Artigo de Fernando Gabriel no Diário Económico
Como Pascal Bruckner argumentou no ensaio La tyrannie de la pénitence (Paris, 2006) as ideologias seculares que dominam por completo a discussão intelectual europeia apropriaram-se do sentimento de culpa imanente à cultura judaico-cristã e perverteram-no com uma finalidade política destrutiva. Nesta deturpação secular da teologia, o estatuto de vítima ressuscita a categoria religiosa do amaldiçoado, estimulando o aparecimento de inúmeras congregações de sofredores e estigmatizados que competem pelo rendimento moral proporcionado pelo sofrimento, num fraccionamento neo-tribal destruidor da condição civil. Os judeus, tendo cometido o crime imperdoável de afirmar o seu desejo de existir sem prévia autorização dos europeus, viram o seu privilégio de vítimas históricas ser-lhes revogado e transferido para o “palestiniano”, por ser aquele que corporiza de forma cristalina o ódio ao ocidente, como admitiu Jean Genet. A admissão pública do pecado, típica do protestantismo evangelista, foi transformada numa culpa generalizada, difusa e permanente pelo passado histórico europeu, exumado e colocado perante o tribunal intelectual de uma casta pseudo-clerical e condenado por crimes imprescritíveis, de colonialismo, imperialismo ou “genocídio”. Gerações de europeus são educadas na genuflexão rotineira sob o peso desta pretensa culpa, enquanto a oligarquia intelectual, autênticos atletas da contrição, como lhes chamou Bruckner, administra com zelo e entusiasmo os rigores penitenciais. Como Bento XVI pretende restaurar a autoridade ética e intelectual da Igreja Católica, tornou-se num Papa perigoso para os atletas da contrição: vale tudo para o desacreditar, até ameaçá-lo de prisão