Não tenho escrito sobre as eleições no PSD, em parte por desvio da minha atenção para outras ocupações, em parte por pura preguiça. Além disso, o que penso acerca do PSD, o que penso acerca do que o PSD deve ser, não mudou nada nos últimos anos. A relativa pobreza do país, que convida os nativos a guardarem o pouco que têm e não a correrem os riscos necessários para poderem passar a ter mais, parece ser suficiente para deitar por terra as pretensões de “liberalizar” o país. Mas com um pouco de coragem e habilidade políticas, talvez seja possível encontrar um eleitorado disposto a apoiar um PSD liberal.
Há um conjunto de pessoas que estaria sempre disposto a votar em qualquer partido que pretenda emagrecer o Estado. Para pessoas que, como este vosso escriba, desconfiam da espécie humana ao ponto de quererem ser o menos possível governadas pelo seu semelhante, ou para “liberais clássicos”, que entendem ser o modelo liberal o mais adequado à natureza humana, tais propostas seriam sempre positivas. São poucas, é certo, mas outras poderiam juntar-se-lhes: “sociais-democratas”, no sentido tradicional do termo, pessoas que, acreditando na “justiça social” (e que é função do poder político obtê-la), se dispõem a apoiar as propostas que melhor lhes pareçam satisfazer tal pretensão. Para ser uma verdadeira alternativa ao PS, e assim regressar ao poder e exercê-lo em vez de ser seu refém, o PSD precisa de, adoptando um programa “liberalizante”, criar uma “coligação de vontades” que, indo da “direita” ao “centro-esquerda” (como o fizeram Sá Carneiro e Cavaco), concentre a sua campanha nesse “centro-esquerda”. E que o faça, não cedendo ao estatismo que esses eleitores tradicionalmente preferem, mas procurando mostrar-lhes como o liberalismo, mais do que o Estado Social a que se afeiçoaram, promove melhor a tal “justiça social” que desejam, melhor promove uma sociedade na qual não apenas eles, mas também o seu vizinho, poderão ter uma vida melhor.
No fundo, o PSD deverá adoptar um programa liberal, e perguntar aos que não o são se será “justo”, por exemplo, que a classe média seja sufocada por impostos que a impedem de suportar encargos com os seus pais já reformados, obrigando assim o Estado a ocupar o seu lugar, e dessa forma, retirar a uma população activa cada vez mais diminuta uma parte cada vez maior do seu rendimento, para dar a um crescente número de seus dependentes um rendimento cada vez mais escasso? Será “justo” que uma parte cada vez maior da sociedade faça descontos para um sistema de pensões do qual sabe nunca poder vir a beneficiar? Será “justo” que, sob a ilusão de um SNS “tendencialmente gratuito”, se aumentem os custos individuais com o recurso a esse mesmo SNS? Será “justo” que, devido ao espartilho legislativo que sufoca o mercado de arrendamento, os jovens sejam praticamente obrigados a comprar uma casa e a contrair o endividamento eterno que a acompanha?
Deverá depois convencê-los de que é mais “justo” deixar o mercado funcionar, e “amparar” a queda dos que não tiverem a sorte ou a capacidade de serem bem sucedidos, do que, como no mercado da habitação, o Estado acabar por criar problemas mais graves do que aqueles que, com a sua intervenção, pretende resolver. De que é mais “justo” que sejam os doentes (e idealmente apenas os que não tiverem recursos suficientes para o fazer por si próprios) a serem financiados, em vez dos hospitais, de forma a que o estes últimos deixem de depender do Ministério da Saúde e respondam às necessidades dos que a eles recorrem. De que é mais “justo” que os indivíduos tenham a liberdade de escolher a quem entregam as suas pensões, do que ficarem presos a um sistema condenado à falência. No fundo, de que uma sociedade mais livre será uma sociedade mais “justa”.
O PSD era tradicionalmente visto como um partido de pessoas que queriam subir na vida. Anos e anos de poder transformaram-no num partido de pessoas que querem manter o emprego público. Ao mesmo tempo, os portugueses foram sendo amarrados a um Estado Social que apenas garante o empobrecimento generalizado da população. Nenhum partido, excepto o PSD, os poderá libertar. E se é verdade que não o tem querido fazer, também parece ser cada vez mais verdadeira a ideia de que não lhe resta outra alternativa que não passar a querer. O líder do PSD, seja qual for o seu nome, terá de perceber isto, se quiser libertar o partido da letargia que o tem caracterizado, e os portugueses do Estado que os sufoca. E terá de perceber que, ao contrário dos seus antecessores, terá de conduzir a opinião pública, em vez de ser conduzido por ela. O melhor candidato á liderança será aquele que melhor perceber isto. Passos Coelho não o será certamente, embora provavelmente venha a ser o vencedor. Resta saber quem merecerá mais o cargo, se Rangel se Aguiar Branco. Talvez este Congresso sirva para o perceber.
Estou inteiramente de acordo consigo. Julgo que há espaço para um programa de direita, liberal, em Portugal. Temos tido sempre governos com programas de esquerda, alguns mais ao centro, outros menos, mas de direita muitissimo pouco. Será que os abstencionistas não o são por falta de alternativas no espectro político vigente? Eu não sou abstencionista mas tenho cada vez mais dificuldade em escolher onde votar. Acho que falta a alternativa de direita liberal – quem se afirma de direira em Portugal?
Comentário por José — Março 12, 2010 @ 22:44
Rangel é, sem dúvida, o mais inteligente dos três candidatos, o único que parece ter ideias consistentes e como levá-las à prática.Mas, curiosamente,este partido sui-generis que é o PSD vai escolher para líder Passos Coelho, que me parece imprudente, irresponsável, pouco inteligente. Enfim, eles lá sabem…
Comentário por Luís — Março 13, 2010 @ 15:30
Bruno, camarada, estás a ser outed
http://lei-natural.blogspot.com/2010/03/ingenuidade-dos-utilitarios.html
é uma vergonha um Insurgente ser ultrapassado pelo lado liberal!
Comentário por AntónioCostaAmaral (AA) — Março 13, 2010 @ 18:34
Por acaso, o “outing” é um bocadinho injustificado, porque se há coisa que não sou é “utilitarista” (ingénuo até admito que sim). Mas eu depois escrevo alguma coisa sobre isso.
Comentário por Bruno Alves — Março 13, 2010 @ 18:44