornalismo como um todo (e os leitores de jornais e até mesmo a democracia) beneficiou e muito com a gratuitidade dos conteúdos. Se o mesmo não se pode dizer dos resultados financeiros do jornalismo é apenas porque a transição para esta nova realidade ainda não terminou. E é aqui que entra o segundo princípio.
2. É possível contornar a necessidade de abertura (leia-se conteúdos gratuitos no caso dos jornais) criando produtos fora de série.
A Apple é o exemplo dado no artigo de uma empresa que teve sucesso contrariando o tal modelo da abertura. Como é que a Apple o conseguiu fazer? Não foi enfiando a cabeça na areia, foi inovando. Se até agora os jornais de referência não arranjaram maneira de usar os benefícios que a abertura trouxe para pagar as contas só têm duas hipóteses: ou prescindem da abertura e depois logo se vê o que acontece à diversidade e à qualidade do jornalismo, ou “sobem na cadeia de valor”, como se costuma dizer hoje em dia. Subir na cadeia de valor implica explorar as potencialidades do modelo aberto para oferecer aos leitores algo que eles realmente valorizem. Ou seja, antes de nos ameaçarem com o desaparecimento de pilares da democracia talvez fosse importante que os jornais se concentrassem nos seus leitores e não em si próprios.
Em Olhão, tal como em Carcavelos
(clicar para aumentar – página original aqui)
Parece que a JSD já não está sozinha no mundo da ortografia alternativa
Aqui ao lado
Em Espanha, a competição entre os maiores bancos pela captação de depósitos pode levar a uma crise das cajas de ahorro semelhante ao colapso dos Savings & Loans que ocorreu nos anos 80 nos EUA. Tal como nos S&L, as restrições regulatórias impostas às cajas levaram a que se financiassem a curto prazo para investir a longo prazo, no inflacionado mercado imobiliário. Tal como noutros casos o culpado não vai a regulação mas “o mercado”. Uma nova crise bancária pode significar o toque de finados para nuestros hermanos.
Abril 12, 2010
A Imprensa e o Mercado
O André Abrantes Amaral e o Luís Naves andaram a trocar posts sobre o futuro da imprensa que reflectem duas visões muito distintas do tema. Enquanto o André basicamente defende uma imprensa especializada, o Luís Naves defende uma imprensa paga. Enquanto o André acha que os jornais deviam dar aos leitores o que eles querem e cobrar por isso, o Luís Naves vê os jornais como um bem público.
Esta visão do Luís Naves parece assentar num facto que, segundo ele, é incontornável: produzir informação é caro, logo consumir informação tem de ser caro. A mim parece-me que o problema reside precisamente aí. Enquanto o modelo de negócio informativo assentar numa lógica “preço=custo+margem” está condenado, tal como todos os outros modelos que se orientam por esse princípio. O preço de um determinado serviço, num mercado concorrencial, é determinado pelo mercado, não pelos custos de produção desse serviço. Se o preço não chega para cobrir os custos actuais, só restam duas alternativas: aumentar a procura e/ou reduzir a oferta.
Acontece que o Luís Naves acha importante manter a diversidade da imprensa, o que é um princípio razoável mas que impede o ajustamento pelo lado da oferta. Por outro lado, acha que é impossível reduzir custos, logo, o preço, sem afectar a qualidade. A mim parece-me sobretudo que os donos dos jornais precisam de se esforçar mais. Provavelmente a solução vai exigir verdadeira inovação e não uma tentativa de recuperar uma certa inocência perdida, voltando a cobrar por conteúdos. Mesmo porque essa via para a salvação está longe de ser evidente.
Nesta matéria, tal como em muitas outras, recorrer à nostalgia ou à noção de bem público é apenas uma bengala que atrasa o processo que nos vai levar a um novo equilíbrio. Como se isso não bastasse, acreditar que se os potenciais clientes não chegam para pagar os jornais, alguém vai ter de os pagar, a bem da comunidade, parece-me algo indigesto. Afinal de contas, foi com base nesse tipo de raciocínios que demos por nós a pagar o salário do Fernando Mendes. Salvou-o a ele mas por nós fez muito pouco.
Sectores estratégicos – Empresas públicas
De facto é estratégico para o Estado deter as empresas que detém. Este governo mostrou toda a utilidade que pode ser retirada de um sector público forte e das empresas cujo controle é “absolutamente estratégico”. Para que serve:
1. Função de encobrimento: Atira-se para aí todo o lixo contabilístico e o máximo de dívida aceite pela estrutura de capital. Quando esta é alcançada dá-se o aval do Estado. As agências de rating olham para os avais mas a UE não.
2. Função de Financiamento: Usam-se para financiar e beneficiar todas as empresas ou indivíduos que demonstraram ter “mérito” para o partido no poder. Para os menos entendidos o “mérito” mede-se pelos benefícios dados ao partido e aos seus principais dirigentes (não necessariamente por esta ordem), ou as contrapartidas que podem ser retiradas no futuro como resultado dessas benesses.
3. Função de distribuição: Para distribuir riqueza directamente via salários e afins aos principais agentes do partido.
O objectivo deve ser demonstrar a quem tem o poder do voto, cada um de nós, que é para isto que servem as empresas controladas pelo Estado e não para tudo o resto que serve de leitmotif para papalvos engolirem.
Maningâncias
No i
A maior parte do encaixe do Estado com a venda de imóveis em 2009 resulta de alienações a uma empresa da Parpública, detida a 100% pelo Estado
Imaginem se fosse um privado a tentar este tipo de truques contabilisticos?
O custo da ajuda europeia
O Governo alemão veio hoje reforçar a ideia de que está “pronto” para socorrer a Grécia. Mas avisa: uma ajuda da comunidade internacional poderá ser acompanhada da imposição de novas medidas de austeridade e só será accionada quando a Zona Euro estiver convencida de que Atenas está sem alternativas para se financiar.
Tavares Moreira (Quarta República)
A Grécia, depois de uma fase inicial em que se fartou de barafustar, suplicando que a ajudassem, parece agora algo relutante em avançar com um pedido formal de apoio (…).Será que os Gregos pensam agora que a ajuda financeira dos seus Pares iria acabar virtualmente com a independência da sua política orçamental, ficando sujeitos a uma rígida tutela financeira EU-FMI? Será que os Gregos receiam ficar completamente espartilhados nas suas decisões de política orçamental, tendo que passar a obedecer estritamente aos ditames dos seus Pares (transmitidos pelo FMI para não parecer tão mal) e ainda por cima sujeitos a sanções por quaisquer desvios aos objectivos de redução de défice rigidamente estabelecidos e implacavelmente policiados? Acrescendo que pode muito bem vir a tratar-se de uma tutela financeira para durar por muitos anos, com todas as contingências de um percurso cheio de acidentes tendo em conta que será imensamente difícil aos Gregos cumprir as metas rígidas de redução do défice orçamental?
Saudosistas do “poder popular”
Há quem ande mortinho por reeditar estes acontecimentos. E há quem lhes dê tempo de antena.
Os herdeiros da aristocracia
A velha aristocracia europeia era caracterizada por desconsiderar o valor do trabalho e por assumir adquirir certos direitos positivos apenas pelo facto de ter nascido.
Ao contrário do que os mais ingénuos possam pensar, não é a direita mas a esquerda europeia a herdeira dos velhos ideais aristocráticos, projectando-os para a sua visão de sociedade. As auto-denominadas forças políticas de defesa dos trabalhadores são as que menos respeitam o valor do trabalho. É das organizações de esquerda que surgem imposições ao número de horas de trabalho semanais, limites às horas extras, salário mínimo e redução de idade de reforma. São também as forças de esquerda que mais se opõem aos estabelecimento de objectivos na função pública. Toda a política de emprego da esquerda tem subjacente a noção de indignidade do trabalho – tendo como única excepção o trabalho artístico que, tal como com a velha aristocracia, é digno desde que se enquadre nos seus padrões específicos de qualidade. Não é por isso surpreendente que a esquerda venha agora fazer o paralelo entre a medida proposta por PPC de colocar os beneficiários de prestações sociais a trabalhar para serviços públicos e uma punição a criminosos. Para a esquerda, o salário é um direito, mas o trabalho é isso mesmo: um castigo.
Um país lento
Parece que Sócrates 2.0, ontem, num congresso, citou Alice no País das Maravilhas. Lembrei-me desta passagem do mesmo livro outro Alice:
(…) ‘Um país lento!’ disse a Rainha Vermelha. ‘Como vês, aqui precisas correr tão rápido quanto puderes para ficares no mesmo sítio. Se queres chegar a algum lado tens de correr pelo menos duas vezes mais rápido!’ (…)
Receio que ainda não vai ser desta que vamos ver alguém a correr duas vezes mais rápido. Aliás, se antes das eleições do PSD ficámos com a certeza de que o próximo Primeiro-Ministro de Portugal vai ser um socialista (resta saber de que partido), agora receamos estar perante uma escolha entre duas versões do “engenheiro”. Claro que o novo líder do PSD tem tempo para desfazer estes equívocos, se o forem. Podia começar, por exemplo, por enxotar a matilha de “abrantes” que há vários meses o rodeia.
Ron Paul
Depois de em Fevereiro ter vencido o Conservative Political Action Conference’s straw poll, Ron Paul ficou em segundo lugar nas preferências do Southern Republican Leadership Conference tendo perdido para Mitt Romney por apenas um voto.
E agora? (2)
Um sério aviso para Portugal (e não só) no Baseline Scenario
[T]here is still definite risk of contagion. The actions of the EU show they are willing to intervene when yields get up to 7-8% on long term debt and markets close off to a nation.
What does this really mean for Portugal or Ireland? People holding Greek debt lost a lot of money in the last few months. That will not come back soon, as markets will for a long time be wary of buying their debt (…)
The Portuguese therefore are not at all out of the woods. If they do not start making serious moves towards cutting their deficit, they are next for a test.
Surely the eurozone will bail Portugal out also – but where would it stop after that? The stronger Europeans, by coming to Greece’s rescue at this time with little conditionality, are effectively showing all the weaker nations that they too can get a package. This will undoubtedly reduce the resolve for needed fiscal reforms across the European periphery.
E agora?
Nós precisaríamos de uma ajuda inferior à da Grécia, pelo que é muito improvável que ela não se materializasse, mas uma ajuda a Espanha seria tão volumosa que, essa sim, se poderia tornar proibitiva.
A quota de Portugal nestes empréstimos será de 775 milhões de Euros (só para 2010) o que vem acrescer às nossas necessidades de financiamento. Isto se a Grécia ficar por aqui…
Ninguém nos compara à Grécia
Estejam descansados.
A boa fatwa
The US government has authorised the capture or killing of radical Muslim cleric Anwar al-Awlaki, currently based in Yemen, officials have confirmed.
The cleric, who is a US citizen, is being targeted for his involvement in planning attacks on the US.
[...]
The BBC’s Steve Kingstone, in Washington, says it is highly unusual for the CIA to be given approval by the president’s National Security Council to target a US citizen.
The order was made by the Obama administration earlier this year, but it has just been revealed after a review of national security policy.
BBC News, com negrito meu.
Nova Cidadania
Na última edição da revista Nova Cidadania, um artigo de André Azevedo Alves em co-autoria com José António Carpinteiro: “O Estado Social e os Desafios da Regulação Independente”
O futuro da imprensa escrita
No seu artigo publicado no Público, na sexta-feira passada, José Manuel Fernandes teve a gentileza de referir os ‘posts’ que eu e o Luís Naves trocámos sobre o futuro da imprensa escrita. Não me vou alongar mais sobre este tema. Aproveito apenas para chamar a atenção do seguinte: É muito provável que estejamos a assistir, com a evolução rápida da internet, das redes sociais e, caso maquinetas como o iPad sejam bem sucedidas, a uma revolução da comunicação ao nível da invenção da imprensa por Gutenberg. Não me vou pôr a adivinhar, pois se tivesse capacidades para isso, fá-lo-ia em actividades mais lucrativas, mas não me surpreenderia que, dentro de anos, os jornais não sejam mais lidos em papel.






