O Insurgente

Março 31, 2010

Dos primarismos ou “this is called, not inappropriately: Sacrifice”

Filed under: Cultura,Videos — Helder Ferreira @ 21:16

Leigo como sou, quando converso acerca de arte, costumo puxar a conversa para o dadaísmo. Interessa-me enquanto desconstrução dos cânones da arte e o papel que teve na confusão sobre o que é ou deixa de ser arte. Isto já vai de uma lata de merda (literalmente) até à “Meninas de Avignon”. Gosto mesmo muito dos dadaístas a um nível, diria, epidérmico, mas não misturo nem reconheço sequer comparação estética entre Francis Picabia e os calcanhares de Velazquez e o Tristan Tzara está abaixo do nível do bagaço a uma sexta feira às sete, do Pessoa. Pobres dos dadaístas, por muito que gostasse que fosse diferente, são menos que piolhos na cabeça de anões aos ombros de gigantes.

Não sou fã do hip hop. Confesso que nos primórdios do género me entusiasmei com músicos como Notorious Big ou 2Pac. Comprei e ouvi muito Guru em Jazzmatzz como com Branford Marsalis e acabei no fabuloso álbum póstumo do Miles Davis, Doo Bop que, na minha opinião, ainda é a lição definitiva a todos os aspirantes ao género. O hip hop nasceu e cresceu como mais uma cultura de analfabetos. Não como género musical, bem entendido, mas como cultura, o que não tem nada que ver com diversidade, tem que ver com a pretensa superioridade da vivência do gueto, dos pretensos discriminados, das coitadas das minorias (dizia-me uma vez um amigo em França que o hip hop é a voz do povo) regados a Cristal ao volante de Range Rovers e montados em “hoes” numa nova versão do materialismo dialéctico, desta vez étnico também. Gente que conheço, mesmo em Portugal, carregados na guita, para quem o hip hop é uma cultura de revolução (necessariamente analfabeta), uma maneira de (não) viver, um desprezo total por quem os pariu. Há uns meses ouvi um artista do género, um indigente intelectual bloquista a falar de Marx, Guevara e do hip hop como veículo da revolução. É certo que também há disso no punk, mas tem a desvantagem de ser um género branco, logo não é ancorado numa minoria discriminada. Ah pois é. No heavy metal há uma subcultura satânica infantil mas que não convence ninguém. E não é que a música (seja qual for o género) em si mesma tenha qualquer responsabilidade, como é óbvio (santo Zappa é minha testemunha), mas o facto é que o hip hop é muito mais que música, é uma cultura vasta que vai das artes plásticas à literatura à política, cultura essa para quem a polícia, por exemplo, é O Inimigo e há que eliminá-lo ou fugir dele. O hip hop conseguiu o que o punk (também enquanto cultura) nunca chegou sequer a aproximar-se de conseguir. Com uma certa lógica. O Punk era porco, javardo, não tinha gajas boas de pernas abertas, champagne Cristal nem Ferraris para lhe dar glamour no meio do protesto. Tinha a cola de contacto nos sacos de plástico, as agulhas e a heroína que, essa sim, é a fuga dos pobres. Os “hip hopers” preferem a cocaína servida em bandejas de prata, snifada com notas de cem euros. O Alice Cooper é que tinha razão quando disse que os musicos rock eram uma cambada de analfabetos que não percebiam de mais nada porque nem sequer tinham tempo para perceber. Os MCs sabem mais um bocadinho que os rockeiros, pelo menos no que respeita a gajas, Rolexes, carros, cocaína e Uzis.

Não reconheço nem ao hip hop nem ao rock’n roll qualquer espécie de qualidade estética comparativa, as letras interessam-me pouco, é mais uma questão de ritmo, de pump, riffs de guitarra e voz enquanto instrumento. E o baixo, o baixo que é o instrumento dos génios via Stanley Clarcke. E isto sou eu, fanático do rock’n roll versão Lemmy Kilmister, uma espécie de apóstolo da coisa. Eu que não confundo Motorhead com Bach, nem Dead Kennedys com Charlie Parker ou Ozzy Osbourne com Astor Piazzolla. Há um tempo para tudo e um modo para cada coisa, o que não faz de mim cego nem susceptível à avaliação estética de terceiros. Quero que os terceiros se fodam.

Seja como for não me parece que o Alberto Gonçalves tenha insultado seja o que for nem que tenha escrito sobre o que não conhece, pelo contrário, foi certeiro no que escreveu. E se despreza a qualidade estética do hip hop ou do heavy metal faz muito bem, porque de facto, não têm nenhuma. E se alguém achar que neste post eu escrevo sobre o que desconheço, ofereço-me para vos apresentar músicos em cada um destes géneros e para vos dar uma introdução live a cada sub-cultura, do hip hop ao punk.

Nota: há uns anos foi engraçado ver os Red Hot Chilli Peppers a reivindicar o MTV award para a melhor banda hip hop ou o Ice T com os Body Count a exigir o trono do rock’n roll em termos mais ou menos racistas. No fim disto tudo, uma cambada de indigentes. Bach e Parker hão-de rir à custa disto.

9 Comentários »

  1. Grande texto. Mas, já agora, aproveito para dois reparos: o punk não tem apenas a tal dimensão aí referida. O straight edge vai mais além, sem heroínas e derivados.
    Num segundo momento, a subcultura satânica existe em algum black metal, mas há black metal que vai muito além disso. A vaga mais recente de bandas francesas, por exemplo, têm feito um trabalho notável a nível instrumental e lírico. Uma delas, chamada Deathspell Omega lançou há quatro anos um trabalho chamado Kênose e eu pergunto onde é que uma banda nos nossos dias se daria ao trabalho de reflectir sobre o conceito em causa. Só mesmo no black metal. Ah, e há que referir ainda o metal cristão. Do power metal dos Narnia ao thrash dos Mortification (que já andam nisto há vinte anos). O metal, para todos os efeitos, tem muita qualidade em algumas das suas variantes. Nesse aspecto o amigo Gonçalves devia seguir a máxima wittgensteiniana e calar-se, pois não sabe do que fala.

    Comentário por harms — Março 31, 2010 @ 22:09

  2. Ah, obviamente sugiro que o metal tem qualidade estética. Se alguém não a vê, o problema reside na pessoa, não na música.

    Comentário por harms — Março 31, 2010 @ 22:11

  3. Quanto ao primarismo de que fala o amigo Gonçalves, é típico de um ignorante. Quanto ao facto de hão existirem trabalhos académicos sobre o assunto, está enganado. Quanto ao ser exclusivo de um círculo restrito, qual é o problema? Não estou a dizer que o seja, mas a sê-lo, qual é o problema? Mais triste é a sobranceria e a ignorância demonstrada por quem, manifestamente, não sabe do que fala.

    Comentário por harms — Março 31, 2010 @ 22:15

  4. Eh lá, alguém estava inspirado. :)

    Comentário por bob — Março 31, 2010 @ 22:34

  5. E no meu primeiro ponto, no segundo parágrafo, é “tem” e não “têm”, antes que me acusem de iliteracia ou assim.

    Comentário por harms — Março 31, 2010 @ 22:50

  6. Caro harms, aparentemente estamos mais ou menos de acordo menos na parte do black metal que não consigo engolir. O AG sabe do que fala.

    Comentário por Helder — Março 31, 2010 @ 23:38

  7. O straight edge vai mais além

    Pois vai mas não tem a dimensão revolucionária e de certo modo desencantada do punk. No punk há sobretudo desespero que se reflecte nas imortais palavras do Joe Strummer pré-pop: “There is no future, all you’ve got is your past” Daí o excesso, as agulhas e o cavalo.

    Comentário por Helder — Março 31, 2010 @ 23:44

  8. Já agora acrescentava às referências dadas pelo harms, no primeiro comentário, coisas como Alcest, Amesoeurs ou Les Discrets que me estão a fazer dar um pouco de atenção a um sub-estilo que não dava muita atenção até agora.
    Não quero aqui estar a dizer que fulano x ou y não sabem do que falam. Só me faz confusão quando se fala em “primarismos” deste ou daquele estilo de música. Ou a falta de qualidade estética, neste caso, do heavy metal.

    Comentário por Bernardo Hourmat — Abril 1, 2010 @ 08:27

  9. Caro Hélder, o sr. Gonçalves não tem razão porque simplesmente não conhece nada sobre black metal. Se o Hélder quiser tenho muito gosto em mandar-lhe uns cd’s com aquilo que se faz de melhor no universo BM. Tenho a certeza que, depois de ouvir Primordial, Deathspell Omega e outros de excelência talvez mude de opinião. Ainda o último álbum dos Rotting Christ tem uma colaboração da Diamanda Galás, por exemplo. E não me parece que ela colaborasse com qualquer pseudo-satânico de trazer por casa. Saúde!

    Comentário por harms — Abril 1, 2010 @ 20:57


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