(publicado também aqui)
No exercício vagamente deprimente que foi o último Congresso do PSD, foi muito mencionada a ideia de que o partido laranja se prepara para escolher “o próximo Primeiro-Ministro de Portugal”. Apesar de, em parte, esta ser uma declaração mais ou menos de circunstância, típica de gente apostada em “animar as tropas”, mais indicadora da pobreza das cabecinhas que a emitem do que da realidade da cena política portuguesa (tal como a expressão “cena política portuguesa” indica a pobreza da minha), ela é também reflexo de um “estado de espírito” acerca do Governo e do seu futuro imediato: ela reflecte a ideia de que o Governo está como que “ferido de morte”, e que “cairá de podre” mais tarde ou mais cedo, entregando no doce regaço da pobre alma que estiver na presidência do PSD a tarefa de tirar Portugal do rosadinho buraco em que Sócrates e os seus aguadeiros nos afundaram.
Foi essa ideia (e claro, a possibilidade de castigar “aqueles que falam contra o partido”) que animou o Congresso de Mafra, tal como foi essa ideia que penalizou a avaliação do mandato de Ferreira Leite: por várias vezes, nos últimos meses, muito bom e mau analista achou por bem dizer que, perante um Governo tão fragilizado por “casos” e desgastado pela “crise”, só mesmo a suposta inabilidade de Ferreira Leite pode explicar a sobrevivência do regime socrático. A crer nestas “análises”, a solução para os problemas do PSD (e do país) seria fácil: bastaria encontrar um político “hábil”, ou seja, um mentiroso sem escrúpulos como Sócrates, e como políticos mentirosos e sem escrúpulos é o que não falta no PSD, a tempestade estaria próxima do fim.
Não querendo estragar a festa laranja (até porque o próprio partido se encarrega de o fazer), devo dizer que esta ideia de que a total descredibilização do PSD facilita a tarefa do PS é uma ideia profundamente errónea. Aliás, a derrota de Ferreira Leite parece-me ser precisamente uma prova disso. Ao contrário do que o PSD parece pensar, e do consenso generalizado da “inteligência” pátria, quanto mais apodrecido o Governo estiver, mais difícil será pô-lo no lixo.
Em primeiro lugar, porque nem a total describilização é suficiente para o Primeiro-Ministro deixar de se agarrar ao poder como eu gostaria de me agarrar a uma adolescente de qualidade estética superlativa (ou alguém capaz de disparar um bom insulto. Cheguei ao ponto em que já me contento com pouco). Como toda a sua história de vida demonstra, o cheiro de matéria fecal manifestamente não incomoda José Sócrates, que, como o outro senhor de The Wire prefere “to live in shit than to be seen to work a shovel”. Por muito que o seu regime apodreça, Sócrates nunca abdicará livremente do trono que ocupa, e de lá só poderá ser arrancado “à bomba”. “Bomba” essa que o Presidente da República, um senhor reconhecidamente pacífico, não quer largar, e longe vai o tempo (esperemos nós) em que os militares se entregavam a essas actividades. A única “bomba” que poderá ser usada será a dos eleitores nas urnas, mas temo que, quanto mais necessária ela se torne, menor seja a probabilidade deles estarem dispostos ao trabalho de a lançar.
Já antes das eleições de Setembro passado o escrevi: é precisamente o facto de vivermos num clima de “fim de regime” do PS que tornará as coisas mais difíceis para o PSD. Em primeiro lugar, a violência e degradação do debate “excita” os “fiéis”, que por muito desagradados que possam estar com Sócrates, não gostam de ver “um dos seus” ser atacado por “eles”. A podridão do regime fidelizará o PS, que tenderá, até à última hora, a proteger Sócrates como se de uma criança indefesa se tratasse (depois da última hora, a canção será outra).
Em segundo lugar, a demagogia reinante favorece os partidos de protesto, mas pequenos, o que estranhamente, acaba por favorecer o PS. O ódio a Sócrates não se traduz forçosamente no voto no PSD, podendo mais facilmente deslocar-se para o CDS ou até para o BE, partidos dados à berraria que faz o gosto do povo. É difícil a um partido que quer ser governo fazer oposição num ambiente político degradado, porque aquilo que pode motivar a conquista de votos (essa mesma degradação do regime do momento) é também aquilo que faz com que as pessoas tenham uma maior predisposição para votar em quem faz barulho, só por fazerem barulho. A degradação do Governo do PS acaba por retirar votos, não apenas ao PS, mas também ao PSD.
Até porque a podridão do Governo, arrastando consigo a desconfiança dos eleitores, traz também uma desconfiança não apenas em relação ao Governo, mas em relação à alternativa. Um Governo que mente, que manipula, que esconde e que parece corromper e estar corrompido, faz com que os eleitores, muito sabiamente, desconfiem de todo e qualquer político que lhes peça a sua confiança. Porquê confiar “nestes”, só porque nos dizem que vão ser diferentes? Os “outros” disseram “o mesmo”, e “foi o que se viu”. A desconfiança dos eleitores em relação a este Governo transforma-se, muito rapidamente, numa descrença na palavra de toda a classe política. Quanto pior o PS for, quanto mais degradado o Governo estiver, mais agreste será o clima político para aqueles que queiram promover uma alteração do estado das coisas (deixemos de lado a “mudança” obâmica, ela própria um produto e causa da podridão). Quanto menos as pessoas acreditarem no PS, menos acreditarão na possibilidade de “os outros” serem diferentes. Por muito que me custe, temo que o “próximo Primeiro-Ministro de Portugal” seja precisamente o que lá está hoje.