O Insurgente

Março 13, 2010

Respondendo a Rui Rodrigues

Filed under: Blogosfera,Comentário,Insurgentologia,Política — Bruno Alves @ 22:10

Parece que o meu texto de ontem sobre o PSD deu, simultaneamente, “pena” e “vontade de rir” a Rui Botelho Rodrigues. Acho estranho que algo que provoque sentimentos de “pena” ao Rui lhe dê ao mesmo tempo “vontade de rir”, um sinal de ruindade ou desequilíbrio que não abona muito a seu favor. Ou então, era apenas uma tentativa de ser “provocador”, mostrando apenas e só a sua inabilidade para o fazer. Seja como for: é por causa de textos como o do Rui que cada vez vou tendo menos paciência para os blogs. Porque esse texto mostra uma de duas coisas: ou estou a escrever para iletrados que não sabem raciocinar sobre o que escrevo, ou sou um total incompetente, que não sabe explicar o que quer dizer (a crer na opinião dos desafortunados que têm aulas comigo, a segunda hipótese é bem mais provável).

O Rui acusa-me de ser um “utilitarista” que acha que a “justiça” é apenas “o bem material do maior número”, e vislumbrou essas minhas tenebrosas convicções no post de ontem. Ele, que nota que eu pus “justiça” entre aspas, não se apercebeu que, se o fiz, por alguma razão foi. E bastava ter-me lido como deve ser para perceber que quando eu falei de “justiça” nos termos em que falei, entre aspas, me estava a referir à opinião de outras pessoas, e não à minha. Comecei por dizer que eu defendia um modelo liberal por desconfiar da espécie humana ao ponto de querer ser governado o menos possível pelo meu semelhante (e quanto mais semelhante ele for a mim, menos quero que ele me governe). Depois, referi-me a pessoas que acreditam nesse dúbio conceito da “justiça social”, e procurei mostrar como pode ser possível convencer essas pessoas de que o modelo liberal é o mais adequado para satisfazer as suas pretensões. Eu não acho que a “justiça” seja o mesmo que “utilidade”, mas, no entanto, há muito boa gente que assim pensa, e eu apenas quis dizer que o PSD, se quiser ser um partido capaz de fazer reformas em Portugal, terá de se saber dirigir a essas pessoas.

O Rui chama-me ainda de “ingénuo” por acreditar que o PSD pode ser um partido liberal. Pessoalmente, tenho as maiores dúvidas que o possa ser. Acho, isso sim, que deveria sê-lo, mas daí a acreditar que vai ser há uma distância muito grande. Poderei ser muito “ingénuo” em muitas coisas (e “juvenil”, infelizmente, sou certamente), mas em relação ao carácter e opiniões de muitas das pessoas que fazem parte do PSD, não o sou, de facto. Acredite o Rui que não preciso que ele me venha dar lições de realismo acerca do PSD, que, apesar da “ingenuidade juvenil” (que de facto me “embaraça” muito noutras àreas), há já muito tempo que as aprendi todas. O que não me impede, no entanto, de dizer que gostava que as coisas fossem diferentes. Acima de tudo, depois de ter passado meses a estudar e a escrever sobre as razões pelas quais a liberdade deve ser defendida como um valor imprescindível nos arranjos políticos, dispenso que me venham dizer que eu penso que se o comunismo trouxesse o “bem material do maior número”, eu seria comunista (não gosto que me chamem nazi, e não vejo grande diferença entre chamarem-me nazi e comunista, portanto agradecia que se abstivesse de fazer comentários desses). Claro que o Rui não tem meio de saber o que eu faço fora do blog, e portanto é natural que desconheça algumas das minhas opiniões sobre o assunto. No entanto, como já disse, bastava ter lido o meu texto com atenção para perceber como as acusações que me faz são de uma idiotice atroz. Ou, como temo, fruto da minha profunda incompetência. Seja como for, só peço ao Rui que tenha mais uma vez “pena” de mim (mas sem se rir, por favor), e me deixe em paz, até para ele próprio não ser acometido por sentimentos que visivelmente o perturbam de sobremaneira.

4 Comentários »

  1. Caro Bruno,

    1. O texto dá pena porque, considerando-me liberal, não pretendo colar-me de maneira alguma ao PSD. Aliás, sendo do género mais extremista de liberal (anarquista), não lido bem com a ideia de veícular ideias liberais pelos partidos (e muito menos por partidos como o PSD), que são parte do problema e, na minha visão, não podem ser parte da solução.

    2. Deu vontade de rir porque pareceu-me que o Bruno acreditava que havia alguma hipótese de o PSD vir a ter uma qualquer componente liberal e a ser uma força positiva no país. Não pode ter, nem ser. O Bruno também acha que não, pelos vistos. Ainda bem.

    3. Se não é utilitário, certamente parecia. Posso ter lido mal, acotece-me muitas vezes. Se aconteceu outra vez, peço perdão.

    4. A minha perspectiva pessoal sobre apresentar argumentos utilitários é a de que são secundários, e que é mais produtivo (como estratégia) sublinhar argumentos éticos. Como absolutista ético, sempre que cheiro utilitarismo fico virulento – porque compreendo as implicações graves do relativismo (como a eventual defesa do comunismo, que não era obviamente um ataque a si em particular, mas à posição utilitária em geral). São fraquezas de um libertário preso num mundo de estatistas.

    5. Pode chamar-me o que quiser, mas não me peça para não o chatear. Debater é essencial para ter fundações sólidas em qualquer movimento (e eu considero que fazemos parte do mesmo).

    6. É óbvio que o objectivo do texto era provocar. Espero que não confunda com o vervo ofender, e que compreenda o carácter essencial da provocação. Não é só uma questão de estilo. Provavelmente considera que eu devia provocar os jugularzinhos e afins, por serem os meus verdadeiros inimigos, mas que piada tem isso? Provavelmente iriam achar que lhes estava a fazer um elogio. Pelo menos consigo não corro esse perigo. Além disso, para provocar é preciso respeitar intelectualmente quem se provoca (coisa que não posso assegurar sobre os jugulares).

    7. Espero sinceramente que não deseje que o deixe em paz – no sentido de não comentar nenhum outro post seu que me pareça digno de comentário. Se o desejar mesmo, porém, passarei a guardar as minhas opiniões sobre os seus posts para mim. Eu não acredito que as boas maneiras sejam anteriores à moral, mas acho que vêm logo a seguir.

    Comentário por Rui Botelho Rodrigues — Março 13, 2010 @ 22:44

  2. Bruno, nas categorias esqueceste-te de “Insurgentologia”

    Comentário por Helder — Março 13, 2010 @ 22:50

  3. Caro Rui,

    comente-me à vontade, e desconte os meus exageros como esse “deixe-me em paz”, que eu para além de “juvenil” e “ingénuo”, tendo também a ser parvo (sem aspas). Agora, utilitarista, de facto não sou. E concordando consigo na pouca “utilidade” dos argumentos utilitários, no jogo político propriamente dito eles têm por vezes de ser usados, porque o vocabulário corrente da política é muitas vezes esse. Não é das coisas que mais me agrade, mas infelizmente é assim.

    Quanto ao PSD, gostava que tivesse esse papel positivo para o país. As minhas esperanças são poucas (já tive mais), mas, ao contrário do que acontece com o Rui, são algumas…

    Comentário por Bruno Alves — Março 13, 2010 @ 22:52

  4. Vou já mudar, Hélder…

    Comentário por Bruno Alves — Março 13, 2010 @ 22:56


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