Contrariamente ao que diz o Bernardo Pires de Lima, há uma excelente razão para um eventual governo de direita não reconduzir a actual Minsitra da Cultura. Desde logo por discordar da lógica que “o Estado tem de estar sempre onde os bens meritórios não funcionem com a lógica do mercado”“. A ideia que um mercado ideal (genericamente falando) deve recompensar o mérito está errada e abre caminho a todo o tipo de intervenção discricionária. Como refere a Ministra os critérios para definir o mérito continuarão a ser definidos na esfera política o que resultará num direito quase ilimitado à intervenção estatal. Bastar-lhe-à decidir que o mérito artistico de determinado projecto ou criador artistico não estão a ter o reconhecimento que lhes é devido.
Se bem que de forma mais mitigada (por falta de verba?) a Ministra continua a defender o papel director do estado e a subsidiação na área da cultura. Um governo de direita faria muito bem em não reconduzir a actual Ministra e extinguir o actual ministério.
Podíamos também deixar a Justiça entregue ao mercado. Ou a defesa do país, ou os impostos. E porque não privatizar a AR, vendendo lugares de deputado?
No dia em que perceberem que, por exemplo, o NEA não é uma mama de subsídios nem um aconchego para elitistas mas sim uma ferramenta que ajuda a gerar bens, vantagens competitivas e até exportações, pode ser que produzam algum pensamento coerente nesta área.
Estados que em nada investem reduzem-se a utilizadores/importadores de inovações alheias; isto é verdade para a Cultura mas também para coisas como a Internet, os computadores, etc, etc.
Comentário por LR — Março 24, 2010 @ 16:58
Não acho mal que o Estado intervenha na cultura. Acho mal é que o faça directamente. Acho importante que o Estado faça algo para permitir a diversidade cultural mas não que defina o que ela representa.
Uma coisa é dar incentivos ao mecenato (por exemplo), outra coisa é atribuir bolsas directamente. Uma coisa é estar directamente responsável pelo preservação do património e deixá-lo cair aos bocados, outra é dar oportunidade ao privados de o preservarem em regime de concessão (por exemplo).
Comentário por Tomás Belchior — Março 24, 2010 @ 17:04
“pode ser que produzam algum pensamento coerente nesta área”
Duvido. Pensamento coerente só mesmo com a ajuda de grandes pensadores como o LR.
Comentário por André Azevedo Alves — Março 24, 2010 @ 17:07
“Podíamos também deixar a Justiça entregue ao mercado. Ou a defesa do país, ou os impostos. E porque não privatizar a AR, vendendo lugares de deputado?”
Bem, há razões objectivas para a Justiça ficar na esfera estatal (não subordinada ao poder político, bem entendido) embora por acordo das partes a causas possam ser arbitradas em instâncias privadas.
A privatização da AR implicava a não existência de qualquer orgão de contolo político democratico do poder executivo? É isso que está a propor?
” NEA não é uma mama de subsídios nem um aconchego para elitistas ”
Que obtenham as vantagens tornando-se mais competitivos por conta própria. Não à custa de subsidios.
“Estados que em nada investem reduzem-se a utilizadores/importadores de inovações alheias”
Ultimamente criou-se a mania de chamar “investimento” a tudo o que é despesa pública. Mas adiante, mais uma vez não me compete a mim financiar essas inovações.
Comentário por Miguel — Março 24, 2010 @ 17:08
> E porque não privatizar a AR, vendendo lugares de deputado?
Por acaso, quando isso era quase prática na “Mother of Parliaments”, as coisas corriam bem à Inglaterra. Era capaz de resultar.
Quanto à Cultura, o VPV (que foi secretário de Estado da dita, antes da promoção a ministério para encher o olho à francesa) dizia com razão que devia era tratar do património e largar os subsídios à clientela “artista”.
Ou então devolvam o património que pilharam à Igreja nos séculos XVIII, XIX e XX, e deixem-na pagar … ainda andamos a chupar o fundo do depósito que ela fez, porque a trampa subsidiada pelo Estado e comprada por novos ricos mete nojo aos cães.
Comentário por Euro2cent — Março 25, 2010 @ 00:13
Acaba-se com o Ministério. E quem gere depois os museus ou os monumentos nacionais? Deve ser reformado, mas extinto? Também gostava de ter uma sociedade liberal como a americana, a questão é que não temos ainda sociedade civil para isso.
Comentário por Luis — Março 25, 2010 @ 00:40
Com o crescente peso do estado cada vez sobra menos espaço para a sociedade civil. Mas se o problema é a falta de “sensibilidade artistica” da sociedade civil nesse caso são mais que válidadas as acusações de elitismo.
Comentário por Miguel — Março 25, 2010 @ 08:27
“. E quem gere depois os museus ou os monumentos nacionais?”
Até ao governo de António Guterres não existia Ministério da Cultura mas uma simples secretária de estado na dependência directa do PM. Provavelmente até um insituto público chegaria para fazer a gestão do património. E como sugeriu o Tomás a exploração e manutenção de muito deles podem ser cedida a privados (temos o exemplo do que já se faz com as pousadas). Indo mais além, penso até que muito deles poderiam ser vendido ou cedidos em definitivo.
Comentário por Miguel — Março 25, 2010 @ 08:36
“o Estado tem que estar sempre onde os bens meritórios não funcionem com a lógica do mercado” – se não fosse assim o que aconteceria à cerâmica, à música folclórica, aos tapetes, aos cestos de vimes e às rendas de bilro? Ao que é tipicamente português mas corre riscos de desaparecer numa lógica de mercado. O ministério da cultura ou secretaria de estado não serve apenas para apoiar artes performativas e visuais. Já se falou nos museus e monumentos, mas existe mais propriedade material e imaterial a proteger.
Se um governo de direita deveria reconduzir esta ministra, sinceramente como profissional da área acho que sim, até hoje é a primeira que quer mudar e reduzir os subsidios, passo nunca antes dado por outros.
Eu sou contra os subsidios nas artes performativas e visuais, penso que chegou a hora da sociedade civil dar o seu contributo por um lado e por outro lado as entidades artisticas deveriam começar a olhar para o aspecto financeiro como prioritário.
As coisas a pouco e pouco encaminham-se para um mercado mais livre no mundo das artes e julgo que daqui a uns anos teremos outro modelo de financiamento das artes, mas as mudanças levam tempo a ocorrer. Estamos finalmente a andar no bom caminho para que isso aconteça e esta ministra tem feito um bom trabalho no pouco tempo que ocupa o cargo.
Temos tendência a ver o ministério da cultura como patrocinador de espectáculos de salas vazias, infelizmente não deixa de ser verdade numa infima parte dos casos, mas não podemos olhar o todo pela parte podre.
Comentário por Mafalda M. — Março 25, 2010 @ 10:22
O mercado não é uma entidade com vida própria. É o conjunto das decisões descentralizadas de inúmeros individuos que agem segundo motivações que só a eles dizem respeito. Se o mercado não valorizar “a cerâmica, a música folclórica, os tapetes, os cestos de vimes e as rendas de bilro” será porque genericamnte os individuos não as valorizam. Mas qualquer um de nós é livre de o fazer e de tomar medidas que julgue necessárias para salvaguardar um (qualquer) património que julgo válido. O que não pode (ou antes, não devia poder) é obrigar os outros a assumir os encargos de uma valoração que não é sua.
Comentário por Miguel — Março 25, 2010 @ 10:37
Não somos “uma sociedade liberal como a americana”; talvez por isso é que nos falta um organismo com a força e a eficácia do National Endowment for the Arts. Ou achavam que só na comuna Europa é que o Estado apoia artistas?
Comentário por LR — Março 25, 2010 @ 10:51
Isso é o “argumento da manada”?
Comentário por Miguel — Março 25, 2010 @ 10:57
Não; é o argumento do benchmarking: ver o que funciona bem antes de mandar bocas para o ar.
Comentário por LR — Março 25, 2010 @ 15:29
Não sei se percebeu mas os meus argumentos para rejeitar a estatização da cultura não são propriamente utilitaristas.
Comentário por Miguel — Março 25, 2010 @ 15:44