Zombies e civilização

Através de uma pessoa profundamente perturbada, cheguei a um texto de Daniel Drezner, na Foreign Policy, em que este discute uma série de estudos acerca do que aconteceria se viesse a ocorrer um ataque de zombies em larga escala. Aparentemente, tudo começou com um estudo tornado público em Agosto, sobre o qual Drezner terá escrito logo na altura. A minha primeira reacção foi de incredulidade, espantado com o facto de alguém falar seriamente do assunto. A segunda foi de admiração, por ver uma série de gente a não ter qualquer pingo de vergonha em falar seriamente do assunto. E a terceira foi achar que eles tinham toda a razão em falar seriamente do assunto, porque, no meio da parvoíce (que é, obviamente, muita, como aliás o leitor poderá ver de seguida, facto pelo qual peço desde já desculpa), se consegue perceber algo de fundamental acerca das nossas sociedades.

O primeiro texto de Drezner sobre o assunto perguntava quais é que seriam as recomendações das várias escolas das relações internacionais na eventualidade de uma ameaça posta por zombies. Estou certo que muita gente, a começar pelo dr. Mário Soares, defenderia que precisaríamos de “compreender” os zombies, “falar” com os zombies e tentar chegar a um acordo com eles: afinal, são seres famintos, sem condições de vida minimamente aceitáveis, e portanto predispostos a actos desesperados, que não cometeriam se fossem libertados da sua penúria. Escusado será dizer que o dr. Soares não compreende a natureza do problema. Não compreende que eles são diferentes de nós, que eles se regem por valores fundamentalmente diferentes: quem já tenha visto um filme de zombies sabe como eles são profundamente anti-mulheres bonitas (nunca ninguém ouviu, num filme de zombies, a frase “now that’s a good looking zombie”, ou “I would marry that zombie in a heartbeat”), e isso é algo que distingue as nossas sociedades das deles (o Ocidente é profundamente a favor das mulheres bonitas, especialmente se não tiverem cérebro). E o mais grave é que, ao contrário dos fundamentalistas islâmicos, nem sequer escondem a fealdade por trás de burkas. A cultura zombie é uma cultura pró-fealdade, incompatível com a nossa.

Para além de que não há appeasement possível, por muito que o dr. Soares o deseje. O que os zombies querem é comer-nos, e à excepção daqueles senhores alemães que gostam de ver partes íntimas do seu corpo serem ingeridas por outros seres humanos, duvido que houvesse muita gente disposta a servir de instrumento para essas tentativas de appeasement. É por isso que, pessoalmente, adiro à opção neo-conservadora: “Humans are from Earth, whereas zombies are from Hades”. Temos de “go medieval on them”, de lutar contra quem constitui uma ameaça existencial ao nosso modo de vida. Temos de acabar com eles, antes que eles acabem connosco.

O problema está em como fazer isso. Um dos comentários citados por Drezner argumenta que existe um grande perigo de um ataque zombie ser encarado pelos humanos sobreviventes como uma oportunidade de, aproveitando a confusão, agir impunemente. O caos que se seguiria a uma epidemia de zombies seria, por si só, um elemento que dificultaria o combate a essa ameaça. Em tais circunstâncias, a unidade necessária para travar um combate eficaz seria dificil de obter devido à natural propensão humana para o egoísmo e para a asneira (e basta ter visto um ou outro Congresso do PSD para perceber isto).

Mas há, no entanto, um outro aspecto fundamental, que, no meio da parvoíce, nos ilumina acerca do carácter das nossas sociedades: como é que teríamos condições para travar uma tal batalha a longo prazo? A ameaça zombie, como sabemos dos filmes, é uma ameaça permanente, que não nos deixa tempo para fazer mais nada. Uma ameaça zombie impossibilitaria, por si só, a divisão do trabalho, e como tal, conduziria ao fim da civilização. Como é que poderíamos comer, se, ocupados exclusivamente no combate aos zombies, não haveria ninguém para produzir comida? A uma dada altura, as nossas reservas terminariam, e não teríamos salvação. O mesmo com as munições necessárias para o próprio combate: como é que pequenos grupos de seis ou sete pessoas, fechados em supermercados ou escolas, onde se refugiam de zombies com fome de cérebro, poderiam obter novas munições quando as que têm terminassem (e isto partindo do princípio que conseguiam ter acesso a essas munições)? O que o absurdo cenário do ataque de zombies mostra é a importância do elemento da divisão do trabalho na satisfação das nossas necessidades, e de como essa divisão só foi possível a partir do momento em que o Homem pôde deixar de se preocupar exclusivamente com a mera sobrevivência. O cenário absurdo da epidemia zombie mostra como nada é possível sem o mínimo de segurança necessário para que nos possamos dedicar a outras coisas. A civilização é fruto da superação da barbárie. E entre Hobbes e George Romero a única diferença que existe é de qualidade (os fãs de Romero, neste momento, esperam que eu venha um dia a ser vítima de um zombie como castigo pelo que acabei de dizer).

Terminado este breve desvio “sério” (deixem-me pensar que há algo que se aproveite no meio disto tudo), regresso à parvoíce, e ao desafio posto por Drezner: como travar o combate pela nossa sobrevivência? Se os recursos são finitos, e a impossibilidade da divisão do trabalho nos impedirá de obter novos, estaremos aparentemente condenados a perder. A única solução possível seria a emigração em massa dos sobreviventes humanos para outros planetas, que colonizaríamos e cujos recursos poderíamos explorar. Pacheco Pereira, por exemplo, veria com bons olhos esta solução (isto claro, se pusesse de lado o ridículo de tudo o que está antes, o que compreensivelmente não deverá ser capaz de fazer). Mas mesmo isso poderia não ser suficiente, pois os zombies poderiam, eles próprios, perseguir-nos até esses outros planetas. A única solução seria seguirmos o exemplo de Darth Vader e, uma vez abandonada a Terra pelos humanos sobreviventes, “pull an Alderaan” nela (os fãs de Star Wars perceberão a referência, os outros poderão considerar-se afortunados por ficarem à margem) e arrasar com tudo o que tivesse ficado para trás.

É claro que esse é um cenário do qual ainda estamos longe, pois não temos os meios suficientes para colonizar e explorar os recursos de outros planetas. Assim, em vez da solução Darth Vader, apenas nos resta a solução “Dr. Strangelove”, promover um Armagedão nuclear e ver o que é que sai daí. Se a derrota está certa, ao menos garantíamos que eles não ficavam melhores do que nós. A espécie humana desapareceria da face da Terra, mas desapareceria com dignidade. Algo que eu dificilmente poderei manter depois de ter escrito este texto.

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20 pensamentos em “Zombies e civilização

  1. O “Dr. Strangelove” não acaba com o desaparecimento completo da Humanidade, mas sim com as oligarquias burocráticas e militares em vaults.

    Não sou fã do Star Wars mas no entanto percebi a referência. Onde me coloca isso?

  2. O dr. Strangelove acaba com uma série de armas nucleares a explodirem, deixando no ar a ideia de que a Humanidade desaparecerá toda. pelo menos, foi sempre isso que me pareceu. Mesmo que assim não seja, eu estava a referir-me ao associar das bombas, não propriamente ao resultado.

    Só o facto de ter percebido a referência, só por si, já não é bom sinal…

  3. “Como é que poderíamos comer, se, ocupados exclusivamente no combate aos zombies, não haveria ninguém para produzir comida?”

    Adoptando um sistema socialista que abolisse a escassez e a exploração do homem pelo homem e do homem pelo zombie.

  4. “nunca ninguém ouviu, num filme de zombies, a frase “now that’s a good looking zombie”, ou “I would marry that zombie in a heartbeat”

    wrong. No único filme de zombies portugues que conheço – “i’ll see you in my dreams” – o caçador de Zombies de serviço continua casado com a sua esposa que, infectada, virou Zombie. O que dá uma certa credibilidade à perspectiva do dr. Soares, mesmo aceitando que o facto da sra. zombie estar a cargo da Sofia Aparicio não seja um pormenor dispiciente.
    abraço

  5. Quanto à iminente morte dos humanos sobreviventes devido à escassez de recursos e falta de divisão de trabalho:

    Bem, a literatura diz-nos, que “It is a truth universally acknowledged that a zombie in posession of brains must be in want of more brains.” (GRAHAME-SMITH, S., ‘Pride and Prejudice and Zombies’, 2009, Quirk Books).
    Se partirmos desta premissa, vemos logo que os humanos têm ‘leverage’ para negociar com os zombies: afinal, os zombies querem cérebros e nós temo-los. A partir desta poderemos também extrapolar que os zombies são os inimigos naturais dos humanos não devido à barbaridade das suas mentes e da sua sociedade mas devido à sua cultura e dieta – precisam de cérebros humanos para sobreviver, e estão simplesmente a satisfazer essa necessidade. “It’s eat or be eated” no mundo zombie.
    Mas nós, os humanos sobreviventes da primeira vaga do ataque zombie, poderíamos aproveitar a sua simplicidade mental (também esta uma verdade incontornável: devido à ausência de uma dieta equilibrada de fibras e vitaminas, o q.i. zombie encontra-se, em média, nos 58) e, através do nosso ‘leverage’, utilizá-los como mão-de-obra barata para produzirem os produtos que os humanos precisam para continuar a sobreviver. Abrimos relações diplomáticas com o Estado Zombie e desenvolvemos as regras das nossas relações comerciais: eles fornecem mão-de-obra e nós fornecemos cérebros humanos. Onde arranjaremos estes cérebros? Bem, concluídas as negociações, os humanos, assegurados da sua sobrevivência pelo menos em termos da continuação de produção de bens primários, poderiam assim concentrar-se na criação de uma nova estrutura política e social, na qual teria protagonismo o sistema judicial; enquanto este é construído, os humanos que, após a primeira vaga, aproveitaram a oportunidade para, como Drezner indicou, agir impunemente seriam assim os primeiros a serem condenados a ter o seu cérebro comido por zombies. O resto dos órgãos poderiam ser distribuídos entre os outros zombies (os nutricionistas humanos que sobrevivem à primeira vaga farão um workshop a explicar a importância de variedade na dieta tradicional zombie, abrindo a sua cultura à inclusão de outros órgãos humanos nas suas refeições). Solucionaríamos assim os encargos que as prisões e os longos processos judiciais têm nas actuais sociedades democráticas e satisfazíamos as necessidades dos humanos sobreviventes. Depois desses criminosos, os membros da direcção da cadeia televisiva Fox, depois os canadianos; nesta altura o sistema judicial deverá estar já em pleno funcionamento, e poderemos dar prioridade aos criminosos.

    Desta perspectiva, o ataque zombie é um evento a aguardar não com ansiedade mas com expectativa: darwinismo assegura-nos que apenas os mais fortes e mais inteligentes sobreviverão (‘and that will a load of our minds’) e a partir daí poderemos reconstruir a sociedade ocidental sem as políticas de ‘bleeding heart idealism’ que corrompeu a efectividade do governo e da sociedade ocidental.

  6. Somando tudo, a solução ideal seria transformar-nos em zombies, que, segundo esse cenário, são uma espécie mais evoluida (afinal, conseguem pôr os humanos na situação dificil que o BA refere).

    No caso dos zombies, confesso que desconheço o mecanismo, mas no caso de lobisomens e vampiros o processo de transformação é simples (no caso dos zombies será da mesma maneira?).

  7. Caro Miguel, ao que julgo saber, o processo de transformação é simples, mas algo demorado e doloroso. Mas penso que Michelle, sendo uma especialista no tema (isto apesar do QI dela ser mais ou menos o mesmo de um zombie, a crer nos números que ela avança), o poderá ilucidar.

  8. Mas Mário Soares não é um zombie? Tinha a impressão que era, porque aqueles sons que fogem dos seus lábios nada têm de inteligência humana…
    Tal como António de Almeida Santos há muito que foi infectado. Gostaria de saber a sua opinião, será que também considera que os zombies podem arrebentar com pontes?

  9. Michelle,

    noto que será mais fácil negociar com zombies do que com terroristas. E mais, que um ataque zombie seria uma oportunidade de melhorar as nossas sociedades. Só não posso deixar passar aí um pequeno erro: o darwinismo diz-nos, não que os mais fortes ou inteligentes sobrevivem (nesse caso, eu e tu, respectivamente, estaríamos mal), mas os mais “adaptative”. Seja como for, e dado o retrato idílico da sociedade de parceria humano-zombiana que traçaste, fico a aguardar com impaciência esse dia glorioso em que os “undead” se erguerão para nos lançar no caminho da concórdia e da abundância.

  10. E já agora, Michelle, mais uma coisa: vejo pelo teor de todo o teu comentário que “pessoa profundamente perturbada” não foi exagero da minha parte.

  11. Noel, deixemos de lado essa coisa degradante que foi tratares-me por você. A ti só te digo isto: é deprimente que seja preciso eu escrever uma das maiores idiotices da minha vida (e como podes imaginar já escrevi muitas) para tu (e a Michelle também diga-se de passagem) virem aqui comentar. O que diz muito acerca de vocês. E de mim também. Estou a ver que tenho de fazer um texto acerca de como o Luke Skywalker não é um verdadeiro herói para vocês virem cá outra vez.

  12. “noto que será mais fácil negociar com zombies do que com terroristas.”

    Efectivamente, pode ser argumentado que é mais fácil lidar com um inimigo motivado por interesses (comer cérebros, neste caso) do que por ideologia; a questão aqui é se os zombies tem como motivação primeira comer cérebros ou se é um problema de diferença de valores (como é referido no 2º parágrafo do post).

  13. Voltando ao caso do Dr.Strangelove, realmente penso que a ultima imagem é a explosão em cogumelo, mas imediatamente antes temos o Dr.Strangelove a “caminhar” novamente depois de ter proposto vaults subterrâneos para os que estavam na “War Room” mais umas quantas fêmeas jovens.

    A moral é: As elites fazem as bombas, as elites explodem as bombas, as elites não sentem as bombas…

    Como se vê num cartaz a meio do filme (provavelmente referente ás NU que ainda eram novinhas mas já com o pepino arrebitado), “Peace is our Profession”.

  14. Bruno, o Luke Skywalker não é a personagem principal, mas seu pai. Anakin Skywalker, mais tarde adopta o nome de Darth Vader. Não brinquemos com coisas sérias.
    Achincalhar ex-presidentes da República Portuguesa e sua respectiva Assembleia com a verdade é um acto saudável.
    Agora achincalhar personagens que geograficamente e cronologicamente estão impossibilitadas de responder é degradante, mesmo numa democracia tão podre como a nossa.
    Porém aceito o argumento que Mário Soares já está há muito “in a galaxy far, far away, a long time ago”

    P.S.:A expressão correcta é “A long time ago in a galaxy far, far away….”

    P.S.II: Para voltar ao tema do artigo, gostaria de saber como pensam que tentariam sobreviver em caso de ataque zoombie? Tentavam sobreviver em grupo (qual o tamanho ideal?), procuravam isolamento? Preferiam criar uma sociedade democrática, despótica, aristocrática?

  15. Caro Noel,

    eu apenas disse (ou melhor, insinuei) que Luke Skywalker não merce ser louvado como um verdadeiro herói, mas podemos voltar a isso. Quanto à questão central, a minha opinião era a de que não valia a pena resistir, mas a crer tanto no António como na Michelle (embora neste último caso, como sabes, seja difícil dar-lhe grande credibilidade) pelos vistos será possível chegarmos a um acordo com as ditas criaturas, acordo esse que pelos vistos até permitiria ultrapassar alguns dos dramas das nossas sociedades. Agora, como também sabes, eu inclino-me bastante para o isolamento, com ou sem zombies.

    P.S.: acho ofensivo que sintas a necessidade de me dizer qual é a “expressão correcta”. Não terás dificuldade em imaginar que eu sei aqueles filmes todos de cor…

    P.P.S.: espero que, acerca de Cícero e St. Agostinho, demonstres a mesma desenvoltura de argumentação…

  16. Em Cícero e St. Agostinho não há lasers sabres, nem tiros de caçadeira “arrebentar”.(é mais forte a expressão e já esta incluída em vários dicionários, como a palavra “bué” contudo não signifique seja palavras de bom português, mas isso são outros 500)

    A Michelle também está nas mesmas circunstâncias que o M.S. “in a galaxy far, far away”. Chegar acordo com zombies é como chegar acordo com o vírus da Gripe ou Ébola…
    Há três hipoteses para os Zombies, dizimados, tratados ou controlados de um modo não possam contaminar ninguém, esta ultima hipótese não acredito que seja viável.

    Se pessoas como a Michelle ou Mário Soares (ambos começam por M, zombie também contem a letra M, tirem as vossas conclusões) consideram que devia haver conversações, que dialoguem eles, M.S. até tem algumas parecenças (lentidão física e problemas nas articulações e emite sons semelhantes), a Michelle não irei entrar nesse campo porque já não sou novo e quero aproveitar os meus últimos oitenta anos a fazer outras coisas.

    Eu sou mais como Burt Gummer in Tremors (Palpitações) de 1990 com Kevin Bacon na personagem Valentine McKee. A grande diferença é que considero um bunker algo com aço e betão e não a cave de uma típica casa pré-fabricada americana.

    Tendo contacto muita idiotice humana, sei que virá alguém proclamar que os zombies também têm direitos, são uma minoria (ao inicio), que devem frequentar as mesmas escolas que os nossos filhos, ate casar entre eles e deve haver casamentos mistos. (não devia ter entrado neste campo, eu sei, mas não resisti)

    P.S.: Estava quase a esquecer a questão de cotas na Assembleia da República, contudo ai há muito que estão cheias as cotas de zombies

  17. O “Tremors” é um dos piores filmes que já vi na minha vida. E nem sequer na linha “so bad it’s good” como o “Plan 9 from outer space”. è mesmo muito, muito mau…

  18. Pingback: The walking dead « O Insurgente

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