Novo artigo publicado no OrdemLivre.org: Equilíbrio, eficiência e processo de mercado.
Comparativamente com artigos anteriores, temo que este seja de leitura um pouco menos acessível, especialmente para não economistas e/ou para os não familiarizados com a abordagem da Escola Austríaca. Mesmo assim, foi preciso simplificar bastante para tratar o tema num texto pequeno como o que se pretendia.
Espero que o artigo não sirva apenas para irritar – metodologicamente falando – economistas neoclássicos (ainda que essa seja sempre uma boa causa)…
Está muito bom!
Comentário por Miguel — Março 31, 2010 @ 23:05
Quando vemos a distância que vai dos modelos matemáticos à realidade, temos que nos questionar se não haverá algures uma escola de pensamento alternativo.
Obrigado pela clareza com que expõe a diferença.
Comentário por ricardo saramago — Abril 1, 2010 @ 12:42
Não sei se sou “neoclassico” (não tenho sequer a pretenção de me considerar “economista”) mas é verdade que tenho por vezes uma certa dificuldade em perceber (não é “irritação” … eheheh) em que medida a abordagem (ou as abordagens) da Escola Austriaca é “alternativa” ao conceito neoclassico de equilibrio.
De resto, no artigo, o AAA reconhece que “é possivel apreender alguns aspectos relevantes sobre o funcionamento das economias partindo do conceito neoclássico de equilíbrio” e estou convencido que não se afasta verdadeiramente desta perspectiva quando, a propósito da Escola Austríaca, se refere aos “mecanismos institucionais que possibilitam a própria coordenação económica”. O “equilíbrio” e a “coordenação” não se referem à mesma ideia ?
Sempre me pareceu que os austriacos não contestavam a ideia de equilibrio mas que “apenas” procuraram contribuir para o seu fortalecimento acrescentando-lhe aspectos ainda não teorizados.
Esses aspectos diriam sobretudo respeito à complexificação (nem sei se a palavra existe mas julgo que se percebe) do modelo : o tempo, a incerteza, a dispersão e imperfeição da informação, os limites do conhecimento racional, etc.
O modelo assim complexificado torna ainda mais claro aquilo que os “neoclassicos” já sabiam, isto é, que o equilibrio não é um ponto de chegada estatico mas que tem de ser antes visto como uma realidade dinamica, em permanente mudança, uma tendencia permanente e nunca alcançada.
Com é óbvio esta complexificação não tem nada a ver com as críticas da teoria neocássica baseadas no argumento de que as economias reais nunca tendem para hipotéticos pontos de equilibrio puro e perfeito. Nunca os neoclássicos pretenderam que tal fosse o caso. Antes pelo contrário. De resto, foram os próprios neoclássicos os primeiros a desenvolver as teorias sobre as imperfeições dos mercados.
Ou seja, os neo-clássicos não ignoravam que os mercados podem atingir equilíbrios que são imperfeitos, instáveis e precários.
Agora, nada disto anula a ideia de que o conceito de equilibrio puro continua a ser indispensável para se poder perceber o funcionamento dos mercados, mesmo imperfeitos, e para se determinarem as condições institucionais de uma maior eficiência económica (incluindo aqui a inovação, a estabilidade, a “justiça”, e muito mais), que sabemos decorrerem da liberdade apenas limitada por regras gerais não discricionárias.
Comentário por Fernando S — Abril 1, 2010 @ 18:48
Ludwig Von Mises, que não é certamente um economista menor da Escola Austríaca, escreveu (A Acção Humana ; tr.fr. pp 249-251) :
“O método específico da economia é o método dos modelos imaginários…. O modelo teórico de uma economia pura e sem entraves supõe que … o mercado é livre, não há ingerência de factores exteriores ao mercado, quanto aos preços, aos salários, às taxas de juro. Partindo destas hipóteses, procura-se elucidar o funcionamento de uma economia pura de mercado. É apenas num estádio ulterior, depois de se ter tirado tudo o que se pode aprender deste modelo imaginário, que a ciência económica se volta para o estudo dos diversos problemas levantados pela ingerência nos mercados do poder do Estado e de outras organizações que utilizam o constrangimento e a intimidação. É surpreendente que este procedimento lógicamente intocável e o único que permita resolver o problema em questão tenha sido tão fortemente atacado…[Estes críticos] contestam que o conhecimento da realidade possa avançar com base nesta construção imaginária…. Não há obviamente nenhum outro meio disponível para esclarecer o significado de uma medida limitadora do livre jogo dos factores que agem num mercado sem entraves que não seja primeiro através do estudo do que se passa num regime de liberdade económica.
…
O que torna necessário o recurso a esta construção imaginária é o facto de o mercado tender em permanência para um estádio final de repouso.
…
O preço correspondente a este [] estado de repouso era designado como “preço natural” pelos antigos economistas. Hoje utiliza-se muitas vezes o termo “preço estático”. … [Os preços são normalmente designados por preços estáticos ou de equilíbrio]…. Este estádio final de repouso é uma construção imaginária, não é uma descrição da realidade, nunca será alcançado.
…
O método estático, a construção imaginária de uma economia em regime constante, e o único adequado à análise das mudanças, grandes ou pequenas, repentinas ou graduais.
Comentário por Fernando S — Abril 1, 2010 @ 18:49
“Sempre me pareceu que os austriacos não contestavam a ideia de equilibrio mas que “apenas” procuraram contribuir para o seu fortalecimento acrescentando-lhe aspectos ainda não teorizados.
Esses aspectos diriam sobretudo respeito à complexificação (nem sei se a palavra existe mas julgo que se percebe) do modelo : o tempo, a incerteza, a dispersão e imperfeição da informação, os limites do conhecimento racional, etc.”
Fernando,
A questão é mais sobre a impossibilidade de alguns elementos cruciais serem incorporados em modelos do tipo neoclássico.
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 1, 2010 @ 19:07
“De resto, foram os próprios neoclássicos os primeiros a desenvolver as teorias sobre as imperfeições dos mercados.”
O problema é que essas teorias sobre imperfeições partem de uma noção extremamente problemática sobre o que seria a “perfeição”. Parte desses problemas resultam da noção neoclássica de equilíbrio e foi isso que tentei tratar no texto.
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 1, 2010 @ 19:09
“Agora, nada disto anula a ideia de que o conceito de equilibrio puro continua a ser indispensável para se poder perceber o funcionamento dos mercados”
Como escrevi, não nego que o conceito pode ser útil. Mas pode esconder mais do que o que revela.
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 1, 2010 @ 19:10
“Ludwig Von Mises, que não é certamente um economista menor da Escola Austríaca”
Não só não é um economista menor como é na minha opinião o mais importante economista de sempre (independentemente de escolas de pensamento).
Agora, também não foi por acaso que referi Hayek e Kirzner mas não Mises.
Mas ainda assim, acho que fui moderado neste aspecto, já que também não referi (nem subscrevi as posições de) Lachmann.
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 1, 2010 @ 19:13
Caro André,
Antes de mais, parabéns pelo excelente artigo, que em poucas linhas reflete sobre uma problemática teórica interessante.
AAA :
“Como escrevi, não nego que o conceito pode ser útil.”
“…acho que fui moderado neste aspecto, já que também não referi (nem subscrevi as posições de) Lachmann.”
Reconheço e aprecio a moderação.
Não pretendo negar as diferenças conceptuais que possam existir, inclusivé no seio da própria Escola Austriaca.
Apenas não me sinto confortavel com a ideia de que a perspectiva austriaca seja no conjunto vista como uma “alternativa” ao conceito neo-classico de equilibrio. Vejo-a mais como complementar, como um desenvolvimento, como uma complexificação do mesmo modelo.
Lachmann e Shackle, que refutam categoricamente a utilidade do conceito de equilibrio, são precisamente as excepções que confirmam a regra.
AAA :
“A questão é mais sobre a impossibilidade de alguns elementos cruciais serem incorporados em modelos do tipo neoclássico.”
“O problema é que essas teorias sobre imperfeições partem de uma noção extremamente problemática sobre o que seria a “perfeição”.
“Mas pode esconder mais do que o que revela.”
Não digo que não. Não sou especialista nem tenho preconceitos na matéria.
Mas é precisamente o que se trata de explicar …
De qualquer modo, reconheço que não são assuntos que se possam abordar aqui facilmente e em pouco tempo e espaço.
Para continuar …
Comentário por Fernando S — Abril 2, 2010 @ 00:19
Sendo certo que a dita “economia neo-classica” é um grande saco onde se mete muita coisa…
É verdade que a versão walrasiana do equilibrio geral, ao priviligiar e ao ficar-se pela metodologia dos modelos matematicos, concentrou-se unicamente no equilibrio final e nas suas condições formais, acabando por descurar a análise dos processos de mercado pópriamente ditos, a formação dos estados de equilíbrio e as mudanças que determinam estados diferentes.
Outros economistas, sem se condicionarem pelo formalismo matemático, quando muito utilizando-o apenas para sistematizar algumas ideias, foram mais longe e procuraram explicar lógicamente o modo como os agentes económicos interagem e, assim fazendo, involuntáriamente criam o mercado e determinam a tendência deste para um equilíbrio. Mesmo que na realidade empírica este equilíbrio não seja seja puro e perfeito, não seja realizado e reproduzido no tempo.
Os economistas da Escola Austriaca deram sem dúvida contribuições importantes neste sentido.
Dito isto, é importante não perder de vista que a crítica do liberalismo económico assenta muitas vezes na ideia de que uma economia de mercado com um elevado nível de liberdade não é autoregulável.
Uma das linhas de argumentação deste tipo de crítica é empírica : “vejam as crises, e os disfuncionamentos, e as desigualdades, etc que as economias de mercado contemporâneas provocam…”. A resposta, também ela empírica, é a de recordar uma evidência, a de que as economias modernas são instáveis e disfuncionais precisamente porque o mercado está ainda altamente entravado pelo intervencionismo estatal.
Uma outra linha de argumentação é mais teórica e procura demonstrar que uma economia de mercado é tendencialmente desequilibrante e precisa por isso de uma forte e permanente intervenção do Estado. É esta linha que desde há muito critica o conceito de equilibrio dito puro e perfeito dizendo que se trata de uma ficção, assente em hipóteses que não têm nada a ver com a realidade.
Este tipo de crítica confunde, muitas vezes deliberadamente, a função teórica do conceito de equilibrio puro e perfeito com a percepção empírica dos fenómenos de mercado. No fim de contas, não percebe, ou não pode perceber, que este conceito teórico é indispensável para se poder compreender o funcionamento do mercado e o modo como o intervencionismo estatal afasta a economia de uma maior eficiência e bem estar.
Não me parece que a melhor defesa da posição liberal seja a de aceitar este tipo de critica – que o conceito de equilibrio puro de mercado está errado – e procurar mostrar que o liberalismo económico pode ser defendido sem ele.
Porque continuo a pensar que este conceito é fundamental e pode ser defendido em si.
Porque defender o liberalismo económico sem este conceito me parece muito mais difícil.
Comentário por Fernando S — Abril 2, 2010 @ 10:57
O mais importante sinal de prudência contra o equilíbrio geral é que em equilíbrio, a moeda, a sua procura quantitativa e oferta quantitativa, não tem sequer existência.
Os neo-clássicos resolvem isso com um banco central gerido centralmente que mantêm os preços constantes e neutrais, onde a moeda é um mero “numeraire”. Mas isso é irrealista, em especial tendo em conta que nesse modelo, a oferta de moeda aumenta com o aumento do crédito., razão primeira para o desequilíbrio que forma os ciclos económicos de expansão e e recessão.
Depois vemos economistas a tentarem explicar os desequilíbrios por explicações psicológicas, não económicas, tipo, a euforia, o animal spirits, etc. Ver
Comentário por CN — Abril 2, 2010 @ 12:26
“Apenas não me sinto confortavel com a ideia de que a perspectiva austriaca seja no conjunto vista como uma “alternativa” ao conceito neo-classico de equilibrio. Vejo-a mais como complementar, como um desenvolvimento, como uma complexificação do mesmo modelo.
Lachmann e Shackle, que refutam categoricamente a utilidade do conceito de equilibrio, são precisamente as excepções que confirmam a regra.”
Fair enough. Eu próprio não estou muito longe dessa posição. E aprecio algum do trabalho de economistas neoclássicos, desde que devidamente enquadrado do ponto de vista das respectivas limitações metodológicas e implicações em termos de economia política.
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 2, 2010 @ 13:44
“Sendo certo que a dita “economia neo-classica” é um grande saco onde se mete muita coisa…”
Também é verdade. No meu artigo na RPF simplifico um pouco menos nesse aspecto mas mesmo assim é difícil evitar a tal abordagem do saco e em alguns casos pode ser injusta.
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 2, 2010 @ 13:46
“A resposta, também ela empírica, é a de recordar uma evidência, a de que as economias modernas são instáveis e disfuncionais precisamente porque o mercado está ainda altamente entravado pelo intervencionismo estatal.”
Lá está, numa perspectiva austríaca, eu diria que as economias são instáveis pela própria natureza da economia e que o processo de mercado é a melhor forma de lidar com essa “instabilidade” (e incerteza, complexidade, etc).
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 2, 2010 @ 13:48
“Não me parece que a melhor defesa da posição liberal seja a de aceitar este tipo de critica – que o conceito de equilibrio puro de mercado está errado – e procurar mostrar que o liberalismo económico pode ser defendido sem ele.”
Tentei não colocar tanto a questão em termos de defesa de posições normativas (até porque não é esse o objectivo da generalidade dos economistas). Mas mesmo aí, o que me parece é que uma defesa do liberalismo que assente principalmente no conceito neoclássico de equilíbrio tenderá a ser extremamente frágil.
Comentário por André Azevedo Alves — Abril 2, 2010 @ 13:50
[...] No seguimento do meu mais recente artigo publicado no OrdemLivre.org – Equilíbrio, eficiência e processo de mercado – uma discussão interessante aqui. [...]
Pingback por Equilíbrio, eficiência e processo de mercado | OrdemLivre.org/blog — Abril 2, 2010 @ 13:54
Estão a esquecer uma das bases dos pressupostos neoclássicos:
O agente económico racional e informado.
Ao contrário do que pressupõem os modelos matemáticos (e muito bem)as funções de preferencia dos agentes económicos são volúveis, individuais e em permanente mutação e interagem com informação imperfeita de que dispõe cada agente económico em cada momento.
Assim os optimos tipo Pareto dos modelos matemáticos são pontos de equilíbrio teóricos, mas na realidade cada agente caminhará de ponto de equilíbrio “subóptimo” em ponto de equilíbrio subóptimo.
Da mesma forma conceitos como “nível de preços” e “preços relativos” que são normalmente meros parâmetros dos modelos, são na realidade multiplos preços e ratios em permanente movimento, pelo que dificilmente o agente económico consegue na prática optimizar a sua escolha.
Comentário por ricardo saramago — Abril 2, 2010 @ 15:43
A própria formulação de informação perfeita é ridícula. O que é informação perfeita? O Homem age segundo preferências subjectivas pela graça do livre arbítrio. Não existe informação perfeita ou imperfeita. Existem acções humanas com a informação que cada um interpreta com sendo mais ou menos relevante. Por um exemplo aquilo a que chamamos preços é na verdade um preço de uma transacção de alguma forma que se tornou público (porque muitos não o são) que se deu entre duas partes num determinado instante, que passa e é efémero.
Comentário por CN — Abril 2, 2010 @ 21:55
Os mercados devem ser vistos como a menos má das aproximações à realidade. Ninguém sabe se um Chinês, Indiano, Americano está neste momento a desenvolver uma tecnologia que vai tornar obsoleta outra existente e não deixa de ser também possível que o génio morra num acidente antes de tal acontecer.
Comentário por lucklucky — Abril 3, 2010 @ 13:54
15. “… uma defesa do liberalismo que assente principalmente no conceito neoclássico de equilíbrio tenderá a ser extremamente frágil.”
André,
Não discordo.
Para além do preciosismo de linguagem, julgo que não estamos a dizer coisas substancialmente diferentes.
Pareceu-me que podemos concordar em que o conceito de equilibrio num mercado hipotéticamente livre é util e necessario na teoria e na argumentação normativa liberal.
Pelo meu lado posso conceder sem dificuldade que certas representações teoricas do equilibrio (como as teorias walrasiana e neowalrasianas do equilibrio geral) teem limitações e que, se não forem corrigidas e completadas por outras mais desenvolvidas (como são certamente as da Escola Austriaca), podem abrir o flanco a certas criticas de fundo da propria ideia da natureza tendencialmente autoreguladora do mercado livre.
Parece-me apenas que é importante distinguir claramente entre o indispensavel trabalho de critica interna e melhoramento do modelo teorico herdado dos autores neoclassicos e as insidiosas criticas externas aos proprios fundamentos do modelo e feitas por correntes que pretendem deste modo demonstrar os limites do liberalismo economico.
Comentário por Fernando S — Abril 3, 2010 @ 14:28
Os limites do funcionamento dos mercados são em cada momento função das distorções provocadas pelas intervenções governamentais, pelas limitações dos agentes económicos, pelas espectativas, pelas vicissitudes políticas, pela cultura das sociedades, etc..
Os mercados funcionam sempre, tal como um ecossistema, com mais ou menos eficiência, com mais ou menos equilíbrios e desiquilíbrios, consoante as vicissitudes que as sociedades em cada momento concreto lhe introduzem.
As críticas ao liberalismo advêm sobretudo daqueles que pensam que podem moldar e melhorar as sociedades e os mercados através de engenharias legais e formas de planeamento centralizados, impondo à sociedade preferências vindas de cima para baixo.
No entanto já K. Marx reconhecia que a forma mais eficiente de produção de riqueza era a “economia capitalista”, ao atribuir-lhe na sua teoria a função histórica de melhorar o nível de bem estar da sociedade – condição prévia ao advento do socialismo.
Comentário por ricardo saramago — Abril 3, 2010 @ 15:03
17.”Estão a esquecer uma das bases dos pressupostos neoclássicos: O agente económico racional e informado.”
18.”A própria formulação de informação perfeita é ridícula.”
Percebo que estas chamadas de atenção criticas aos pressupostos da economia neo-classica do Ricardo Saramago e do CN têm sobretudo em vista as teorias neo-cássicas do equilíbrio geral.
Mas, com o devido respeito, penso que falham em parte o alvo.
Nunca os autores destas teorias, incluindo o proprio Leon Walras, pretenderam que no mundo concreto os agentes economicos agiriam exactamente conforme o que era pressuposto no modelo teórico.
Tratava-se de uma primeira apróximação, necessáriamente mais abstrata, num processo teórico com diferentes níveis sucessivamente mais realistas.
Mas para se compreender os comportamentos humanos em todas as circunstâncias concretas é indispensável identificar as características que são essenciais e que não deixam de estar presentes no agir da generalidade dos agentes, mesmo quando estes parecem afastar-se delas.
A racionalidade é uma delas.
Cada indivíduo tem preferências e procura realizá-las utilizando os meios à sua disposição do modo que lhe parece o mais eficiente possível. Os fins são meramente subjectivos e não são nem racionais nem irracionais. Racional é procurar agir com a maior eficiência. Mesmo quando são cometidos erros de apreciação e de actuação.
Como recorda Ludwig Von Mises : “O comportamento humano é necessáriamente e sempre racional. … Quando aplicados aos objectivos últimos de uma acção, os termos racional e irracional são inapropriados e sem sentido. O fim último da acção é sempre a satisfação de um qualquer desejo do homem que age.”
A informação perfeita é outro dos pressupostos teóricos.
O pressuposto de que a informação é completa e perfeita apenas é necessário nos modelos teóricos altamente abstratos (matemáticos) que concebem um equilíbrio geral instantâneo e final. É verdade que a utilidade deste estádio teórico imaginário é muito reduzida. Apenas formula a ideia de que numa economia hipotéticamente “pura” (onde, para além de outros pressupostos, se verifica a condição institucional de plena liberdade dos agentes económicos) existe um equilíbrio simultâneo no conjunto dos mercados. Mas nada nos diz sobre os mecanismos de mercado que podem fazer com que possa existir uma tendência para um equilíbrio generalizado.
Na verdade, o pressuposto altamente abstrato da informação completa e perfeita pode ser substituído com vantagem por outro mais realista e certamente mais útil para que é o da informação “não entravada”, isto é, a informação que resultaria dos sinais provenientes de mercados funcionando sem interferências externas aos próprios mercados.
Cada agente baseia-se na informação que recebe, essencialmente dos próprios mercados, para decidir sobre a melhor utilização dos seus recursos. A ideia essencial é a de que, na ausência de interferências externas aos mercados, a informação que os agentes têm é normalmente suficiente para que o conjunto dos respectivos comportamentos contribuam para fazer os mercados tender para um equilibrio generalizado e virtuoso.
Admito que seja neste sentido que é feito o comentário 18. do CN.
Repare-se que dizer que a informação é suficiente para este efeito não significa que ela seja suficiente para outros efeitos. Antes pelo contrário. Cada indivíduo consegue abarcar apenas uma infima parte dos dados da realidade, dos mercados em particular. Os economistas liberais tendem antes a aderir à ideia de que é precisamente pelo facto de os indivíduos terem um acesso muito limitado à informação disponível que o modo mais eficiente para efectuar a coordenação de todas as informações tem de se basear num mecanismo completamente descentralizado e espontaneo, que é o do mercado.
É compreensível que os opositores ideológicos ao liberalismo económico dêm tanta importância à crítica dos pressupostos dos conceitos de equilíbrio de mercado em economias puras e concorrenciais.
Com efeito, se se demonstra que os indivíduos não são fundamentalmente racionais e informados, então é mais fácil defender a ideia de que os mercados livres não são autoreguláveis e de que são indispensáveis e desejáveis as intervenções externas por parte dos Estados e dos governos.
Para os marxistas e para os socialistas os indíviduos são tendencialmente irresponsáveis, não teem suficiente autonomia de apreciação e decisão, são condicionados por uma série de factores sociológicos ou psicológicos, a classe social, a alienação do mundo moderno, a irracionalidade, a informação fabricada e manipulada, a publicidade comercial, etc, etc.
No fim de contas, a crítica aos pressupostos da racionalidade e da informação suficiente dos agentes económicos é também uma crítica ao individualismo metodológico e a todas as teorias que o utilizam.
Comentário por Fernando S — Abril 3, 2010 @ 17:36
” pressuposto altamente abstrato da informação completa e perfeita pode ser substituído com vantagem por outro mais realista e certamente mais útil para que é o da informação “não entravada”, isto é, a informação que resultaria dos sinais provenientes de mercados funcionando sem interferências externas aos próprios mercados.”
Sim, isso parece-me correctíssimo. Podemos ver isso na própria formação de preços, um preço para ser “preço” tem de resultar de uma troca voluntária entre proprietários absolutos (que têm a capacidade de decidir não proceder a qualquer troca), se assim não for, o preço contém uma componente de desinformação. A economia privada precisa de preços livres para poder planear, já o intervencionismo ao distorcer a formação de preços introduz desinformação.
Assim informação “perfeita” quanto muito é a formação livre de preços, somente isso. Não se todos agentes sabem os preços de tudo.
Comentário por CN — Abril 3, 2010 @ 20:22
A questão das escolhas e da decisão dos agentes económicos não é indissociàvel da questão central da liberdade.
O reconhecimento da diversidade de cada individuo e dos seus processos de decisão e da impossibilidade de os prever ou modelar matemáticamente leva a duas vias:
Para o liberal a diversidade e a liberdade individual de acção e de escolha, resulta em progresso e criação de riqueza, mesmo que não produza uma sociedade perfeita ou optima em termos de eficiência, desencadeia os mecanismos que levam à prosperidade, desde que o estado garanta a igualdade de oportunidades, “rule of law” e o direito de propriedade.
Para os socialistas, fascistas e derivados do nosso tempo, o individuo e o mercado não devem ser livres de escolher e devem ser orientados e guiados pela burocracia instalada, que deve impor a uniformidade de gostos e escolhas, normalmente com base em justificações tecnicas e morais( “igualdade”, “justiça social”, “bem comum”, “interesses nacionais”, “defesa do meio ambiente”, “normas de segurança”, etc.)sendo que a liberdade é passada para segundo plano e compromete a prazo o progresso económico.
A fábula Orwelliana do triunfo dos porcos é um paradigma cada vez mais actual desta segunda opcção.
Comentário por ricardo saramago — Abril 3, 2010 @ 20:47
23. CN : “Assim informação “perfeita” quanto muito é a formação livre de preços, somente isso. Não se todos agentes sabem os preços de tudo.”
Caro CN,
Acho que estamos de acordo a este respeito.
Acessoriamente, acrescentarei apenas que a mim não me choca por ai além que a construção teórica, sobretudo na sua longa trajectoria histórica (do pensamento), tenha incluido um estádio imaginario onde, entre outras hipóteses, “todos os agentes sabem o preço de tudo”.
Admito que a certa altura este exercício de formalização tenha servido de algum modo para clarificar ideias no processo de elaboração da teoria e no confronto com concepções bastante diferentes.
O problema foi ter-se ficado e insistido neste nível elevado de abstracção.
Por sinal, Walras até foi logo na altura criticado pelo seu excessivo matematicismo pelo “colega” marginalista Karl Menger.
Sobretudo depois de Walras muitos e muitos autores enveredaram e persistiram durante muito tempo na via dos modelos matemáticos “puros”.
Perdeu-se efectivamente tempo e energia e muitas vezes perdeu-se também de vista o objectivo essencial da teoria economica.
Comentário por Fernando S — Abril 3, 2010 @ 22:07
24. Ricardo Saramago : “… a liberdade individual de acção e de escolha, resulta em progresso e criação de riqueza, mesmo que não produza uma sociedade perfeita ou optima em termos de eficiência …”
Caro Ricardo,
Eu até concordo bastante com esta conclusão.
Como ja referi, a ideia da possibilidade teorica do equilibrio, digamos “concorrencial”, é apenas uma etapa num processo explicativo dos mecanismos de mercado e na definição das condições institucionais que permitem uma maior eficiencia.
Nada disto implica que esse estado exista alguma vez na realidade concreta.
Melhor, nunca poderia existir.
Porque é teorico com um elevado nivel de abstracção.
Porque a propria teoria se complexifica a niveis menos abstratos introduzindo elementos de realismo anteriormente ausentes.
Porque as versões mais elaboradas da teoria (como as da Escola Austriaca aqui varias vezes invocadas) mostram que se trata de uma tendencia para algo que muda em permanencia e que nunca será alcançado, que o que existem são multiplos e sucessivos equilibrios “imperfeitos”, multiplos e sucessivos preços efectivos, e que são estas e outras diferenças que explicam os comportamentos dos agentes economicos e os mecanismos de mercado.
Porque existirão sempre factores limitativos da liberdade de mercado.
Porque a “perfeição” e o “optimo” não existem nem nunca existirão na realidade.
Porque a realidade concreta não se conformará nunca com a utopia liberal.
Como liberal ia dizer … “infelizmente”.
Mas se calhar é “felizmente”.
Porque no fim de contas a natureza humana é complexa e variada e não se resume à procura do progresso, da eficiência, da riqueza,… e até do máximo de liberdade individual.
Dito de outro modo, para todos os efeitos, o projecto liberal precisa de uma utopia liberal como referente e como direcção mas não é (não pode ser por definição) a sua realização.
Mas já estou a meter os pés pelas mãos e esta é decididamente uma outra conversa !…
Comentário por Fernando S — Abril 3, 2010 @ 22:49
21. Ricardo Saramago : “No entanto já K. Marx reconhecia que a forma mais eficiente de produção de riqueza era a “economia capitalista”, ao atribuir-lhe na sua teoria a função histórica de melhorar o nível de bem estar da sociedade – condição prévia ao advento do socialismo.”
Efectivamente, Marx considerava que o capitalismo era a forma mais eficiente de produção de riqueza … relativamente ao feudalismo … no estádio de evolução das forças produtivas da altura.
Mas Marx achava também que a função “progressista” da burguesia e do capitalismo se estava a esgotar, que as contradições e os bloqueios estavam a atingir um ponto de ruptura, que a sociedade estava suficientemente madura para a revolução socialista e a instauração da ditadura do proletariado (“O Manifesto do Partido Comunista”).
Só que ele não viveu o suficiente para ver e participar.
Não creio que se possa dizer que Marx considerava que o capitalismo melhorava “o nível de bem estar da sociedade”. Não melhorava certamente o bem estar da maioria da população, da classe trabalhadora e do campesinato pobre.
Não nos esqueçamos das famosas teses sobre o aumento da “reserva industrial de trabalho“, vulgo desempregados, e da “pauperização absoluta” da população.
Depois, perante a evidência da melhoria do nível médio de vida das populações, pelo menos nos países capitalistas mais desenvolvidos, alguns marxistas procuraram reciclar um pouco a teoria e falaram em “pauperização relativa” nestes paises (os salários e o poder de compra aumentavam mas as desigualdades também) e em “pauperização absoluta” á escala mundial.
No fim de contas, apesar das referências a Marx e ao marxismo terem diminuído significativamente nas últimas décadas, sobretudo com o fim do comunismo soviético, estas teses recicladas continuam nos dias de hoje a ser aceites e utilizadas por muita gente.
Sobretudo “à esquerda”, naturalmente.
Mas também “à direita”.
Até alguns liberais mais “péssimistas” acham que a pobreza tem aumentado e o nivel médio de rendimentos tem diminuido a nível mundial. Por culpa do socialismo e das políticas intervencionistas dos Estados, naturalmente.
A verdade é que, com a excepção de alguns periodos de baixa, sobretudo de crises económicas e guerras, o nível de vida médio tem vindo a aumentar ao longo do tempo, dos séculos, em particular os XIX, XX e XXI.
Graças ao capitalismo, evidentemente. Apesar dos enormes estragos que as experiências e as políticas socialistas provocaram e continuam a provocar.
Este aumento foi ainda mais rápido nas últimas 3/4 décadas.
Graças à globalização, à liberalização política e económica (fim do comunismo), à consequente “revolução tecnológica”, ao forte crescimento em paises emergentes (Brasil, India, China, etc)…
Graças ao capitalismo e à liberdade, naturalmente !
Mas as desigualdades também aumentaram (ainda a tese da “pauperização relativa”)… Sim, e depois ?!…
Comentário por Fernando S — Abril 4, 2010 @ 00:35
Caro Fernando S
Sobre o papel da democracia burguesa e do capitalismo na criação prévias das condições materiais necessárias à instauração do socialismo, tal como o via Marx, basta ver toda a polémica que esta questão gerou no movimento socialista internacional nas primeiras décadas do sec. XX.
Desta discussão deriva a divergência de opinião no movimento comunista, sobre se seria possível passar duma sociedade pré industrial para uma sociedade socialista directamente, sem passar pela fase do capitalismo burguês.
O leninismo, o maoismo, e a social democracia são filhas directas desta clivagem.
Comentário por ricardo saramago — Abril 4, 2010 @ 16:29
Caro Ricardo,
Não contesto o que diz aqui em cima.
É verdade que na perspectiva marxista, de Marx e da maioria dos seus sucessores, a fase do capitalismo burgues é uma passagem obrigatoria entre uma sociedade pré-industrial e uma sociedade socialista.
É também verdade que depois de Marx houve interpretações diferentes desta teoria sobre o processo histórico.
As divergencias tinham sobretudo a ver com o diagonstico (o capitalismo está ou não suficientemente desenvolvido para a revolução socialista ?) e com a estratégia (deve-se reformar progressivamente o capitalismo burgues ou substitui-lo radicalmente pelo socialismo ?).
A maioria, para além de algumas divergências de detalhe, considerava que o capitalismo, pelo menos nos paises mais desenvolvidos, estava suficientemente maduro e que era tempo de fazer rápidamente a revolução socialista.
Apenas uma parte minoritária, sociais-democratas reformistas, considerava que era necessario primeiro reformar democraticamente o capitalismo permitindo um maior desenvolvimento das forças produtivas e uma melhoria das condições de vida da maioria da população.
Colocou-se ainda o problema das sociedades menos desenvolvidas, mais rurais, menos industrializadas.
Alguns achavam que nestas sociedades era primeiro necessária uma revolução nacional de tipo essencialmente burguesa e que o papel dos proletários e dos comunistas era o de se aliarem com outras classes e forças políticas para aquele efeito.
Mas no movimento comunistas de muitos destes países impôs-se rápidamente a perspectiva mais radical de que a fase do capitalismo burguês se poderia reduzir e encurtar e que se poderia e deveria passar rápidamente à revolução socialista e à fase de construção do socialismo. Foi, nomeadamente, o ponto de vista do maoismo, numa sociedade ainda muito rural e atrasada como era a China.
Dito isto, mantenho que, com a excepção de uma minoria social-democrata reformista, que rápidamente se separou do movimento comunista, nenhuma das principais correntes do marxismo considerava que o capitalismo permitira ou permitiria uma melhoria das condições de bem estar da maioria da população. Antes pelo contrário. Toda a argumentação a favor da revolução para pôr fim ao capitalismo assentava na ideia de que, apesar do nível elevado de desenvolvimento das forças produtivas, as condições de vida das massas populares se estavam a degradar. Toda a propaganda revolucionária assentava nesta tese.
Esta posição correspondia ao essencial das ideias de Karl Marx sobre a “pauperização” das massas e sobre a oportunidade da revolução socialista.
Ao contrário dos sociais-democratas reformistas que assumiam claramente estar a rever esta parte do pensamento de Marx e que por isso foram oportunamente classificados como “revisionistas”.
Claro que Marx e os marxistas estavam perfeitamente errados quanto à impossibilidade de melhoria do bem estar da maioria da população no seio do capitalismo !
Comentário por Fernando S — Abril 4, 2010 @ 22:18
“No entanto já K. Marx reconhecia que a forma mais eficiente de produção de riqueza era a “economia capitalista”, ao atribuir-lhe na sua teoria a função histórica de melhorar o nível de bem estar da sociedade – condição prévia ao advento do socialismo.”
Caro Ricardo,
Ainda uma nota sobre este assunto acima.
Como é obvio, estou perfeitamente de acordo quanto ao facto de o capitalismo ser a forma mais eficiente de produção de riqueza e ter por isso permitido e continuar a assegurar uma melhoria do nivel de bem estar da sociedade.
Reconheço que alguns autores e uma ou outra corrente de inspiração marxista admitiram esta evidencia factual e a integraram nas suas reflexões teoricas e programaticas.
De algum modo, esta perspectiva manteve-se na social-democracia e socialismo democratico contemporaneos. É um pouco a ideia de que o capitalismo é o melhor sistema economico para produzir riqueza (o que está certo) mas que é necessaria a intervenção do Estado para a distribuir de modo mais equitativo (o que no mínimo discutível). A limitação destas perspectivas é não integrarem a ideia de que o intervencionismo Estatal não apenas prejudica sériamente o potencial produtivo do capitalismo como nem sequer garante uma efectiva igualdade entre as pessoas.
Também concordo que a própria teoria da história de Karl Marx atribuia uma função “progressista” à economia capitalista, que esta contribuía para se criarem condições para o advento do socialismo. Pelo menos até um certo ponto, já que, mais cedo ou mais tarde, o agravamento das contradições do sistema exigiam uma mudança para o socialismo.
A minha única divergência diz respeito à natureza desta “função progressista” na teoria de Marx e às implicações no que se refere ao nível de bem estar da sociedade.
Para Marx, o capitalismo permitiu e acelarou o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, que ele considerava efectivamente como uma condição prévia ao advento do socialismo. Este desenvolvimento das forças produtivas era visto não apenas no plano das tecnologias associadas aos meios de produção mas também no plano da organização e da gestão das relações de produção. O resultado era um aumento significativo da produtividade e da capacidade de produção “industrial”.
Á primeira vista, poder-se-ia pensar que a partir desta primeira constatação objectiva, Marx passaria a uma segunda constatação objectiva que decorria naturalmente da primeira, ou seja, a de que o nível de rendimentos e de bem estar da população estaria também a aumentar com o capitalismo.
De resto, esta ideia, para além de corresponder à realidade, não era incompatível com o resto da teoria de Marx. Como outros marxistas acabaram por perceber.
Por um lado, o facto de as pessoas viverem melhor não excluía que continuassem a ser exploradas, e até mais exploradas. O próprio Marx tinha desenvolvido os conceitos teóricos para este efeito ao falar em “aumento da mais-valia relativa”, isto é, o aumento da taxa de mais valia numa situação de aumento absoluto dos salários dos trabalhadores.
Por outro lado, o facto de as pessoas viverem melhor de um ponto de vista material, de poder de consumo, não excluía uma degradação de outros aspectos mais qualitativos : a desigualdade e o sentimento de injustiça associado ; as condições e os ritmos de trabalho nas fábricas ; a alienação dos indivíduos (conceito que Marx também explorou) ; as condições de habitação e transporte ; etc.
Ou seja, a “pauperização absoluta” das massas não era uma condição lógica indispensável para justificar a falência do capitalismo e justificar assim a necessidade e a inevitabilidade de um processo revolucionário socialista.
Seja como for, não foi esta a opção de Marx.
Por que razão ?
A primeira é que no fim de contas Marx não foi um analista lúcido das sociedades capitalistas, como muitos, marxistas e não marxistas, pretenderam e pretendem ainda hoje. Repetiu em boa medida análises interessantes que outros tinham feito antes dele e, onde foi mais original, acabou por dizer grandes disparates e por cometer graves erros de previsão.
A segunda é que no fim de contas Marx construiu uma teoria sobretudo para suportar um programa político revolucionário. Deste ponto de vista, pareceu-lhe certamente muito mais útil apresentar uma imagem catastrofista da sociedade capitalista a abater.
Acresce que este catastrofismo permitia justificar mais fácilmente a crítica do reformismo democrático “pequeno burguês” e a necessidade e urgência de um processo revolucionário violento e ditatorial.
Muitos analistas pretenderam e pretendem que o pensamento de Marx foi posteriormente desnaturado e instrumentalizado para justificar projectos políticos totalitários.
Não concordo.
As ideias de Marx foram de facto aplicadas em experiências históricas concretas que acabaram (ou continuam) do (no) modo trágico que sabemos !
A verdade é que, apesar de isto ser hoje uma evidência histórica, ainda existe muita gente que continua agarrada à ideia típicamente marxista de que o capitalismo, para além de ser factor de desigualdades, e principalmente pelo facto de o ser, tende inexoravelmente a agravar as condições de vida da maioria das populações, que é por isso necessário acabar com ele e substituí-lo por uma sociedade completamente diferente !
Comentário por Fernando S — Abril 5, 2010 @ 14:02