O Insurgente

Abril 21, 2010

Nietzsche, Freud, Marx (e Tocqueville)

Filed under: Política,Teoria — Miguel Noronha @ 08:53

Paulo Tunhas no i

Nos meados da década de 70 do século passado, um adolescente que pretendesse penetrar os arcanos da política, do sexo e da moral ia quase fatalmente parar a Marx, Freud e Nietzsche. Ou então a derivados, como Reich ou Marcuse – Bataille e Debord para espíritos mais sofisticados. Não pretendo que o resultado fosse esplêndido; muito pelo contrário. Saía dali uma salada próxima da ininteligibilidade, mas que possuía, estranhamente, alguma coerência.(…)

Hoje sabe-se que era Tocqueville quem tinha razão e que as sociedades democráticas caminham quase fatalmente para a absoluta regimentação e uniformização da vida, ameaçando a liberdade. Mas naquela altura não era o tempo, nem a idade, de o conhecer.

5 Comentários »

  1. “as sociedades democráticas caminham quase fatalmente para a absoluta regimentação e uniformização da vida, ameaçando a liberdade. Mas naquela altura não era o tempo, nem a idade, de o conhecer.”

    Imagino que quem lesse o Marcuse ou o Debord também chegasse mais ou menos a essa conclusão, ainda que por um caminho diferente.

    Comentário por Miguel Madeira — Abril 21, 2010 @ 09:41

  2. Bom texto.
    De facto, Nietzsche, o criador do “Anti-cristo”, do “Assim Falava Zaratustra”, do “Para Além do Bem e do Mal”, do “Crespúsculo dos Deuses (ou Idolos) etc, não é ensinado nas faculdades, não porque não tenha génio, não porque o seu pensamento não seja profundo, mas simplesmente porque crítica a moral judaico-cristã, matriz da nossa (pobre) cultura.
    De facto Nietzsche, que gostaria que o homem se transcendesse sempre, que fosse um Super-Homem, critica a filosofia cristã que nega esta ambição. A filosofia cristã promove a resignação em vez da ambição ( bem dito os que sofrem, os que nada têm, porque deles será o reino do Céus), a cobardia em vez da coragem (quanto te baterem dá a outra face), a virtude da pobreza em vez da procura da riqueza (é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar nos reino dos Céus), a humildade em vez da determinação etc.
    Tudo isto Nietzsche critica, porque tudo isto retira a vontade, a motivação, os incentivos ao homem e o afasta da transcêndência, da sua própria superação.
    O Estado moderno baseia-se nesta filosofia da resignação, e cresceu de tal forma que retirou espaço ao indivíduo, que não precisa de fazer (quase) nada, não precisa de se superar, realizando ele próprio as suas motivações e preferências (empreendendo) porque o Estado faz isso por ele, substitui-o (quase) completamente. E ele deixa porque o Estado o convenceu que o Estado sabe mais do que ele, que o Estado é omnisciente (tal como Deus), e melhor, que é benevolente, isto é, que decide sempre considerando o interese do indíviduo (o interesse público) e não o seu próprio interesse (o interesse de grupo do partido, dos burocratas).
    Ou nas palavras de Nietzsche a propósito do ele chama de um novo ídolo:
    «O Estado é o mais frio dos monstros frios. É frio mesmo quando mente; e é esta mentira que sai da sua boca: ” Eu, o Estado, sou o povo”.
    (..) o Estado sabe mentir em todas as línguas acerca do bem e do mal; e mente em tudo o que diz; e tudo o que tem, roubou-o.
    Tudo nele é falso; morde com dentes postiços, esse mordaz. Até as suas entranhas são falsas.(…)
    O Estado foi inventado para os supérfluos. Vede como atrai os supérfluos! Como os engole e os mastiga e volta a mastigar!
    “Não há nada maior do que eu sobre a terra; eu sou o dedo soberano de Deus” – ruge o monstro. (…)
    Dar-vo-ás tudo na condição que o adoreis; comprará por este preço o brilho da vossa virtude e o olhar dos vossos olhos altivos. (….)
    Onde acaba o Estado começa o homem que não é supérfluo; onde acaba o Estado começa o canto da necessidade, a melodia única, insubstítuível.
    Onde acaba o Estado -reparai meus irmãos! Não distinguis o arco-iris e as pontes que levam ao Super-Homem?
    Assim falava Zaratustra»
    (Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Ediclube, pg. 46-48).

    É neste preciso sentido que Tocqueville tinha razão.
    Um manifesto: deixam o homem, o individuo, realizar-se a si mesmo plenamente, sem tutelas pseudo-ominiscientes e benevolentes; deixem o indivíduo realizar o seu potencial, os seus sonhos, entre iguais que também pretendem realizar por si os seus anseios. Não deixem que o Estado, qualquer Estado, vos substitua, a não ser que sejais vós, CADA UM DE VOS CONSIDERADO INDIVIDUALMENTE, o próprio Estado.
    Sede felizes,
    Com muita amizade,
    José Fernandes Soares

    Comentário por Pi-Erre — Abril 21, 2010 @ 15:10

  3. eu suspeito porque a razão porque não se fala muito de Nietschze não tem nada a ver com isso, mas com a ideia feita (verdadeira ou falsa, é irrelevante) de que Hitler se teria inspirado nela

    Comentário por Miguel Madeira — Abril 21, 2010 @ 15:47

  4. Junto mais esta achega à discussão(infelizmente não sei quem é o autor)
    “A democracy is always temporary in nature; it simply cannot exist as a permanent form of government. A democracy will continue to exist up until the time that voters discover that they can vote themselves generous gifts from the public treasury. From that moment on, the majority always votes for the candidates who promise the most benefits from the public treasury, with the result that every democracy will finally collapse due to loose fiscal policy, which is always followed by a dictatorship.”

    Comentário por ricardo saramago — Abril 21, 2010 @ 16:01

  5. “Nos meados da década de 70 do século passado, um adolescente que pretendesse penetrar os arcanos da política, do sexo e da moral ia quase fatalmente parar a Marx, Freud e Nietzsche.”

    Nietzche era aí uma carta bem foa do baralho, não?

    “1.“as sociedades democráticas caminham quase fatalmente para a absoluta regimentação e uniformização da vida, ameaçando a liberdade. Mas naquela altura não era o tempo, nem a idade, de o conhecer.”

    Imagino que quem lesse o Marcuse ou o Debord também chegasse mais ou menos a essa conclusão, ainda que por um caminho diferente.”

    Com toda a humildade creio que não é preciso queimar pestanas com nenhum desses senhores para nos apercebermos desse facto, que, se não está à vista de todos, é porque muitos se banqueteiam à custa das ditas “sociedades”.

    Comentário por Cocas — Abril 21, 2010 @ 17:12


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