O Pedro Arroja não sabe que um produto de uma cultura católica e mediterrânica, como eu, não tem qualquer desejo de “matar o pai”? (Encontrará a razão se sair da “caixa” onde se meteu; ou, think out of the box, como se diz em estrangeiro.) Isso são teorias de ambientes judaico-luteranos.
Abril 11, 2010
14 Comentários »
RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI
Carlos, em “ambientes judaico-luteranos” os filhos não têm qualquer necessidade de “matar o pai”, pela simples razão de que os país “libertam” os seus filhos bem cedo. Cada um segue o seu caminho em paz e livremente. Mas essa é a resposta ao post humilhante do PA? Tá bem…
Comentário por Renato — Abril 11, 2010 @ 20:26
Olhe, que não, Renato, olhe que não. Não me parece que essa seja a abordagem mais correcta ao tema. Nem vou dar a referência óbvia, mas pense, por exemplo, no pobre “Gregor Samsa”. (Também posso fazer generalizações, ou não?)
(Humilhante!, para quem? Olhe, não leve estas coisas tão a sério.)
Comentário por Carlos M. Fernandes — Abril 11, 2010 @ 22:08
Eu acho que o post do PA foi um elogio
Comentário por Helder — Abril 11, 2010 @ 23:23
O Carlos pode fazer generalizações e faz. Fazemos todos sempre. O “matar o pai” é uma imagem simbólica que representa a libertação de uma figura tutelar e autoritária, mais ligada à tradição católica e mediterrânica. Não há nada de mal nisso, desde que se assuma naturalmente. Não há nada de violento nisso. Obviamente, também existem situações “localizadas” em que isso acontece noutras culturas.
Carlos, eu, pessoalmente, nunca levo o Pedro Arroja a sério. Mas tem de convir que se aquele paleio arrogante, do alto da burra, viesse de outro quadrante, da esquerda, a sua resposta teria sido outra.
Comentário por Renato — Abril 12, 2010 @ 10:23
Na minha opinião, a estrutura familiar católica e mediterrânica é mais complexa, e nem sempre a figura tutelar está no Pai. A figura paterna na cultura judaico-luterana (germânica, talvez seja mais correcto) é muito forte, pelo menos para o filho varão (não se esqueça que, na tradição, é aquele que herda o património, o responsável pela continuidade da tradição familiar).
(Não sei se percebo em que sentido poderia ser diferente a minha resposta caso o paleio viesse da esquerda. Seria diferente, claro, porque o conteúdo não seria o mesmo. Mas tendo em conta de quem estamos a falar, estas questões de esquerda-direita não são tão simples como parecem…)
Comentário por Carlos M. Fernandes — Abril 12, 2010 @ 10:47
Caro Carlos,
no interior das famílias portuguesas a autoridade da mulher é muito forte. De acordo com uma psicanalista portuguesa, da qual não me recordo o nome, a mulher «manda» nas famílias lusitanas. E conheço vários casos de famílias onde isso sucede: a mulher toma unilateralmente a decisão, mas quem a enuncia é o marido. Talvez sejamos uma sociedade mais «feminina» do que pensamos…
Comentário por Luis — Abril 12, 2010 @ 11:09
Luis, isso é exactamente aquele dito: cá em casa manda ela, e nela mando eu. Conhece? Nem mais, nem menos. O Povo sabe bem quais as suas próprias características… A mulher é a gerente, tem a gestão corrente
. Isso de a mulher tomar unilateralmente a decisão (em coisas importantes) é coisa recente, contaminação de outras latitudes. Até à pouco tempo, a única decisão unilateral que a mulher tomava era a ementa para o almoço e a escolha da roupa para os filhos. A morada de familia e a aplicação financeira do dinheiro era com o homem. Se a mulher só há relativamente pouco tempo começou a ter independência financeira, como acha que poderia ser diferente? Mas admito perfeitamente que em certos meios seria diferente.
Carlos, essa do filho varão herdar tudo, é coisa que já acabou, tanto na tradição católica como na protestante. Já não é assim em lado nenhum como se sabe. Entretanto, os filhos da cultura judaico-luterana foram ganhando, mais rapidamente, desde há muito mais tempo, uma maior autonomia em relação às finanças familiares paternas. Os putos saem de casa logo que atingem a maioridade e às vezes antes, e não ficam à espera do património familiar. Pelo contrário, são incentivados a criar o seu. No nosso caso, esse processo tem sido mais lento. somos diferentes…
Comentário por Renato — Abril 12, 2010 @ 11:52
Luís, é verdade, e o próprio Pedro Arroja sabe, e refere várias vezes, isso. Por isso se estranha a obsessão com a ideia de “matar o pai”. Contaminação do pensamento com o paradigma protestante?
Renato, claro que já acabou. Como já acabaram muitas coisas da cultura católica que o PA gosta de evocar (e bem, muitas vezes). Isso não significa que não estejam ainda presentes na(s) cultura(s).
Comentário por Carlos M. Fernandes — Abril 12, 2010 @ 12:03
A questão da independência financeira e emocional dos jovens na Europa Média e do Norte é muito evidente. Em Portugal observo o seguinte:
- tendência para escolher o curso e o estabelecimento de Ensino Superior de acordo com o critério proximidade em relação à casa dos pais, menosprezando o prestígio e a qualidade do ensino (é certo e sabido que as nossas universidades estão regionalizadas);
- entrada muito tardia no mercado de trabalho: são muito poucos os estudantes universitários que trabalham em part-time e estudam em simultâneo;
- pouca mobilidade laboral interna: por exemplo, há perto de 4000 enfermeiros no desemprego no Norte mas falta destes profissionais no Algarve e Alentejo, ou seja, os jovens preferem ficar a trabalhar na terra natal e desprezam o elevador social;
- saída tardia da casa dos pais: há dados estatísticos recentes que demonstram que os portugueses são um dos povos onde os jovens abandonam mais tardiamente a habitação da família.
Por oposição, os meus contactos com a realidade britânica, holandesa ou suíça revelaram que:
- mesmo que não frequentem a universidade, muitos jovens abandonam a casa dos pais e ficam financeiramente independentes dos progenitores por volta dos 18 anos;
- após a conclusão do Ensino Superior raramente voltam para casa dos pais;
- é comum os jovens universitários trabalharem em part-time, mesmo quando pertencem a famílias com posses;
- a universidade e o curso são escolhidos de acordo com o prestígio, vocação, qualidade do ensino e reconhecimento do mercado de trabalho e não tanto de acordo com o critério proximidade;
- prioridade dada à ascensão profissional e não à compra de casa (opção pelo arrendamento), de carro e de procura de emprego na terra natal.
É claro que esta falta de independência dos jovens adultos em relação às famílias tem influências negativas na sociedade portuguesa: falta de mobilidade social, espírito de iniciativa privada, apreço pelo risco, cultura de liberdade e responsabilidade individual, etc. E depois, há a «economia dos afectos», tão lusitana, que chega ao Estado Central, «o grande pai»… Contudo, com este discurso não pretendo de forma alguma atacar a família, mas sim algumas particularidades negativas da família portuguesa. Os espanhóis, por exemplo, já são diferentes.
Comentário por Luis — Abril 12, 2010 @ 13:27
Luís, na Andaluzia, onde vivo há dois anos e meio, não é muito diferente. Talvez a saída de casa não seja tão tardia, porque ainda é uma cultura com um forte componente de “pueblo” (não sei como é em Sevilha, talvez já seja um pouco diferente), e, muitas vezes, sai-se de casa com 14 e 15 anos para estudar, e logo vem a universidade (no entanto, essa saída nunca é completa). Mas, de resto, o retrato que traça de Portugal não anda muito longe da realidade andaluza.
Comentário por Carlos M. Fernandes — Abril 12, 2010 @ 13:44
“Carlos, essa do filho varão herdar tudo, é coisa que já acabou, tanto na tradição católica como na protestante”
A maior parte dos códigos civis obrigaram a partilha da herança por quotas ou afins. Portanto, não se pode falar em “fim de tradição”, mas sim início de uma nova imposição. Pessoalmente, o código civil não tem nada que obrigar a que a herança seja feita desta forma ou aquela.
Comentário por CN — Abril 12, 2010 @ 13:50
Vou reformular a frase: «os espanhóis, por exemplo, já são ligeiramente diferentes» («espanhóis» é pouco correcto, tenho ideia que há diferenças acentuadas entre um catalão, um andaluz ou um galego, e não me estou a referir à língua).
Comentário por Luis — Abril 12, 2010 @ 14:01
Exacto Luís, porque isso eu disse “Andaluzia”. Dentro de Espanha há diferenças, claro. Mas a Andaluzia talvez seja o paradigma da cultura católica e mediterrânica, pelo menos em Espanha.
Comentário por Carlos M. Fernandes — Abril 12, 2010 @ 14:05
Outro exemplo da dependência emocional dos jovens portugueses:
- os estudantes de Medicina lusitanos a estudar em Espanha que optam por fazer Erasmus na faculdade de Medicina portuguesa mais próxima da sua terra natal.
Comentário por Luis — Abril 12, 2010 @ 14:13